sexta-feira, 5 de agosto de 2016

"Questões acerca da morte" (1ª Parte, por um viés religioso)

A filosofia, ao contrário do que muitos imaginam, não deve ser complicada, ao invés disso, ela deve ser o mais objetiva possível, sem palavras difíceis que muita das vezes estão ali, presentes nos artigos filosóficos apenas para dar um ar de intelectualidade ao autor. Costumo escrever muito sobre morte, o que me rendeu um rótulo de pessimista, mórbido, desiludido ou decepcionado com a vida, ou seja, uma pessoa propensa ao suicídio. Pois bem, que pensem o que quiserem. Não me importo (muito) com esses detalhes. Enquanto vão me tachando de frustrado eu vou vivendo e sorvendo cada minuto da minha existência como se não fosse haver outros mais. 

Muitos dizem (eu inclusive) que a morte faz parte da vida, o que não soa muito correto se formos ser rigorosos com os termos. Ninguém que ainda esteja vivo, (eu, você que está lendo, todos nós) experimentou de fato o que é morrer. A morte é o fim de um processo orgânico, que ao cessar de pulsar como vida, se acaba, se extingue. Portanto, a morte faz parte do “além-vida”, a morte pertence apenas ao mundo dos mortos. O problema é que o mundo dos mortos faz parte do mundo dos vivos, seja no culto aos mortos, nos cemitérios, nos rituais fúnebres das tantas religiões, na poesia, na literatura, na saudade que fica ao perdermos um ente querido e na “esperança de um dia o encontrarmos novamente na eternidade”. É aqui que entra a Filosofia.

Se a morte não faz parte da vida, pelo menos ela deve fazer parte do pensamento dos que estão vivos. A consciência que nós “sapiens” temos da morte nos persegue e nos obriga a tomarmos uma posição, mesmo que esta seja fugir de sua lembrança inventando mil desculpas e sublimações. Mas já os que possuem fé, ou acreditam na continuação desta vida, concebem em suas cabeças, um paraíso ou um inferno, um nirvana, um renascer, ou seja, morrer de forma alguma é o fim para essas pessoas. Platão e Sócrates acreditavam nisso, portanto, filosofaram sobre a Vida e a Morte. Já Nietzsche e Sartre não acreditavam, mas também filosofaram. E se para Cícero, “Filosofar é aprender a morrer”, poderíamos reescrever esta frase e dizer: “Filosofar é aprender a viver”.

Todos os seres vivos morrem. Eu disse Todos! Esta é uma lei natural e universal a que ninguém escapa, logo, o ser humano, como animal, também morre. É certo que os avanços na medicina ou na engenharia genética andam prometendo certa “imortalidade” para em breve. Mas não sabemos quando, nem como e sequer, se atingiremos este sonho. Mas só o homem tem consciência de que vai morrer. E por este motivo, já antes de nossa morte, podemos senti-la, pensá-la, vivê-la, o que não deixa de ser um paradoxo. O fato é que, dessa consciência que temos de que vamos morrer, surge uma gama de possibilidades e consequências históricas, culturais, sociais e filosóficas sobre a significação humana da morte. Daí surgiu as grandes religiões, com a promessa de que o homem não morre para sempre, de que ele sobreviverá à morte física. Sejam eles os Cristãos, os Muçulmanos, os Judeus ou os Budistas.

Mas embora tantos prometam uma vida após a morte, a ressurreição, o renascer, o reencarnar-se, o nirvana, ainda persiste o problema de que cada ser humano terá que enfrentar sozinhos a “travessia com o barqueiro para o outro lado”. Mesmo com o consolo das crenças e das religiões, o medo de deixar a vida continua assombrando a humanidade, provocando calafrios, fugas, alienações, neuroses e orações. E ainda que as religiões prometam a salvação eterna, muitos de seus fiéis abarrotam as igrejas com seus corpos mortais adoecidos em busca de um milagre, curas físicas ou espirituais, prosperidade financeira, o retorno de um amor perdido, ou seja, a felicidade aqui e agora, o mais longe possível da famigerada morte. Ninguém que morrer, nem tampouco falar da morte... da sua morte. O medo da morte é um dos maiores incentivos para a atividade humana, atividade esta, em boa parte destinada a evitar a chegada da inevitável morte, buscando inutilmente vencê-la, enganando-se com a negação de que ela seja o destino final do homem.

