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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

"mea maxima culpa"

"Quando um cientista, ou um químico cria algo e este algo acaba gerando efeitos colaterais causando algum mal, esta pessoa é punida pela comunidade científica e mais ainda pela sociedade. Vê seu nome arrastado pela lama e dificilmente conseguirá acabar com o preconceito ali estabelecido. Pois bem, partindo desta lógica, esta aplicação deveria ser regra de vida para todos, ou seja, quem erra assume seus erros e a punição não deveria passar da pessoa do condenado.

Mas aí é que começa a discussão filosófica. E vocês entenderão depois de eu apresentar os fatos. Partindo do pressuposto religioso de que deus criou todos os homens e concomitantemente todas as coisas que existem fica impossível não fazer uma analogia. 

Está mais do que provado que o homem é um ser falível seja biologicamente ou moralmente. E quando paramos para pensar que um ser perfeito como deus deu origem a um ser imperfeito como o homem, como poderíamos jogar a culpa nos ombros da criatura? Ora, é sabido que se um sujeito cria um Pit Bull desde filhote e este se torna um cão agressivo e em determinado momento ataca alguém, esta pessoa responderá pelos crimes de lesão corporal cometidos pelo animal.

Então é correto afirmar que chegamos à conclusão de que as falhas do homem não são culpa sua e sim daquele que o criou cheio de defeitos. Este é o primeiro golpe que a divindade leva nesta luta no campo das conjecturas. Ele falhou! 

Mas há quem diga que ele se redimiu, enviando um salvador para a humanidade. Um ser que, este sim, seria perfeito, sem máculas, sem pecados, totalmente ético e moral, e este inocente será punido por todos os males que a humanidade causou. Novamente, nada mais repulsivo do que tentar consertar um erro com outro erro. Punir um inocente pelo erro de outrem. Isto sim nos afeta moralmente, ora, por sabermos que alguém já foi punido por um erro que cometemos e pelos erros que possivelmente cometeremos, creio eu, geraria uma deformação no caráter de qualquer pessoa minimamente inteligente.

E se este raciocínio dialético é de certa forma uma capacidade dada por este ser criador, novamente a criatura não poderia ser punida por pensar de forma tão distorcida, neste contexto fático, a culpa regressa a Deus, num ciclo vicioso interminável.

Então surge a pergunta: "Será mesmo que ter Fé, e atribuir nossos erros a outro, nos guarnecendo de uma graça advinda dos céus não seria uma fuga da responsabilidade de nosso atos?"

E outra pergunta tão importante quanto esta outra é: "Por que seria o ateu considerado uma escória na sociedade? Quando geralmente a única atitude que ele toma é assumir seus erros e arcar com a responsabilidade de suas ações, sem atribuir as vitórias a Deus e as derrotas ao diabo?"

Ser ateu, antes de mais nada, não tem nada a ver com a negação do Deus dos outros. Via de regra o ateu pouco se preocupa com o quê ou em quê os demais creem, ele simplesmente aceita que no processo evolutivo foi desprovido de algo que o permitiria encaixar-se no mundo ideal dos que acreditam. assumindo assim um fardo que terá que carregar até o fim de seus dias. é possível que neste processo ele sofra uma metamorfose e que passe a entender que mudar é preciso, e que por mais que não haja alguém o vigiando todo o tempo, alguns atos não devem ser praticados, pois feririam os outros, e ele teria que aceitar na hora que a punição viesse.

Ser ateu é ser responsável! Não só por si mesmo, mas também pelo outro, pelo mundo. Este mundo que segundo dizem os que creem, pertence ao maligno, o que na minha opinião já é por si só um contrassenso, uma vez que todos negam a este esperando por um outro melhor, descido dos céus, mas eu pergunto: "Alguém quer deixá-lo?" Óbvio que não. Todos querem ser curados de seus cânceres, inclusive pedindo a cura a Deus, para viver no mundo que pertence ao Diabo, rejeitando assim o convite natural de viver com o Pai que os criou. 

Difícil entender, quando nos dispomos a refletir sobre o tema,

Edson Moura

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Terra, péssimo lugar para se viver



O homem andava por uma Terra ainda desabitada
O homem conhecia o caminho como a palma da sua mão
Podia sentir a terra ferindo seus pés
Sempre podia sentar-se ao lado do rio que o refrescava

As coisas simples para onde será que foram?
O homem está ficando velho e precisa de algo em que confiar
Me pergunto quando é que ele vai permitir que alguém o aconselhe
O Homem agora cansado  precisa de algum lugar para recomeçar

domingo, 3 de junho de 2012

“Calos”



Podem não acreditar na minha vida diferente
Não tiro a razão dos que me veem com os olhos do passado
Uma parte de mim mudou completamente
Digo isso porque fui bastante açoitado.

Passei por um processo de reconstrução
Sofri as dores que um adulto deve sofrer
Sai da infância feliz e cai num mundo de desilusão
Forjei a felicidade para sobreviver

Não sou o mesmo homem, talvez igual por fora
Por dentro diferente...
Por dentro é outra história...
Mudei completamente.

Tornei-me um novo ser...
Que em nada se compara com o ser que fui um dia
Cansado de sofrer...
Resolvi bater no rosto daquele que me batia

Eu sou um novo ser, bastante transformado
Apanhei mas aprendi, acho que tive sorte
A cabeça é bem mais fria e o corpo calejado
Era pra me matar, mas me deixou mais forte.

Edson Moura

terça-feira, 24 de abril de 2012

“Questões acerca da morte” (parte 3)



Por Edson Moura

Na Idade Média, nossos antepassados, com suas limitações de conhecimento e ainda com suas superstições, esta por sua vez, empapada do Cristianismo cada vez mais fortalecido, começaram a se preocupar, não mais  com o destino coletivo das pessoas de sua religião, e sim com o destino de cada indivíduo em particular. Foi então que se estruturou a crença de “julgamento após a morte”, podendo o morto sofrer punições pelos pecados cometidos durante toda a vida.

Segundo a crença anterior, Jesus voltaria, conduziria os que creram até o Paraíso. Modificado então, para um “Dia do Juízo Final”, onde seriam separados os nos dos maus, cabendo aos maus a “Punição Eterna”. “Então dirá aos que estiverem à sua direita:  ‘vinde benditos d meu pai, receberdes por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo...’ Em seguida, dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos...’ E estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna”.

