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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Negro Drama (Sociologia das Ruas)


Negro drama, entre o sucesso e a lama, dinheiro, problemas, inveja, luxo, fama. Negro drama, cabelo crespo e a pele escura, a ferida, a chaga, a procura da cura. Negro drama, tenta ver e não vê nada, a não ser uma estrela, longe meio ofuscada. Sente o drama, o preço, a cobrança, no amor, no ódio, a insana vingança. Negro drama, eu sei quem trama e quem tá comigo, o trauma que eu carrego pra não ser mais um preto fodido. O drama da cadeia e favela, túmulo, sangue, sirene, choros e velas.

Passageiro do Brasil, São Paulo agonias, que sobrevive em meio às zorras e covardias, periferias, vielas e cortiços, você deve tá pensando o que você tem a ver com isso. Desde o início, por ouro e prata, olha quem morre, então veja você quem mata. Recebe o mérito, a farda, quem pratica o mal, me ver, pobre, preso ou morto, já é cultural.

Histórias, registros, escritos, não é conto nem fábula, lenda ou mito. Não foi sempre dito que preto não tem vez, então olha o castelo e não, foi você quem fez cuzão, eu sou irmão dos meus trutas de batalha, eu era a carne agora sou a própria navalha. Tim..tim, um brinde pra mim, sou exemplo, de vitórias, trajetos e glórias. O dinheiro tira um homem da miséria, Mas não pode arrancar de dentro dele a favela.

São poucos que entram em campo pra vencer, a alma guarda o que a mente tenta esquecer, olho pra trás e vejo a estrada que eu trilhei, “mó cota” , quem esteve lado a lado e quem só fico na bota, entre as frases, fases e várias etapas, do quem é quem, dos mano e das minas fracas. Um Negro drama de estilo, pra ser e se for tem que ser, se temer é milho. Entre o gatilho e a tempestade, sempre a provar que sou homem e não covarde.

Que Deus me guarde, pois eu sei que ele não é neutro, vigia os ricos , mas ama os que vem do gueto, eu visto preto, por dentro e por fora, guerreiro, poeta entre o tempo e a memória. Ora, nessa história vejo o dólar, e vários quilates, falo pro mano que não morra e também não mate, o tic tac não espera veja o ponteiro, essa estrada é venenosa e cheia de morteiro, pesadelo é um elogio, pra quem vive na guerra a paz nunca existiu, num clima quente a minha gente sua frio, vi um pretinho e seu caderno era um fuzil.

Daria um filme! Uma negra e uma criança nos braços, solitária na floresta de concreto e aço, veja, Olhe outra vez o rosto na multidão, a multidão é um monstro sem rosto e coração. Em São Paulo, terra de arranha-céu a garoa rasga a carne é a “torre de babel”, família brasileira, dois contra o mundo, mãe solteira de um promissor vagabundo. Luz, câmera e ação, gravando a cena vai, um bastardo, mais um filho pardo e sem pai. Ei, Senhor de engenho eu sei, bem quem você é, sozinho, “cê” num “guenta”,sozinho, “cê” num entra a pé.

Você disse que era bom e a favela ouviu, lá também tem Whiski e Red Bull, Tênis Nike e Fuzil, admito, seu carro é bonito, é, eu não sei fazer, Internet, videocassete, os “carro loco”, atrasado eu tô um pouco sim tô, eu acho, só que, seu jogo é sujo e eu não me encaixo, eu sou problema de montão, de carnaval a carnaval, eu vim da selva, sou leão, sou demais pro seu quintal. Problema com escola eu tenho mil, “Mil fita”, inacreditável, mas seu filho me imita, no meio de vocês ele é o mais esperto, ginga e fala gíria, gíria não, dialeto. Esse não é mais seu, Hó, subiu, entrei pelo seu rádio, tomei, “cê” nem viu, “nóis é isso ou aquilo”, O quê? “Cê” não dizia, seu filho quer ser preto, há, que ironia.

Cola o pôster do 2Pac ai, que tal, que “cê” diz, sente o Negro drama vai, tenta ser feliz, ei bacana quem te fez tão bom assim, o que “cê” deu, O que “cê”faz, o que “cê” fez por mim? Eu recebi seu ticket, quer dizer kit de esgoto a céu aberto e parede Madeirit, de vergonha eu não morri, tô firmão, eis-me aqui, você não, você não passa quando o mar vermelho abrir, eu sou o mano homem duro do gueto, o Brow, obá, aquele louco que não pode errar, aquele que você odeia amar nesse instante, pele parda e ouço funk, e de onde vem os diamantes?... Da lama, valeu mãe... Negro drama... Drama... drama.
Autor: Mano Brow do grupo Racionais Mc's

sábado, 14 de julho de 2012

Crônicas de catador



Por Edson Moura

Seis horas da manhã, é hora de levantar, mas pense num trabalho Hercúleo. Seria tudo mais fácil se naquele tempo houvesse água jorrando por um chuveiro, coisa que só conheci pessoalmente depois dos 15 anos. Vamos menino! Deixa de moleza! Era o que dizia minha mãe. Ela não queria saber se eu passara a madrugada toda recolhendo água à conta gotas no chão de barro do quintal. Muitos não acreditam, mas eu e meu pai tivemos que cavar um buraco de aproximadamente 1 metro de profundidade para que a água conseguisse subir até a torneira, era uma luta conseguir encher um tambor com 30 litros d'agua.

sábado, 5 de maio de 2012

Caça as bruxas na Alemanha (depoimentos de um padre)



Por Noreda Somu Tossan
A verdade é que nós humanos não sabemos (e talvez nunca saberemos) do que somos realmente capazes, e acredito que cabe a nós, de forma bem particular, e com a mais pura honestidade, averiguar as medidas que às vezes tomamos (ou que tomam pela gente) para nos proteger de nós mesmos. Ultimamente tenho me interessado muito pela questão da “alucinação”, e fui buscar em artigos, livros, documentários de televisão, mais informações sobre o tema. Parti do princípio que todos nós sofremos (em maior ou menor grau) algum tipo de alucinação, no decorrer de nossa vida. Alguns falam em abdução extraterrestre, outros falam em ouvir vozes de comando claramente, já outros falam de perseguições, enfim, é uma gama de situações em que, o indivíduo acredita piamente que está, vendo ou ouvindo algo que ninguém mais (por mais que o outro se esforce), consegue ver.