Se olharmos com atenção para as diversas civilizações e povos da história da humanidade veremos que todos tiveram e têm uma relação ritual e simbólica com a presença da morte, embora, possamos encontrar sociedades que lidem de diferentes formas com a mesma. Desde que se criaram as religiões e os deuses, os rituais criados pelo homem nada mais são do que formas de se relacionarem, de “negociarem” com o sagrado, com o sobrenatural, o mistério divino, tendo como anseio galgarem uma vida que supostamente se estenderia para além desta. Assim o homem buscou, busca e continuará buscando por muito tempo ainda a imortalidade e o eterno. Foi assim que as civilizações antigas inventaram suas crenças absurdas, seus rituais grotescos (a começar pela feitiçaria).

Certamente os feiticeiros foram os primeiros a tentar controlar, pela magia, as forças, sejam elas do bem ou do mal, em benefício do próprio homem e suas necessidades de sobrevivência histórica ou para além dela. Depois deles vieram os sacerdotes, os profetas, os enviados por  Deus ou pelos deuses, tentando mostrar assim que, mesmo sem experimentar literalmente a morte era possível um prelúdio de como seria o mundo dos espíritos, de como os heróis mitológicos iam e vinham do reino dos mortos, vitoriosos, carregando a cabeça de seus inimigos, ou amarrando as serpentes infernais em cativeiros no submundo. Assim foram os deuses do Egito Antigo, Ísis, Osíris, Néftis, entre tantos outros. A crença da imortalidade da alma, que certamente inspirou a fé judaica, marcou toda a milenar cultura egípcia, cujas pirâmides que até hoje erguem-se imponentes nas areias do deserto do Saara, nada mais são do que túmulos de seus reis, guardando sarcófagos com suas múmias embalsamadas e cheias de tesouros, esperando a volta de suas almas do mundo dos mortos.

Na Grécia, os cultos a Orfeu e a Dionísio e os mistérios de Átis e de Adônis possuem a mesma essência, a saber, a morte e o renascimento. Por aí podemos avaliar que, enterrando ou cremando seus mortos, a humanidade sempre revelou e continua a revelar essa crença ou, como alguns gostam de chamar, fé, na eternidade da vida para além da morte.
 
Continua...

Edson Moura

Questões acerca da morte (2ª Parte, por um viés psicológico)

Diante da questão da morte, os filósofos não poderiam simplesmente ignorar sua importância. Muitos filósofos, no decorrer da história da Filosofia, dedicaram profundas reflexões sobre o assunto na tentativa de apaziguar suas próprias consciências, e dar sentido àquilo que parece uma fatalidade, um absurdo, um castigo. A seguir veremos alguns dos principais filósofos nessas reflexões. 

Segundo a tradição, um dos maiores filósofos foi Sócrates, embora nada tenha escrito e quase tudo que conhecemos acerca de seu trabalho fora escrito por seu discípulo Platão. Os últimos momentos da vida de seu mestre encontra-se narrado no diálogo de “Fédon” ou “Da Imortalidade da Alma”. Sócrates corajosamente aceita a sentença que seus pares lhe impuseram, negando-se a fugir como propunha seus discípulos, pois para Sócrates, obedecer as leis da cidade era uma questão de honra. Devemos nos lembrar que Sócrates também era político, uma espécie de deputado ou senador de Atenas.

Aceitando sua sentença de morte, Sócrates dá sua última “aula” aos discípulos, revelando o caráter moral de sua decisão, de coerência com o que havia dito e vivido como cidadão ateniense. Fala das virtudes (temperança, coragem, justiça) e convida seus discípulos a serem fiéis aos apelos de suas consciências, mesmo enfrentando tamanha injustiça. Diz Sócrates: “Se morrer é encontrar-se com os grandes da história de Atenas (como Péricles, pai da democracia), a morte então seria um prêmio para ele”. Impressionado com a vida e também com a morte de seu mestre, Platão revelará em praticamente todos os diálogos que escreveu, como  no “A defesa de Sócrates”, o quanto seus ensinamentos e coerência de vida eram fundamentais para construção de uma sociedade justa e de uma vida feliz.

Podemos também falar de Epicuro, nascido na cidade de Samos, tornou-se discípulo de Demócrito com apenas quatorze anos de idade. Depois de muitas idas e vindas, instala-se em Atenas onde funda sua escola filosófica para homens e mulheres, que, como não podia deixar de ser, foi alvo de fofocas escandalosas. Epicurismo ou Hedonismo, tem como princípio de sua doutrina, pregar que a felicidade humana deve se basear na vivência do prazer, o que não significa desregramento ou, imoralidade. Para ele, o prazer devia ser regido pela razão, pelo equilíbrio, ou seja, a justa medida de Aristóteles.