É neste contexto que o conceito de purgatório se desenvolve dentro do catolicismo. Até então esta ideia não era estruturada como dogma, mas apenas como um elemento  procedente da crendice popular, muitas vezes associada à ideia de limbo (local onde as almas das crianças mortas sem batismo deveriam permanecer até a vinda definitiva de Cristo. O termo latino purgatorium (lugar de purificação) parece ter sido usado pela primeira vez no fim do século XIII, por Pierre Le Mangeur, em Paris.

No Concilio de Lyon, em 1274, o purgatório recebia uma primeira promulgação como dogma da Igreja católica, sendo definitivamente proclamado em 1439, no Concílio de Florença, que congregou Católicos romanos e ortodoxos Gregos.

Com o advento do purgatório, a ritualização da morte é modificada, no sentido de buscar o perdão para pecados cometidos em vida, procurando garantir um bom destino á alma que estivesse deixando o seu corpo mundano. Surge a possibilidade de interferir no “destino” do falecido, por meios das súplicas e indulgências dirigidas a Deus e aos santos, visando diminuir o tempo de expiação pelos pecados e facilitar a entrada do “morto” no Céu.

A morte vai tendo seus aspectos repulsivos mais explicados e valorizados. O corpo morto, frio e fedorento, passa a ser escondido. A imagem da morte vai se transformando, deixa de se “bela” e pública para ser feia e escondida, ou melhor dizendo, proibida. Os rituais que outrora acompanhavam a morte e o morrer, são agora esvaziados de sentido em uma maneira de evita o sofrimento pela própria morte. A morte antes aceita com naturalidade, ocorrendo em meio à tranquilidade dos familiares, passa a ser temida. A morte natural passa a ser a mote por velhice, enquanto todas as outras maneiras de morrer sinalizam a possibilidade de um castigo divino.

Feliz ou infelizmente, com o crescimento do pensamento filosófico e científico dos séculos XV e XVI, testemunhamos nova elaboração da vivência da morte. Com o advento do Iluminismo, a morte passa a ser dissociada de seus aspectos religiosos e sagrados, adotando a racionalidade como elemento norteador. A morte passa a ser vista principalmente como um evento biológico, sobre o qual deve-se buscar um maior controle por meio da Ciência e da Razão. Com isso, a estruturação de hospitais, o desenvolvimento da medicina e a busca pelo prolongamento da vida ganham mais atenção.

A relação entre morte e hospital foi se estreitando ao longo dos séculos. Os hospitais tiveram sua finalidade alterada de acordo com cada época e lugar. Antes do advento da medicina científica e tecnológica, o morrer em hospitais era destinado às pessoas pobres ou indigentes, que não possuíam condições financeiras de serem tratadas em suas próprias residências, portanto se dirigiam aos hospitais em busca de recuperação de sua saúde, ou mesmo para morrerem.

Antes do século XVIII o hospital era uma instituição de assistência aos pobres, que visava unicamente sua separação e exclusão. Na visão geral, o principal personagem do hospital não era o doente que poderia ser curado, mas sim, o pobre que estava morrendo e deveria ser assistido material e espiritualmente. O hospital seria portanto, um “morredouro”, um lugar para se morrer. O paradigma vigente nessa época era o paradigma do “cuidar”.

Cuidava-se dos doentes, mas sem a pretensão de reintegrá-los à sociedade, e enquanto estivessem vivos no aguardo da morte. O ato de cuidar estava inteiramente ligado à religiosidade, tendo o sagrado uma função asseguradora: “Cuidava-se do corpo e da alma, de maneira a facilitar à alma a sua entrada nos céus.

Com o tempo, a vivência da morte passou a ser restrita aos hospitais, transformados em locais de cura e recuperação de doentes, distanciando-os do convívio familiar durante sua recuperação ou mesmo no processo de morrer. Atualmente, século XXI, os cuidados médicos e hospitalares se pautam no paradigma de “curar”. Não basta cuidar do doente. É preciso curá-lo a todo custo e combater a morte. O paradigma do curar facilmente torna-se prisioneiro do domínio tecnológico da Medicina moderna. “Se algo pode ser feito, logo deve ser feito, essa é a missão”. Também idolatra a vida física a alimenta a tendência de usar o poder da Medicina para prolongar a vida, mesmo em condições inaceitáveis.

Esta idolatria da vida ganha forma na convicção de que, a inabilidade para curar ou evitar a morte, constitui-se uma falha na Medicina moderna. A falácia dessa lógica é pensar que a responsabilidade de curar termina quando os tratamentos estão esgotados.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

“Questões acerca da morte" (parte 2)


Por Edson Moura

Diante da questão da morte, os filósofos não poderiam simplesmente ignorar sua importância. Muitos filósofos, no decorrer da história da Filosofia, dedicaram profundas reflexões sobre o assunto na tentativa de apaziguar suas próprias consciências, e dar sentido àquilo que parece uma fatalidade, um absurdo, um castigo. A seguir veremos alguns dos principais filósofos nessas reflexões.

Segundo a tradição, um dos maiores filósofos foi Sócrates, embora nada tenha escrito e quase tudo que conhecemos acerca de seu trabalho fora escrito por seu discípulo Platão. Os últimos momentos da vida de seu mestre encontra-se narrado no diálogo de “Fédon” ou “Da Imortalidade da Alma”. Sócrates corajosamente aceita a sentença que seu pares lhes impuseram , negando-se a fugir como propunha seus discípulos, pois para Sócrates, obedecer as leis da cidade era uma questão de honra. Devemos nos lembrar que Sócrates também era político, uma espécie de deputado ou senador de Atenas.

Aceitando sua sentença de morte, Sócrates dá sua última “aula” aos discípulos, revelando o caráter moral de sua decisão, de coerência com o que havia dito e vivido como cidadão ateniense. Fala das virtudes (temperança, coragem, justiça) e convida seus discípulos a serem fiéis aos apelos de suas consciências, mesmo enfrentando tamanha injustiça. Diz Sócrates: “Se morrer é encontrar-se com os grandes da história de Atenas, como Péricles, pai da democracia, a morte então seria um prêmio para ele”. Impressionado com a vida e também com a morte de seu mestre, Platão revelará em praticamente todos os diálogos que escreveu, como  no “A defesa de Sócrates”, o quanto seus ensinamentos e coerência de vida eram fundamentais para construção de uma sociedade justa e de uma vida feliz.

Podemos também falar de Epicuro, nascido na cidade de Samos, tornou-se discípulo de Demócrito com apenas quatorze anos de idade. Depois de muitas idas e vindas, instala-se em Atenas onde funda sua escola filosófica para homens e mulheres, que, como não podia deixar de ser, foi alvo de fofocas escandalosas. Epicurismo ou Hedonismo, tem como princípio de sua doutrina, pregar que a felicidade humana deve se basear na vivência do prazer, o que não significa desregramento ou, imoralidade. Para ele, o prazer devia ser regido pela razão, pelo equilíbrio, ou seja, a justa medida de Aristóteles.

Epicuro ensina seus discípulos a não temer a morte, pois pior seria viver para sempre e pior, viver em desgraça, miséria ou dor. Antecipar o pensamento de morte não vale à pena, pois o morrer, em si, não faz parte da vida. Será apenas um momento que, de repente nos conduzirá para outros horizontes ou para o nada. Assim como dormimos todas as noites e não percebemos como isso acontece, assim será a morte. Portanto, o que vale na vida de verdade, é procurar viver bem, desfrutar o que há de bom, viver intensamente cada instante, e estar com os amigos.

Também Martin Heidegger, filósofo alemão, e um dos principais pensadores do século vinte, que escreveu obras como “O ser e o Tempo”, é tido como um pensador Existencialista (embora não tenha aceitado o adjetivo). Mas, ao se preocupar com um sentido mais profundo para a existência humana, ou com a questão metafísica do “ser aí”, e ao afirmar que “o homem é um ser para a morte”, Heidegger certamente se inscreve entre aqueles que tiveram um preocupação comum aos filósofos denominados existencialista, como Sartre.

O ser humano vive sua existência como projeto, com suas infinitas possibilidades de realização no futuro, mas somente uma poderá ser sua escolha, que nunca é definitiva. A todo momento a liberdade humana é chamada a se posicionar, a se ajustar, mas sabendo que a própria liberdade não é um dado pronto e acabado. A liberdade se faz a cada momento que se coloca, a cada ato, livre ou não. Todavia o homem sabe que há uma “situação limite” colocada pela morte. E este é um fato do qual homem algum poderá escapar, fazendo surgir assim a angustia existencial e as tantas perguntas sobre o sentido de nossa existência.

“Por que, e para que viver, se tudo acabará com a morte?” Quem nunca se fez esta pergunta? Devemos nos lembrar que para Heidegger, não podemos contar com a saída da crença em vida eterna, ou seja, imortalidade da alma, possibilidade dado pelos filósofos metafísicos tradicionais como Platão, Descartes, ou Leibniz.

Diante da angústia perante a desagradabilíssima e inevitável experiência da morte, o que não significa medo psicológico, depressão ou pensamento mórbido sobre a morte, temos duas saídas apenas: Uma existência autêntica dos que assumem essa angústia e aceitam sua finitude, voltando-se para um viver crítico, responsável e quem sabe livre. Se esta é a única vida que tenho, cabe somente a mim vivê-la em plenitude, a construí-la com os outros no mundo, sem medo, sem amarras, sem escravidão e mesquinharias.

A outra posição que um ser humano pode tomar diante dos pensamentos aterradores acerca de sua morte é o do homem inautêntico, que foge da angustia da morte, que nega a sua realidade por meio de mil subterfúgios, refugiando-se na impessoalidade, alienação religiosa e massificação. E por negar a angústia da morte, acaba por negar-se a si mesmo e a autenticidade de sua vida.
Edson Moura

Leia a primeira parte em: "Questões acerca da morte"

quarta-feira, 4 de abril de 2012

“Questões acerca da morte”


Por:Noreda Somu Tossan

A filosofia, ao contrário do que muitos imaginam, não deve ser complicada, ao invés disso, ela deve ser o mais objetiva possível, sem palavras difíceis, que muita das vezes estão ali presentes nos artigos filosóficos apenas para dar um ar de intelectualidade ao autor. Costumo escrever muito sobre morte, o que me rendeu um rótulo de pessimista, ou mórbido, desiludido ou decepcionado da vida, ou seja, uma pessoa propensa ao suicídio. Pois bem, que pensem o que quiserem. Não me importo (muito) com esses detalhes. Enquanto vão me tachando de frustrado eu vou vivendo e sorvendo cada minuto da minha existência como se não fosse haver outros mais.

Muitos dizem (eu inclusive) que a morte faz parte da vida, o que não soa muito correto se for sermos rigorosos com os termos. Ninguém que ainda esteja vivo, (eu, você que está lendo, todos nós) experimentou de fato o que é morrer. A morte é o fim de um processo orgânico, que ao cessar de pulsar como vida, se acaba, se extingue. Portanto, a morte faz parte do “além-vida”, a morte pertence apenas ao mundo dos mortos. O problema é que o mundo dos mortos faz parte do mundo dos vivos, seja no culto aos mortos, nos cemitérios, nos rituais fúnebres das tantas religiões, na poesia, na literatura, na saudade que fica ao perdermos um ente e na “esperança de um dia o encontrarmos novamente na eternidade”. É aqui que entra a Filosofia.

Se a morte não faz parte da vida, pelo menos ela deve fazer parte do pensamento dos que estão vivos. A consciência que nós “sapiens” temos da morte nos persegue e nos obriga a tomarmos uma posição, mesmo que esta seja fugir de sua lembrança inventando mil desculpas e sublimações. Mas já os que possuem fé, ou acreditam na continuação desta vida, concebem em suas cabeças, um paraíso ou um inferno, um nirvana, um renascer, ou seja, morrer de forma alguma é o fim para essas pessoas. Platão e Sócrates acreditavam nisso, portanto, filosofaram sobre a Vida e a Morte. Já Nietzsche e Sartre não acreditavam, mas também filosofaram. E se para Cícero, “Filosofar é aprender a morrer”, poderíamos reescrever esta frase e dizer: “Filosofar é aprender a viver”.