Epicuro ensina seus discípulos a não temer a morte, pois pior seria viver para sempre e pior, viver em desgraça, miséria ou dor. Antecipar o pensamento de morte não vale a pena, pois o morrer, em si, não faz parte da vida. Será apenas um momento que, de repente nos conduzirá para outros horizontes ou para o nada. Assim como dormimos todas as noites e não percebemos como isso acontece, assim será a morte. Portanto, o que vale na vida de verdade, é procurar viver bem, desfrutar o que há de bom, viver intensamente cada instante, e estar com os amigos.

Também Martin Heidegger, filósofo alemão, e um dos principais pensadores do século vinte, que escreveu obras como “O ser e o Tempo”, é tido como um pensador Existencialista (embora não tenha aceitado o adjetivo). Mas, ao se preocupar com um sentido mais profundo para a existência humana, ou com a questão metafísica do “ser aí”, e ao afirmar que “o homem é um ser para a morte”, Heidegger certamente se inscreve entre aqueles que tiveram uma preocupação comum, aos filósofos denominados existencialista, como Sartre.

O ser humano vive sua existência como projeto, com suas infinitas possibilidades de realização no futuro, mas somente uma poderá ser sua escolha, que nunca é definitiva. A todo momento a liberdade humana é chamada a se posicionar, a se ajustar, mas sabendo que a própria liberdade não é um dado pronto e acabado. A liberdade se faz a cada momento que se coloca, a cada ato, livre ou não. Todavia o homem sabe que há uma “situação-limite” colocada pela morte. E este é um fato do qual homem algum poderá escapar, fazendo surgir assim a angústia existencial e as tantas perguntas sobre o sentido de nossa existência.

“Por que, e para que viver, se tudo acabará com a morte?” Quem nunca se fez esta pergunta? Devemos nos lembrar que para Heidegger, não podemos contar com a saída da crença em vida eterna, ou seja, imortalidade da alma, possibilidade dado pelos filósofos metafísicos tradicionais como Platão, Descartes, ou Leibniz.

Diante da angústia perante a desagradabilíssima e inevitável experiência da morte, o que não significa medo psicológico, depressão ou pensamento mórbido sobre a morte, temos duas saídas apenas: Uma existência autêntica dos que assumem essa angústia e aceitam sua finitude, voltando-se para um viver crítico, responsável e quem sabe livre. Se esta é a única vida que tenho, cabe somente a mim vivê-la em plenitude, a construí-la com os outros no mundo, sem medo, sem amarras, sem escravidão e mesquinharias.

A outra posição que um ser humano pode tomar diante dos pensamentos aterradores acerca de sua morte é o do homem inautêntico, que foge da angústia da morte, que nega a sua realidade por meio de mil subterfúgios, refugiando-se na impessoalidade, alienação religiosa e massificação. E por negar a angústia da morte, acaba por negar-se a si mesmo e a autenticidade de sua vida.

Mas e os que ficam? Deixemos de lado um pouco os Filósofos, e falemos dos psicólogos que buscam uma explicação e até uma sistematização do luto para quem perde um ente querido. Os psicólogos, observam, na clínica, o aumento do volume dessa demanda significativa no vivenciar e expressar essa dor, e que experimenta sensações e emoções até então desconhecidas e inconcebíveis.

Para quem fica, o que lhe resta é conviver com a “presença da ausência” e cada um lidará de uma maneira diferente com este sentimento. Não é uma dor física, produzida pela estimulação de terminações nervosas específicas em sua recepção, mas a dor com sentido, com razão de ser e significados muito subjetivos, com sentimento de pesar, de aflição. Alguns primeiramente NEGARÃO a existência desta dor. Criarão estratagemas para lidar com ela, fingirão que não aconteceu, inventarão situações que proporcionem certa alienação da realidade da perda e geralmente não quererão falar sobre o assunto.

Então surge a RAIVA, a indignação, os questionamentos do “por quê comigo?”, o que eu fiz para merecer isso?”. Revoltar-se-á com Deus, com os outros e até consigo. Alguém é o culpado e precisa ser punido. Vai tentar BARGANHAR na sequência. Dirá certamente que “há males que vem para o bem”, que “o que não me mata me deixa mais forte” e nesta negociação consigo mesmo, dirá que se sair desta situação será uma pessoa melhor, amará mais, ouvirá mais, perdoará mais, acertará mais, e se importará menos com problemas pequenos.