Todos os seres vivos morrem. Esta é uma lei natural e universal a que ninguém escapa, logo, o ser humano, como animal, também morre. É certo que os avanços na Medicina ou na engenharia Genética andam prometendo certa “imortalidade” para em breve. Mas não sabemos quando, nem como e sequer se atingiremos este sonho. Mas só o homem tem consciência de que vai morrer. E por este motivo, já antes de nossa morte, podemos senti-la, pensá-la, vivê-la, o que não deixa de ser um paradoxo. O fato é que, dessa consciência que temos de que vamos morrer, surge uma gama de possibilidades e consequências históricas, culturais, sociais e filosóficas sobre a significação humana da morte. Daí surgiu as grandes religiões, com a promessa de que o homem não morre para sempre, de que ele sobreviverá à morte física. Sejam eles os Cristãos, os Muçulmanos, os Judeus ou os Budistas.

Mas embora tantos prometam uma vida após a morte, a ressurreição, o renascer, o reencarnar-se, o nirvana, ainda persiste o problema de que cada ser humano terá que enfrentar sozinhos a “travessia com o barqueiro para o outro lado”. Mesmo com o consolo das crenças e das religiões, o medo de deixar a vida continua assombrando a humanidade, provocando calafrios, fugas, alienações, neuroses e orações. E ainda que as religiões prometam a salvação eterna, muitos de seus fiéis abarrotam as igrejas com seus corpos mortais adoecidos em busca de um milagre, curas físicas ou espirituais, prosperidade financeira, o retorno de um amor perdido, ou seja, a felicidade aqui e agora, o mais longe possível da famigerada morte. Ninguém que morrer, nem tampouco falar da morte, da sua morte. O medo da morte é um dos maiores incentivos para a atividade humana, atividade esta em boa parte destinada a evitar a chegada da inevitável morte, buscando inutilmente vencê-la, se enganando com a negação de que ela é o destino final do homem.

Se olharmos com atenção para as diversa civilizações e povos da história da humanidade veremos que todos tiveram e têm uma relação ritual e simbólica com a presença da morte. Desde que se criaram as religiões e os deuses, os rituais criados pelo homem nada mais são do que formas de se relacionarem, de “negociarem” com o sagrado, com o sobrenatural, o mistério divino, tendo com anseio galgarem uma vida que supostamente se estenderia para além desta. Assim o homem buscou, busca e continuará buscando por muito tempo ainda a imortalidade e o eterno. Foi assim que as civilizações antigas inventaram suas crenças absurdas, seus rituais grotescos (a começar pela feitiçaria).

Certamente os feiticeiros foram os primeiros a tentar controlar, pela magia, as forças, sejam elas do bem ou do mal, em benefício do próprio homem e suas necessidades de sobrevivência histórica ou para além dela. Depois deles vieram os sacerdotes, os profetas, os enviados por  Deus ou pelos deuses, tentando mostrar assim que, mesmo sem experimentar literalmente a morte era possível um prelúdio de como seria o mundo dos espíritos, de como os heróis mitológicos iam e vinham do reino dos mortos, vitoriosos, carregando a cabeça de seus inimigos, ou amarrando as serpentes infernais em cativeiros no submundo. Assim foram os deuses do Egito Antigo, Ísis, Osíris, Néftis, entre tantos outros. A crença da imortalidade da alma, que certamente inspirou a fé judaica, marcou toda a milenar cultura egípcia, cujas pirâmides que até hoje erguem-se imponentes nas areias do deserto do Saara, nada mais são do que túmulos de seus reis, guardando sarcófagos com suas múmias embalsamadas e cheias de tesouros, esperando a volta de suas almas do mundo dos mortos.

Na Grécia, os cultos a Orfeu e a Dionísio e os mistérios de Átis e de Adônis possuem a mesma essência, a saber, a morte e o renascimento. Por aí podemos avaliar que, enterrando ou cremando seus mortos, a humanidade sempre revelou e continua a revelar essa crença ou, como alguns gostam de chamar, fé, na eternidade da vida para além da morte.

Continua...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Vaidade das vaidades, tudo vaidade


Por Edson Moura
Dias desses recebi a visita de um grande amigo, aliás, dois grandes amigos, e por muitas vezes, no calor de nossos debates, refleti sobre temas que preferi não compartilhar com eles naquele momento. Agora, depois de passada a euforia de ter meus companheiros Marcio e Esdras dividindo o mesmo teto comigo, resolvi escrever sobre o que pensei naquele momento.  Ponderações sobre a velhice, a morte e o “ser feliz” num mundo já há tempos dominado pela indústria da beleza e sua falsa promessa de bem estar e eterna juventude me fizeram pensar sobre como estou conduzindo minha existência.
 
Ouvi dizer, ou talvez tenha lido em algum livro ou revista que certa feita Sócrates foi indagado ao observar atenciosamente e com profunda admiração sobre as coisas que punha os olhos. Sócrates teria respondido que, na verdade examinava quantas coisas supérfluas existiam, e que, portanto, eram prescindíveis à sua felicidade. Hoje certamente essas coisas são muito banais. De modo que não se precisa sair a cata dos encantos da sereia. Dentro desse universo do que é supérfluo estão inseridas as bugigangas mais variadas do não envelhecimento.

A Indústria da beleza vem ditando em ritmo frenético o que é necessário para ser aceito nos espaços em que ela é fundamental. Mas o que seria o “belo”? Será que o belo é o mesmo que está retratado nos outdoors e nos manequins de grifes famosas? Para nós ocidentais chafurdados no capitalismo, os encantos de um Shopping Center faz todo o sentido, todas aquelas vitrines bem montadas nos seduzem e acabam nos obrigando a viver numa espécie de comunhão religiosa com o frívolo. Parece-me que nossa felicidade vem embrulhada num papel colorido de presente. Às vezes, nem percebemos que somos indivíduos, seres “para si” existentes, pois nos equiparamos àquilo que nos gera uma provisória sensação de bem estar.

Em 1931 Giovanne Reale disse: “Dê-me televisão e hambúrguer e não me venha com sermões sobre liberdade responsabilidade. Com este mesmo sentido, e parafraseando Nietzsche, Reale afirma que “a raiz de todos os males que atinge ao homem de hoje se encontra no exatamente Niilismo. O niilismo nietzschiano reduz-se à fórmula emblemática da morte de Deus, ou seja, do esmagamento da transcendência e de todos os valores metafísicos. Ora, se isto constitui-se uma verdade, se Deus está morto e com Ele toda dimensão transcendental, prevalece então o Materialismo e com isso toda a transvaloração dos ideais supremos.

Nessa perspectiva, o bem-estar material é deve ser tratado como prioridade, e isso gera, ou pelo menos contribui muito, para o mal-estar da civilização. Chamamos esse tipo de bem –estar de “felicidade artificial”, produzido pelo consumo desregrado que chega a se tornar um hiperconsumo bulímico que se alterna com as dietas de privações na busca de um corpo perfeito, mesmo que isso gere um culto dispendioso às vitaminas e dos oligoelementos.

Todos nós conhecemos a história de Narciso, que foi um jovem de extrema beleza, mas intoleravelmente soberbo e desdenhoso. Agrado de si mesmo e a todos os mais desprezando, levava a vida no serrado dos bosques coutadas, em companhia de um grupo de amigos para quem ele era tudo. E onde Narciso ia o seguia uma ninfa chama Eco. Assim vivendo chegou certo dia, por mero acaso, à beira de uma fonte cristalina e debruçou-se. Ao enxergar nas águas sua própria imagem, perdeu-se numa contemplação e depois numa admiração tão extasiadas de si mesmo que não pode afastar-se do reflexo que mirava e ali ficou paralisado, até que a consciência o abandonou. Foi então transformado numa flor que traz seu nome, a qual desabrocha no começo da primavera. É a flor sagrada das divindades infernais: Plutão, Prosérpina e Eumênides.

 Pobre Narciso, o culto a si mesmo o fez perder sua condição de existência, consumido pelo inebriado delírio de sua imagem. Não devemos nunca esquecer também que isto é apenas um detalhe quase sem relevância frente ao seu sinistro fim, ser transformado numa flor sagrada para as divindades do inferno. Lembremo-nos então que homens deste tipo tornam-se inúteis e imprestáveis para tudo na sociedade.

A Atual conjuntura do mundo, notoriamente marcado pela evolução científica, vem cada vez mais descobrindo meios de proporcionar prazer com a “felicidade artificial”. Sabe-se que a ciência tem um papel importantíssimo no retardamento da velhice, das doenças e como era de se esperar, da morte. Claro que isso não é ruim! É maravilhoso, desde que este objetivo não nos torne escravos de tais progressos. O homem é um ser temporal, finito. E quando não aceitamos esta condição, ou seja, quando ele faz de todo seu tempo um eterno retocar de maquiagem de suas rugas e cabelos brancos, de uma busca infinita pela beleza externa ditada pelos outdoors, acabará como Narciso: Inútil e imprestável.

Devemos lembrar que essa busca incessante pela beleza e negação da velhice é evidente nos padrões sociais mais elevados, pois sabemos, ou deveríamos saber, que são os ricos que detêm o poder aquisitivo para valer-se de tais panaceias. “Nos ricos o consumo torna-se histérico, maníaco pela autenticidade, pela beleza, pela cor pura e pela saúde. São eles quem dominam as vitrines, os grandes magazines, os pequenos mercados de pulgas. A mania de frivolidade torna-se mania de ninharias. Como seria a imagem do grande Sócrates em um Shopping Center? Qual seria sua reação?

Nessa corrida desesperada o tempo acaba por tornar-se o grande vilão. Uma voz que não se cansa de nos sussurrar: “Os teus dias estão passando!”. Então corremos para o espelho, verificamos se a calvície está aumentando, se mais um fio de cabelo ficou branco, se mais uma ruga traçou nosso rosto como o leito de um rio já seco, se a barriga já nos impede de amarrar o cadarço de nossos sapatos e assim por diante.  Rapidamente corremos para academia na tentativa frustrada de reparar a flacidez de nossos músculos já cansados de tanto trabalho pesado, ou, quando ainda não estão flácidos, o que é o meu caso, tentar impedir que isto aconteça. Desesperamo-nos, pois os dias estão passando, e o inimigo cruel não tem a menor intenção de parar de correr.

 A ampulheta da consciência diz isso. Uma batalha épica é travada com nosso ego, que diz: “Eu não quero envelhecer!”. Moisés num de seus salmos disse: “...Pois todos os nossos dias vão passando na tua indignação; passamos os nossos dias como um conto que se conta. Os anos de nossa vida chegam a setenta, ou oitenta para os que tem mais vigor, entretanto, são anos difíceis e cheios de sofrimento, pois a vida passa depressa e nós voamos...". (Salmo 90.9-11). Ninguém experimentou isso melhor do que o poeta John Keats, que morreu aos 25 anos vitimado por uma tuberculose, lamentando resignadamente: “Se eu tivesse tido mais tempo!”.

Assim como a nossa morte, a velhice, por enquanto, é inevitável, aliás, podemos dizer que elas caminham lado a lado e de mãos dadas. Vez ou outra a morte chega de maneira paulatina, outras vezes o tempo a impulsiona, mesmo assim, por mais velho que estejamos, sempre acharemos que está cedo demais para abrirmos a porta e convidá-la para entrar. O segredo está no velho pensamento romano: “Lembra-te que és mortal!”. Não aceitar a velhice, e consequentemente a morte, é viver sobre o jugo de uma eterna angústia. A Angústia da luta contra o inevitável, isso gera desespero, pois em determinado momento percebemos que a luta é vã, então entramos em crise. Portanto, não adianta nos desesperarmos, velhice e morte, essas duas companheiras nos visitam todos os dias. Todos os dias a primeira nos bate à porta, enquanto a segunda fica na soleira esperando o dia em que, sorrateiramente invadirá nossa morada, com isso, quando ela entrar, nada mais podemos fazer a não ser, arrumar as malas e partir para o definitivo.

Só me resta recorrer a Salomão, o sábio: “Vaidade das vaidades, tudo vaidade”, e como disse o profeta Moisés no salmo bíblico: ...Nossa vida é um conto ligeiro.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Ainda há tempo


Por Edson Moura


Algo ainda me diz que posso ter esperança
Que no fundo somos todos crianças
O Problema é que meus olhos de adulto não me deixam ver

As estórias contadas por meu velho pai
Vez ou outra minha memória me trai
Mesmo meu cérebro adulto não me deixa esquecer

Algo me anestesie minha mente racional
Que me traga de volta o sentimento passional
Reflito e acho que já não é possível

Minha vida está passando e eu aqui...