Até aqui tudo parece bem, mas então vem a DEPRESSÃO. É agora que a pessoa se afasta para um mundo que é só seu, acaba por isolar-se dos demais, inclusive das pessoas que lhe querem ajudar. Mergulha na melancolia e definitivamente se vê totalmente impotente para lutar com esta dor. Agora arrasada, se entristece muito mais do que outrora. O mundo fica cinza, as flores perdem as cores, o canto dos pássaros não agradam mais, pelo contrário, a felicidade impressa no canto deles chega a incomodar, assim como a felicidade de qualquer outro ser. A raiva retorna, aliás, não há uma sequência lógica para esses sentimentos, hora aparece um, hora surgirá outro. A mente da pessoa mais parece um barril de pólvora prestes a explodir à menor faísca.

Não há mal que dure cem anos”, já disse alguém não sei quem e não sei quando. Alguns...alguns repito, ACEITARÃO. Se a pessoa conseguiu vislumbrar uma luz no fim do túnel, e bravamente superou as fases mais atrozes de uma perda, ou de um luto mais especificamente, finalmente ela estará pronta para prosseguir sua vida. Não há mais desespero, não há mais raiva nem negação ou depressão, a dor agora já é quase imperceptível. Restou apenas uma saudade. O cheiro da pessoa que se foi, ficará em outras pessoas com as quais consequentemente cruzará na rua. Se não se desfez dos objetos do que se foi, as roupas ainda penduradas nos cabides trarão boas lembranças. Uma comida que ela gostava, uma canção que lembrará uma dança que aconteceu, e possivelmente lágrimas brotarão, e serão pesadas, difíceis de segurar, mas não serão lágrimas desesperadas, não serão lágrimas de dor, e sim de alegria. Alegria por poderem ter convivido com alguém tão especial.

Continua...

Edson Moura.

Questões acerca da morte (3ª Parte, por um viés científico)



Na Idade Média, nossos antepassados, com suas limitações de conhecimento e ainda com suas superstições, esta por sua vez, “empapada” do Cristianismo cada vez mais fortalecido, começaram a se preocupar, não mais  com o destino coletivo das pessoas de sua religião, e sim, com o destino de cada indivíduo em particular. Foi então que se estruturou a crença de “julgamento após a morte”, podendo o morto sofrer punições pelos pecados cometidos durante toda a vida.

Segundo a crença anterior, Jesus voltaria, conduziria os que creram até o Paraíso. Modificado então, para um “Dia do Juízo Final”, onde seriam separados os bons dos maus, cabendo aos maus a “Punição Eterna”. [...Então dirá aos que estiverem à sua direita: vinde benditos de meu pai, receberdes por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo... Em seguida, dirá aos que estiverem à sua esquerda: apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos... E estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna...]


É neste contexto que o conceito de purgatório se desenvolve dentro do catolicismo. Até então esta ideia não era estruturada como dogma, mas apenas como um elemento  procedente da crendice popular, muitas vezes associada à ideia de limbo (local onde as almas das crianças mortas sem batismo deveriam permanecer até a vinda definitiva de Cristo. O termo latino purgatorium (lugar de purificação) parece ter sido usado pela primeira vez no fim do século XIII, por Pierre Le Mangeur, em Paris.

No Concílio de Lyon, em 1274, o purgatório recebia uma primeira promulgação como dogma da Igreja católica, sendo definitivamente proclamado em 1439, no Concílio de Florença, que congregou Católicos romanos e ortodoxos Gregos.

Com o advento do purgatório, a ritualização da morte é modificada, no sentido de buscar o perdão para pecados cometidos em vida, procurando garantir um bom destino à alma que estivesse deixando o seu corpo mundano. Surge a possibilidade de interferir no “destino” do falecido, por meios das súplicas e indulgências dirigidas a Deus e aos santos, visando diminuir o tempo de expiação pelos pecados e facilitar a entrada do “morto” no Céu.

A morte vai tendo seus aspectos repulsivos mais explicados e valorizados. O corpo morto, frio e fedorento, passa a ser escondido. A imagem da morte vai se transformando, deixa de se “bela” e pública para ser “feia” e escondida, ou melhor dizendo, proibida. Os rituais que outrora acompanhavam a morte e o morrer, são agora esvaziados de sentido em uma maneira de evitar o sofrimento pela própria morte. A morte antes aceita com naturalidade, ocorrendo em meio à tranquilidade dos familiares, passa a ser temida. A morte natural passa a ser a morte por velhice, enquanto todas as outras maneiras de morrer sinalizam a possibilidade de um castigo divino.