Minha vida está passando e eu aqui...
Minha vida está passando e eu aqui... acreditando que vivi.

Como pude esquecer-me daquelas piadas?
Que animavam minhas tardes entediadas.
Meu sorriso reluta em se mostrar

Talvez tenha me tornado um velho triste
Esquecendo-me que o amor ainda existe
Nem sinto vontade de chorar.

Por que desisti da gente?
Por que me prender ao presente?
Quando foi que ergui este muro?

O Agora é real, agressivo e responsável
O que já passou é nostálgico, e irrecuperável
Só idiotas como eu não dão uma chance para o futuro.

Minha vida está passando e eu aqui...
Minha vida está passando e eu aqui...
Minha vida está passando e eu aqui... acreditando que vivi.

 Edson Moura






segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O rebanho de um homem



Por Noreda Somu Tossan

Acumular é um dos mais profundos instintos da alma. Porque a alma ama, e o amor deseja sempre possuir. Se eu amo aquela casinha de cercas brancas, onde há uma seringueira com balança e um riacho, por que não possuí-la, se posso? Ora, se ela for minha, certamente cuidarei dela, quem sabe até pintarei as janelas de azul. Se eu amo a música que ouço, por que não comprar o CD e tê-lo só pra mim? O Levarei para casa e ouvirei quantas vezes quiser, desfrutando assim daquilo que é meu. O amor é onívoro, quer comer tudo. Sabe-se que, comer é a forma mais radical de possuir. Comendo o que estava fora e era outro, passa então a ser parte do seu próprio corpo.
Juntei algumas riquezas e estou sendo açoitado por uma pergunta feita em uma parábola contada por Jesus: “Para quem ficará tudo que acumulaste?”. Quando o que se acumulou se resume a bens e dinheiro, a resposta é relativamente fácil. Dinheiro e bens são valores que se medem por meio de números. Sendo assim, basta dividir o montante pelo número de herdeiros definidos legalmente e dar a cada um a parte que lhe corresponde. Mas e as outras coisas que acumulei?
Jesus sabiamente comparou o corpo a um tesouro do qual cada um tira as coisas que ajuntou no decorrer de sua vida. Cada indivíduo tem um tesouro que é único, só seu. Portanto, no meu tesouro há uma quantidade enorme de coisas totalmente, ou, absolutamente, inúteis, que não têm valor algum no mercado. Muitos livros usados, rabiscados e empoeirados. Algumas fotografias que marcam momentos importantes em minha vida (em minha vida).  Várias poesias rabiscadas em comandas de pedidos, dessas que garçons usam. Contos, recortes, cartas, enfim, memórias.
Parece estranho, mas o fato é que as memórias são também objetos que acumulamos em nossa caminhada existencial. Estão guardadas no nosso tesouro particular, às vezes secreto. Sinto a necessidade extrema de dá-las a alguém que tome conta delas. Aí me vem a aflição por escrever. Quando escrevo estou, à minha maneira, lutando contra a morte, não a morte literal, mas sim, buscando uma certa imortalidade. A imortalidade das minhas memórias. Pelejando bravamente contra a morte das coisas que o meu amor ajuntou e que vão se perder quando eu morrer.
Já dizia Alberto Caeiro: “Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse... Quando me sento a escrever versos..., sinto um cajado nas mãos..., olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias, ou olhando para minhas idéias e vendo o meu rebanho.” Também me considero um guardador de rebanhos. Minhas ovelhas são minhas idéias, minhas memórias. Para quem ficarão minhas ovelhas quando eu partir? Quem cuidará delas com o mesmo amor que eu cuidei? É preciso encontrar alguém que as ame assim como eu as amei, que também tenha essa alma de pastor, que as chame pelo nome, que as conduza por pastos verdes e fontes de águas frescas, que as defenda dos lobos e as acaricie ao fim da tarde.
A pergunta me atravessa os pensamentos como lâmina afiadíssima: “O que acumulei numa vida inteira, para quem ficará?” “Quem cuidará do meu rebanho querido?”. Mas, talvez, esta seja uma pergunta impossível de ser respondida mesmo. Eu apenas alimentei a ilusão de ter possuído um rebanho, apenas tive a ilusão de acumular objetos, memórias, idéias. Esse rebanho nunca me pertenceu. É um grande rebanho que passeia pelos pastos do mundo, ovelhas à procura de quem cuide delas. Por um período estiveram sob meus cuidados. Eu as chamava pelo nome. Assim que eu me for, sairão por aí e provavelmente encontrarão outro pastor, que certamente saberá cuidar melhor delas do que eu mesmo cuidei. Farão delas ovelhas mais fortes, com o auxílio de outros pastores, modificarão as minhas ovelhas e logo elas se esquecerão de mim.
Minhas ovelhas jamais ficarão abandonadas. Mas alimento a esperança, novamente me entrego à ilusão, de que meu filho Jonas, ou o mais novo Cauã, serão esses pastores. E toda vez que eles virem uma de minhas ovelhas machucada, ou desgarrada do rebanho, a trarão de volta, tirarão os carrapatos e lembrarão-se do velho pastor que não deixou nada, a não ser, suas memórias escritas, mas escritas com amor.
Noreda Somu Tossan

quarta-feira, 6 de julho de 2011

“Morte...morte...morte”

                                

Por que escrevo tanto sobre a morte? Será que sou considerado por muitos, uma pessoa frustrada, com propensão ao suicídio, totalmente destituído de perspectiva de vida? Talvez esta seja a verdade dos indivíduos que apenas lêem meus textos, mas não me conhecem de fato. A filosofia antiga está repleta de pensamentos acerca da morte, e isso não fazia dos filósofos que propunham a “tenebrosa temática”, homens mórbidos.

Devemos, ou pelo menos deveríamos, desde pequenos, começar a pensar que a morte não é nada para nós, porque todo o bem e todo o mal residem apenas na sensação. Sendo assim, um entendimento correto deste fato torna nossa vida mortal deliciosa, visto que não impõe um tempo infinito, pelo contrário, afasta o desejo de imortalidade. Porque nada há de terrível na vida para quem compreende que não há nada de terrível em não viver. A morte, o mais tenebroso dos males, não é nada para nós, porque enquanto nós existimos, a morte não existe e quando a morte está presente nós estamos ausentes.