Feliz ou infelizmente, com o crescimento do pensamento filosófico e científico dos séculos XV e XVI, testemunhamos nova elaboração da vivência da morte. Com o advento do Iluminismo, a morte passa a ser dissociada de seus aspectos religiosos e sagrados, adotando a racionalidade como elemento norteador. A morte passa a ser vista principalmente como um evento biológico, sobre o qual deve-se buscar um maior controle por meio da Ciência e da Razão. Com isso, a estruturação de hospitais, o desenvolvimento da medicina e a busca pelo prolongamento da vida ganham mais atenção.

A relação entre morte e hospital foi se estreitando ao longo dos séculos. Os hospitais tiveram sua finalidade alterada de acordo com cada época e lugar. Antes do advento da medicina científica e tecnológica, o morrer em hospitais era destinado às pessoas pobres ou indigentes, que não possuíam condições financeiras de serem tratadas em suas próprias residências, portanto se dirigiam aos hospitais em busca de recuperação de sua saúde, ou mesmo para morrerem.

Antes do século XVIII o hospital era uma instituição de assistência aos pobres, que visava unicamente sua separação e exclusão. Na visão geral, o principal personagem do hospital não era o doente que poderia ser curado, mas sim, o pobre que estava morrendo e deveria ser assistido material e espiritualmente. O hospital seria portanto, um “morredouro”, um lugar para se morrer. O paradigma vigente nessa época era o paradigma do “cuidar”.

Cuidava-se dos doentes, mas sem a pretensão de reintegrá-los à sociedade, e enquanto estivessem vivos no aguardo da morte. O ato de cuidar estava inteiramente ligado à religiosidade, tendo o sagrado uma função asseguradora: “Cuidava-se do corpo e da alma, de maneira a facilitar à alma a sua entrada nos céus.

Com o tempo, a vivência da morte passou a ser restrita aos hospitais, transformados em locais de cura e recuperação de doentes, distanciando-os do convívio familiar durante sua recuperação ou mesmo no processo de morrer. Atualmente, século XXI, os cuidados médicos e hospitalares se pautam no paradigma de “curar”. Não basta cuidar do doente. É preciso curá-lo a todo custo e combater a morte. O paradigma do curar facilmente torna-se prisioneiro do domínio tecnológico da Medicina moderna. “Se algo pode ser feito, logo deve ser feito, essa é a missão”. Também idolatra a vida física a alimenta a tendência de usar o poder da Medicina para prolongar a vida, mesmo em condições inaceitáveis.

A irreversibilidade é normalmente citada como um atributo da morte. Cientificamente, é impossível trazer de novo à vida um organismo morto, e se um organismo vive, é porque ainda não morreu anteriormente. Muitas pessoas não acreditam que a morte física é sempre e necessariamente irreversível, enquanto outras acreditam em ressurreição do espírito ou do corpo e outras ainda, têm esperança que futuros avanços científicos e tecnológicos possam trazê-las de volta à vida, utilizando técnicas ainda embrionárias, tais como a criogenia ou outros meios de ressuscitação ainda por descobrir. Acredito que a maioria de nós torça para que a ciência vença esta batalha tão árdua, independentemente de suas religiões.

Algumas pessoas não querem morrer e as desculpas são as mais variadas, agora, do ponto de vista biológico evolutivo (e neste ponto, a religião e a ciência que até poderiam “andar de mãos dadas”, acabam distanciando-se), morrer é algo “bom”, mas explico, bom partindo do pressuposto científico de que é necessário morrer para que a descendência com modificação faça sua “mágica”. Alguns biólogos acreditam que a função da morte é primariamente permitir a evolução.

Esta idolatria da vida ganha forma na convicção de que, a inabilidade para curar ou evitar a morte, constitui-se uma falha na Medicina moderna. A falácia dessa lógica é pensar que a responsabilidade de curar termina quando os tratamentos estão esgotados.

Portanto, aconselho que aproveitem a vida, e a melhor maneira de fazer isto é pensando na morte...sua morte”

Edson Moura

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Fadados estamos a imperfeitos sermos


Droga!!! Por que a perfeição do outro me incomoda tanto? O cara é bonito, rico, porte atlético, inteligente...tantas mulheres o querem. E eu assim, magrelo, feio, pobre e a pé. É como diria Fernando Pessoa: “Só vejo príncipes! Quem me dera ouvir de alguém a voz humana. Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos, Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?” Mas tenho um acalento...e não é o álcool.
 