Ao falar de morte, muitos de nós “bate na madeira” para “isolar”, quanta bobagem, quanto medo irracional, pois, se analisarmos cuidadosamente a frase de Epícuro acima, veremos que ele acertou em suas ponderações sobre a morte. Como podemos sentir medo de uma situação que, ao nos acometer, nem sequer estaremos mais presentes? Outros já dizem que não querem nem imaginar a sua própria morte, com a desculpa de que existem pessoas que dependem de sua presença para subsistir, exemplo um filho recém nascido, uma esposa dependente, ou uma mãe já idosa. Mentira! Estão é com medo.

Nesta paranóia delirante de céu e inferno, muitos de nós nos esquecemos de viver bem. A maioria de nós não se preocupa em levar uma vida com intensidade, uma vida autêntica, com algumas virtudes necessárias, e também algumas mazelas. Nos preocupamos apenas com quanto tempo poderemos viver. Todos podem viver bem, mas, o poder de viver muito, este definitivamente ninguém tem. Então por que não exercitar a “sensação” de estar morto, de não mais pertencer ao mundo? Parece ridículo isto que proponho? Pois saibam que todos os dias, mesmo sem sabermos, praticamos este exercício.

Ao acordamos, após uma noite de sono, nada mais fazemos que “despertar” para a vida, mais um dia em que desfrutaremos da singular experiência de se estar vivo. Podemos comparar isto a um nascimento, pois a cada despertar, nascemos para um novo dia de vida. E ao final deste dia que, dependendo de como o aproveitamos, terá sido bom ou mal, repousaremos nosso corpo em uma cama, ou seja lá onde quer que dormimos, e nos entregaremos ao sono, que nada mais é do que a morte deste dia que infelizmente findou. O que é a morte senão um adormecer sem sonhos?!

Cometemos um erro em não pensarmos na morte. Fugimos de uma futuro inexorável e evitamos pensar na única coisa que nos está garantida, a saber, a morte. O problema é que imaginamos a morte sempre à nossa frente, olhamos para a morte hoje, como uma sombra de nosso futuro, sem percebermos que uma grande parte dela já foi deixada para trás. Cada segundo, cada minuto e cada hora do nosso passado pertence à morte.

Aproveitem esta ÚNICA vida ao máximo, mesmo que enganosamente lhe prometam outra num lugar “melhor”. Não arrisque desperdiçar uma experiência tão maravilhosa quanto VIVER na Terra.

Edson Moura

terça-feira, 22 de março de 2011

Deus...Ilusão do homem

Por Noreda Somu Tossan

Procure entender o pensamento de um existencialista ateu. Ele tenta dizer que Deus não existe e que existe apenas um ser cuja existência precede a essência, a saber...o homem. Como diria Dostoievsk: “Se Deus não existisse tudo seria permitido”. O homem “abandonado” e “sozinho” no mundo, sem um criador no qual possa se amparar é o seu próprio criador.

O homem é o que é. Ele se constrói a partir do nada e por isso vive de angústias, de náuseas, como diria Sartre. “Tentando ser”, o homem depara-se com o desejo de ser Deus e com a angústia de jamais poder sê-lo. A idéia de Deus para o homem é de onipotência e onisciência, e o desejo de sê-lo representa ser e compreender tudo, não sofrer limites e condicionamentos, realizar-se em todos os sentidos possíveis.

Mas Deus não resolve nada. Esta é a base de todo ateísmo sartreano. Ele julgava que Deus não ajudava ou colaborava com as realizações ou problemas humanos, porque toda e qualquer experiência que o homem realiza, seja ela boa ou má, quer o leve ao prazer...à angústia ou até mesmo à náusea, é de sua inteira responsabilidade. O homem é só e, como tal, é responsável por tudo o que fizer, pois o nada de onde vem o persegue por toda a “eternidade”.

Em determinado momento da minha vida eu tive a necessidade de Deus, ele me foi dado, e eu o recebi sem compreender na verdade o que procurava. Mas este Deus por não ter raízes em meu coração, vegetou em mim durante um período de tempo...mas logo morreu.

Posso comparar “fé” com “necessidade”, pois na minha concepção, são termos similares. O homem sente a necessidade de encontrar um sentido para vida, pois, nascido sem razão ou com um propósito pré-determinado, descobre-se como angústia. Essa necessidade se reflete na crença.

Ter fé em Deus é o mesmo que alienar-se diante de sua própria liberdade. O absurdo do mundo é absoluto devido a sua constante possibilidade. Tudo é gratuito. A vida humana não possui sentido e, para superar esta faceta da existência, o homem inventa Deus. Entretanto, cabe ao homem dar sentido a sua própria vida.

Ora, acreditar que a vida humana tem um sentido dado por Deus, não passa de uma grande ilusão. A única coisa que a vida dá ao homem é a sua liberdade de poder escolher fazer dela o que bem quiser. Se Deus não existe, cabe ao homem decidir, sozinho, o melhor caminho para suas escolhas, que conseqüentemente determinarão sua vida e sua essência.

Também critico o conceito de Deus que é propagado, pois o descrevem como uma entidade inteligível, mas que não pode ser compreendida. A única prova que temos da existência de Deus é a fé, e isso eu também critico. Pelo menos uma evidência, deveria ser critério fundamental de inteligibilidade, mas como não há provas ou evidências, acredito ser impossível aceitar a existência de Deus.

O conceito de Deus criado pelo homem une todos os desejos que o homem deseja para si. O que o homem chama de Deus, nada mais é do que a sua aspiração, o seu próprio projeto supremo de vida, todas as idéias que o homem deseja para si e que sabe que jamais conquistará, porque por mais livre e capaz que seja, ele possui limites impostos pela natureza.

A religião, assim como a superstição, anula a liberdade humana. O povo, sob o comando de Deus, é servil e escravo...sem vontade e amedrontado. Para que de fato o homem possa “viver”, Deus precisa desaparecer. “Se Deus existe, o homem é um nada, mas se o homem existe...então...Deus não existe”.

Se o homem se considera livre, e pretende manter essa sua liberdade, ele deve escapar e se distanciar de Deus. O homem deve escolher a si mesmo e, conseqüentemente, amar a humanidade em oposição ao amor de Deus. Se Deus não existe não há imposição de valores, não há firmamento nem moral por fundamento. Cabe ao home “re-significar” a ética a cada instante, “re-significar” cada valor sem refugiar-se em justificativas ou desculpas, pois está sozinho no mundo junto com outros seres tão mortais quanto ele.