Elas não estão satisfeitas com a perfeição, não, querem mais..muito mais. Querem perscrutar, virar do avesso, descobrir a carne, revelar os músculos e os vasos e achar ali, bem no fundo, no fundo, no fundo do ser masculino, um defeito que o torne tão vil quanto eu. E acham. Sim, sempre acham um defeito parte, que será analisado como se o todo fosse. Ele tem mal hálito, ele é mulherengo, ele sai aos domingos pra jogar futebol com os amigos e me deixa só, ele tem o pau pequeno, torto, grande demais sei lá, ele tem um defeito.

Porra, não dá! Perfeito só Deus! E o cara é tão egocêntrico (Deus) que não se preocupa em asseverar o tempo todo que só Ele é assim, e por ser assim, precisou criar um ser que não fosse como ele, para que não perdesse o posto de “fodão”. Mandou um pra cá que também era perfeito, mas logo trataram de apontar suas falhas: “Ele anda com putas e ladrões, ele deixou de socorrer um amigo que estava morrendo em Betânia, Ele era frouxo e chorava sozinho pedindo para que lhe afastasse o cálice, ele expulsava demônios em nome do Diabo, ele abraçava leprosos (que nojo), Crucifiquem o Príncipe, mas ponham-lhe antes uma coroa de rei, só pra sacanear.

Novamente me tranquilizo, e de novo não é com o álcool como o poema sugere. Acham defeito em tudo, em todos, porque não encontrariam em mim? Se nem a natureza é perfeita, ora, flores de várias cores, seres de várias espécies, planetas de vários tamanhos, mas tem tsunami, furacão e terremoto. Tem homem que nasce mal (defeito na natureza humana), tem homem que nasce bom e a sociedade o corrompe (defeito da sociedade), tem outros que nascem neutros (ser neutro é não ter características, logo, defeito também).

Quero ser franco me chamam de mal educado, quero ser honesto me chamam de trouxa, quero ser ético me chamam de demagogo, quando quero ser romântico o título que ganho é de fresco, viado, sem pegada, mas quando resolvo ser homem, aí sou machista, bruto, insensível...grosso. Então prefiro mentir, prefiro ser dois, três e até quatro pessoas diferentes dentro de um só ser. Agrado falando o que querem ouvir, finjo o tempo todo ser o que elas querem que eu seja. Deixo-me usar como um pedaço de carne, como um lenço pra enxugar lágrimas (descartável de preferência), sou apenas um absorvente sem abas que dá conforto mas só querem me ver nos dias ruins, e assim vou enganando a elas e a mim.

E mesmo esses, aparentemente perfeitos, o Grey de todas as mulheres, mesmo esses devem ter um defeito que vai incomodar cedo ou tarde, por isso, elas preferem deixá-lo, traí-lo, ignorá-lo, pois não estão prontas para o homem perfeito. Na verdade acho que nem querem um, porque se tiverem... a quem vão poder apontar o dedo e vomitar impropérios numa DR de pelo menos duas horas? Se o cara não tiver defeitos elas não vão ter sempre razão, e não há tragédia pior para uma mulher do que não ter sempre razão.

É Fernando... em linha reta não dá pra agradar.

Edson Moura

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

"mea maxima culpa"

"Quando um cientista, ou um químico cria algo e este algo acaba gerando efeitos colaterais causando algum mal, esta pessoa é punida pela comunidade científica e mais ainda pela sociedade. Vê seu nome arrastado pela lama e dificilmente conseguirá acabar com o preconceito ali estabelecido. Pois bem, partindo desta lógica, esta aplicação deveria ser regra de vida para todos, ou seja, quem erra assume seus erros e a punição não deveria passar da pessoa do condenado.

Mas aí é que começa a discussão filosófica. E vocês entenderão depois de eu apresentar os fatos. Partindo do pressuposto religioso de que deus criou todos os homens e concomitantemente todas as coisas que existem fica impossível não fazer uma analogia. 

Está mais do que provado que o homem é um ser falível seja biologicamente ou moralmente. E quando paramos para pensar que um ser perfeito como deus deu origem a um ser imperfeito como o homem, como poderíamos jogar a culpa nos ombros da criatura? Ora, é sabido que se um sujeito cria um Pit Bull desde filhote e este se torna um cão agressivo e em determinado momento ataca alguém, esta pessoa responderá pelos crimes de lesão corporal cometidos pelo animal.

Então é correto afirmar que chegamos à conclusão de que as falhas do homem não são culpa sua e sim daquele que o criou cheio de defeitos. Este é o primeiro golpe que a divindade leva nesta luta no campo das conjecturas. Ele falhou! 

Mas há quem diga que ele se redimiu, enviando um salvador para a humanidade. Um ser que, este sim, seria perfeito, sem máculas, sem pecados, totalmente ético e moral, e este inocente será punido por todos os males que a humanidade causou. Novamente, nada mais repulsivo do que tentar consertar um erro com outro erro. Punir um inocente pelo erro de outrem. Isto sim nos afeta moralmente, ora, por sabermos que alguém já foi punido por um erro que cometemos e pelos erros que possivelmente cometeremos, creio eu, geraria uma deformação no caráter de qualquer pessoa minimamente inteligente.

E se este raciocínio dialético é de certa forma uma capacidade dada por este ser criador, novamente a criatura não poderia ser punida por pensar de forma tão distorcida, neste contexto fático, a culpa regressa a Deus, num ciclo vicioso interminável.

Então surge a pergunta: "Será mesmo que ter Fé, e atribuir nossos erros a outro, nos guarnecendo de uma graça advinda dos céus não seria uma fuga da responsabilidade de nosso atos?"

E outra pergunta tão importante quanto esta outra é: "Por que seria o ateu considerado uma escória na sociedade? Quando geralmente a única atitude que ele toma é assumir seus erros e arcar com a responsabilidade de suas ações, sem atribuir as vitórias a Deus e as derrotas ao diabo?"

Ser ateu, antes de mais nada, não tem nada a ver com a negação do Deus dos outros. Via de regra o ateu pouco se preocupa com o quê ou em quê os demais creem, ele simplesmente aceita que no processo evolutivo foi desprovido de algo que o permitiria encaixar-se no mundo ideal dos que acreditam. assumindo assim um fardo que terá que carregar até o fim de seus dias. é possível que neste processo ele sofra uma metamorfose e que passe a entender que mudar é preciso, e que por mais que não haja alguém o vigiando todo o tempo, alguns atos não devem ser praticados, pois feririam os outros, e ele teria que aceitar na hora que a punição viesse.

Ser ateu é ser responsável! Não só por si mesmo, mas também pelo outro, pelo mundo. Este mundo que segundo dizem os que creem, pertence ao maligno, o que na minha opinião já é por si só um contrassenso, uma vez que todos negam a este esperando por um outro melhor, descido dos céus, mas eu pergunto: "Alguém quer deixá-lo?" Óbvio que não. Todos querem ser curados de seus cânceres, inclusive pedindo a cura a Deus, para viver no mundo que pertence ao Diabo, rejeitando assim o convite natural de viver com o Pai que os criou. 

Difícil entender, quando nos dispomos a refletir sobre o tema,

Edson Moura

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A arte de se fazer entender




Por Edson Moura

Hoje tudo tem um ar diferente em minha vida. Hoje escolhi o que quero fazer para o resto dela. Interessante como mudamos de opinião, aliás, digo mais, a pessoa que não revê suas opiniões de tempos em tempos, está fadado à infelicidade. Já quis ser garçom. Também já quis ser sommelier, fui os dois. Já quis ser motorista já quis ser gerente, os dois também fui. Já quis ser pai, assim como quis ser também um bom filho, dizem que tive sucesso em ambos os casos. Hoje quero ser outra coisa, bem diferente de tudo aquilo que sempre quis ser. Quero ser justo.

Quero “vestir aquela roupa de super-herói” lutar contra tudo e contra todos os que oprimem os inocentes, os desfavorecidos de conhecimentos específicos, os incultos, os sofredores. Quero ser advogado, quero ser juiz, quero ser delegado de polícia, funções estas que têm como principal fundamento, o dever de ser justo. 

Quero entender aquilo que as pessoas não conseguem verbalizar, quero ser seu tradutor para as manifestações mais particulares, mais intimas e mais dolorosas. Aquelas dores que jamais podem ser verbalizadas, pois toda vez que tentamos fazer isso, uma força devastadora, mundialmente conhecida como “lágrimas”, tomam à frente das palavras, e por mais que tentemos tomar fôlego, nada impede que nossa voz se embargue e que os soluços tornem impronunciáveis até as frases mais curtas como; “está doendo muito!”