O homem só desenvolve uma relação consigo mesmo quando elimina Deus de sua vida, pois passa a ter uma relação direta com o mundo, e não com “algo transcendental”. É como disse Fauerbach: “Deus não cria o homem, é o homem que cria Deus”. A fé religiosa representa as próprias qualidades e aspirações do homem que, ao sentir-se fracassado, aliena-se e constrói uma divindade superior.

Edson Noreda

sexta-feira, 18 de março de 2011

Infância e Juventude

Por Edson Moura

Amigos de infância são os melhores, pois a amizade não está vinculada a valores, mas sim, a afeição, e é por isso que duram para sempre. Mesmo depois de décadas separados, os amigos não deixam de pensar um no outro com saudades de quando eram apenas meninos ingênuos que fariam tudo para brincar um pouco mais.

Amor de juventude será sempre eterno, pois ao se entregarem, só visavam o prazer de estar sempre ao lado um do outro. A paixão que transformou o infante em jovem, nunca será esquecida, e mesmo que ambos cresçam e casem-se com outras pessoas, seus corações baterão forte novamente ao ver a pessoa que lhe mostrou o amor. Não adianta lutar, é bobagem tentar esquecer, é mentira dizer que não sente falta, é ilusão achar que se está feliz sem seu grande amor de juventude.

Assim também são os medos de infância.  Ele nos persegue até o fim da vida. Psicólogos até podem amenizar o problema, e dizerem que estão tratando, mas o que eles estão fazendo é apenas "ensinando" como conviver com os medos de menino. Alguns dizem estar bem, mas quando a luz se apaga e ele se vêem sozinhos no quarto escuro, a única ação que lhes vem à cabeça é esconderem-se embaixo do cobertor e encolher os pés para que a brisa fria da noite não o faça urinar nas calças ao entrar suavemente pela janela entreaberta.

O sonho da juventude pode se tornar seu maior pesadelo, pois enquanto você não alcançá-lo, não será plenamernte feliz, mas se depois de uma vida inteira lutando, você conseguir realizá-lo, tudo perderá o sentido, e o desejo que lhe impulsionava adiante na vida, será substituído pelo vazio de já possuir seu sonho. Uma das tragédias do homem é não alcançar seu sonho, pois lhe causa frustração. A outra tragédia é justamente alcançá-lo, pois lhe roubará a vontade de sonhar.

Somos seres que nos prendemos ao passado. Passado este que será sempre presente e nos conduzirá ao futuro. É na infância e juventude que descobrimos o prazer de ter um "melhor amigo", de amar uma garota e querer viver com ela para sempre, de descobrir que o futuro do mundo depende de você e não devemos deixar um mundo melhor para nossos filhos, mas sim filhos melhores para nosso mundo.

Que saudades que tenho da minha juventude. Que vontade de abraçar meu melhor amigo e dizer que o amo sem medo de ser considerado "bichinha". Como gostaria de ter vivido para sempre com meu primeiro amor, e poder rememorar com ela os tempos de escola, quando nós cabulávamos aula para namorar no jardim...quanta saudade.

Edson Moura


sexta-feira, 11 de março de 2011

Minha escolha


Não me tirem as lembranças, pois elas são o combustível que faz meu coração bater. Não me tirem a dor, pois ela é o parâmetro para que eu possa avaliar minha saúde. Não me tirem a tristeza, pois somente com ela eu consigo lembrar-me de como fui feliz. Não me tirem a escuridão, porque aos poucos meus olhos desprezarão a luz.

Não me tirem a fome, para que eu não reclame do pouco que ainda tenho. Não me tirem a pobreza, pois certamente eu desprezaria o miserável. Não me façam elogios, para que o orgulho não me domine. Não deixem de me abraçar, para que a frieza não tome o lugar do calor humano.

Não me falem sempre a verdade, porque algumas mentiras nos mantêm amigos. Não me mostrem tudo, para que eu não perca a vontade de descobrir coisas novas. Não me tirem a insônia, porque dormindo eu não vejo a vida passar. Não afastem a morte de mim, porque é eminência de sua chegada que me deixa com sede de viver mais um dia.

Não furtem meus livros, porque às vezes eles são meus únicos companheiros. Não se esqueçam de mim, para que, uma vez morto, eu não deixe de existir. Não me amem demais, para que a insegurança não atormente tua alma. Não me amem de menos, para que eu não me sinta tão rejeitado.

Não tirem meus filhos, porque eu os amo muitíssimo. Não se apeguem demais às pessoas, para que quando elas se forem, você também não se vá. Não me deixem envelhecer além do necessário, para que eu não me sinta um total inútil. Não me mantenha vivo, se acaso tornar-me um peso em suas vidas.

Não se enganem comigo, pois posso não ser a pessoa que imaginam que eu seja. Não se entristeçam se um dia descobrirem que os enganei, porque eu só quis fazer o bem, escolhendo uma mentira que salva a uma verdade que destrói. Não pensem que não percebe quando estou sendo enganado, pois sei que algumas verdades são tão preciosas que devem ser escondidas até com as maiores mentiras.

Odeiem-me, e depois de me conhecer melhor, talvez me amem. É melhor do que me amarem, e ao saber como sou verdadeiramente, me odeiem. Porque sabemos quão maravilhosas são as pessoas que não conhecemos intimamente. Não se encantem com meu jeito engraçado, pois por traz deste rosto alegre, pode existir um coração triste, uma mente confusa e um ser miserável e mau.

Não gastem sua saúde buscando dinheiro demais, pois lá na frente, olhará para trás e verá que nada fez, e que é um velho, doente e solitário. Então gastará a fortuna acumulada em busca de saúde, amigos e paz. Mas não encontrará. Sentará e rirá de suas próprias tolices.

Não viva pensando no futuro, vivendo uma época que ainda não existe, pois certamente, ao chegar lá, começará a saborear apenas os sonhos do passado, então entenderá que deveria ter aproveitado mais o presente, amado quem estava ao seu lado e experimentado os prazeres da juventude

E para terminar este testamento, feito numa época em que minhas saúde mental ainda não havia me abandonado, digo: Não sintam-se culpados por coisa alguma, porque todas essas escolhas foram minhas...não suas.

Edson Moura