A arte de comunicar é intrínseca ao advogado. Pois é por meio de sua retórica que os jurados serão tocados profundamente. O advogado é o artista de teatro mais eficaz de todos. Não há sequências de gravação, não há recortes, não há regravação de cenas para que possam ser melhoradas. O improviso impera no seio dos tribunais do júri. É necessário que cada palavra pronunciada por um advogado, seja como uma fecha certeira nos corações dos jurados e dos juízes. É preciso mostrar que aquela dor intraduzível de um réu ou de acusador, pode ser a dor de qualquer um deles. 

Não é preciso mostrar a imagem de uma mãe chorando sobre o caixão de um filho morto. Basta mostrar esta mesma mãe arrumando a cama do mesmo, e fazê-los entender que nunca mais se deitará sobre ela o filho que já não há. Não é necessário uma narração dos fatos, que contenham ideias de terror, de "hediondez" ou de requintes de crueldade. Basta tornar possível que os outros se imaginem no lugar do pai, irmão, ou amigo que nunca mais poderá dizer ao ente perdido: “eu te amo”. Tudo isso se faz com palavras. E quando eu digo “mostrar uma imagem”, não estou falando de uma imagem literal, mas sim de uma imagem mental. Uma cena criada no cerne da mente daquele que tenta se colocar no lugar do outro.

É isso que faz um advogado. Ele tem o poder de transportar seus ouvintes, de sua zona de conforto, para cume de uma montanha, de onde ele, ali, isolado em seus pensamentos, possa ter uma visão mais clara daquele universo, que por vezes lhe é alheia. É preciso causar dor, para que a justiça seja feita, porque do contrário, o que veremos é uma enxurrada de palavras técnicas, totalmente estéreis, sem o mínimo poder de persuasão. Palavras estas que não farão ninguém chorar, na melhor das hipóteses, só os farão... cochilar, demonstrando assim o quão ausente está de suas palavras, a arte de se fazer entender.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Como passar no concurso da Policia federal-Direito Constitucional (Decoreba Direito Constitucional Parte 4 Direitos e Garantias Fundamentais, Direitos e Deveres Individuais e Coletivos)




Como passar no concurso da Policia federal-Direito Constitucional Parte 2 (Capítulo III, da Segurança Pública)

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Como passar no concurso da Policia federal-Direito Constitucional Parte 1 (Pincípios Fundamentais, Conceito, Classificações, Capítulo III)



quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O que faço com as notas do Enem 2013?

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Os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2013 devem ser divulgados nos dias 3 ou 4 de janeiro de 2014 (sexta ou sábado), segundo o Ministério da Educação (MEC). Na segunda-feira, 6, começam as inscrições do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) para as vagas do primeiro semestre de 2014.

A pasta divulgou nesta segunda-feira, 30, o cronograma do Sisu e confirmou a divulgação do resultado do Enem. Para concorrer a uma vaga em instituição pública de ensino superior pelo Sisu, é preciso ter feito a última edição do Enem e não ter zerado a redação. O número de vagas será divulgado na abertura do processo de inscrição.

domingo, 13 de outubro de 2013

O Provocador 0107

Adoro o ouvir algumas músicas evangélicas. Outro dia estava cantarolando uma canção da Ludimila Ferber e um amigo me arguiu:
 _Você é Ateu? Por que está cantando esta música gospel?
 _Por que eu gosto! Respondi.
_Mas não deveria gostar. Ateus não gostam de músicas evangélicas porque falam de Deus, e Deus não existe...segundo suas convicções.
 Olhei bem dentro dos olhos dele e respondi:
 _Gosto do Batmam, Super-mam e Wolverine. Sei que eles não existem também. Mas ainda assim gosto. Filósofo cético, Edson Moura

O Provocador 0106


O Provocador 0105


O Provocador 0104


Certamente Deus é uma superstição coletiva, não há evidência para a existência de nenhum deus (ou deuses), diabos, demônios, anjos e santos são mitos, não há vida após a morte, paraíso nem inferno, todos os Papas foram "dinossauros" medievais perigosos e intolerantes, e o Espírito Santo é um personagem de história em quadrinhos digno de risadas e escárnio. Acuso o deus Cristão de assassinato ao permitir o Holocausto (sem mencionar a "limpeza étnica" presentemente sendo feita pelos Cristãos no mundo), condeno e vilipendio essa divindade mítica por encorajar o preconceito racial e comandar a degradação da mulher, castrar a Ciência, suplantar a inteligência e tornar cada um de seus seguidores em zumbis, desta e da outra vida prometida. Filósofo cético Edson Moura