Quero voltar um pouco no tempo, numa época em que não tínhamos a Psicanálise, a Tecnologia Espacial, a Medicina Psiquiátrica e nem os fármacos desenvolvidos pela Ciência. Vou  tomar como exemplo o caso do período da “Caça às Bruxas” que ocorreu na Europa em também do lado de cá do Oceano Atlântico. Proponho a você que está lendo, uma abertura no seu conhecimento, uma rejeição total ou parcial dos mitos e crenças em que acredita, ou aceita como inofensivos. A ideia deste texto não é mostrar o óbvio, não, a intenção é ir mais além, ou seja, questionarmo-nos se de fato já estamos preparados, (agora quase quatro séculos depois) para aceitarmos como verdade absoluta tudo que nos foi deixado, ou melhor, tudo que nos é proposto como atos voltados para a segurança e bem estar do cidadão.

Trago a todos, um recorte que achei muito interessante, de um Jesuíta que teve o azar de escutar as confissões dos acusados de bruxaria na cidade alemã de Würtzburg. Seu nome era Friedrich von Spee.  Em 1631 publicou Cautio Criminalis (precauções para os acusadores), onde explicitou a essência daquele terrorismo da Igreja-Estado contra os inocentes. Antes de Spee receber seu castigo, morreu vítima de uma epidemia de peste... atendendo aos afligidos como padre da paróquia. Aqui temos um resumo de seu livro: Prestem bem atenção, pois é a narrativa de testemunha ocular.

1. Por incrível que pareça, entre nós, alemães, e especialmente (envergonha-me dizê-lo) entre católicos, há superstições populares, inveja, calúnias, maledicências, insinuações e similares que, ao não serem castigadas nem refutadas, levantam a suspeita de bruxaria. Já não Deus ou a Natureza, a não ser as bruxas, são as responsáveis por tudo.

2. Assim, todo mundo clama para que os magistrados investiguem as bruxas... a quem só a intriga popular tem feito tão numerosas.

3. Os príncipes, em consequência, pedem a seus juízes e conselheiros que abram os processos contra as bruxas.

4. Os juízes logo que sabem por onde começar, já que não têm evidências nem provas.

5. Enquanto isso, a gente considera suspeito este atraso; e um informador ou outro convence aos príncipes a tal efeito.

6. Na Alemanha, ofender a estes príncipes é um sério delito; até os sacerdotes aprovam o que possa lhes agradar sem preocupar-se de quem instigou aos príncipes (por muito bem intencionados que sejam).

7. Ao final, portanto, os juízes cedem a seus desejos e conseguem dar inicio aos julgamentos.

8. Os juízes que se atrasam, temerosos de ver-se envoltos em assunto tão espinhoso, recebem um investigador especial. Neste campo de investigação, toda a inexperiência ou arrogância que se aplique à tarefa se considera zelo da justiça. Este zelo também se vê estimulado pela expectativa de benefício (grifo meu), especialmente para um agente pobre e avarento com uma família numerosa, quando recebe como estipêndio tantos dólares por cabeça de bruxa queimada, além das taxas incidentais e gratificações que os agentes instigadores têm licença para arrancar com prazer daqueles aos que convocam.

9. Se os desvarios de um demente ou algum rumor malicioso e ocioso (porque não se necessita nunca uma prova do escândalo) assinalam a uma pobre mulher inofensiva, ela é primeira em sofrer.

10. Entretanto, para evitar a aparência de que a acusa unicamente sobre a base de um rumor, sem outras provas, obtém-se uma certa presunção de culpabilidade ao expor o seguinte dilema: ou levou uma vida má e imprópria, ou levou uma vida boa e própria. Se for má, deve ser culpada. Por outro lado, se sua vida foi boa, é igual de imperdoável; porque as bruxas sempre simulam com o fim de aparecer especialmente virtuosas.

11. Em consequência, encarcera-se à velha. Encontra-se uma nova prova ediante um segundo dilema: Tem medo ou não o tem?. Se o tiver (quando escuta as horríveis tortura que se utilizam contra as bruxas), é uma prova segura; porque sua consciência a acusa. Se não mostrar temor (confiando em sua inocência), também é uma prova; porque é característico das bruxas simular inocência e levar até o final.

12. Em caso de que estas fossem as únicas provas, o investigador faz que seus detetives, frequentemente depravados e infames, vasculhem em sua vida anterior. Isto, certamente, não pode fazer-se sem que apareça alguma frase ou ato da mulher que homens tão bem dispostos possam torcer ou distorcer para convertê-lo em prova de bruxaria.

13. Todo aquele que lhe deseje mal tem agora grandes oportunidades de fazer contra ela as acusações que deseje; e todo mundo diz que as provas contra ela são consistentes.

14. E assim a conduz a tortura, a não ser, como acontece frequentemente, que a bruxa seja torturada o mesmo dia de sua detenção.

15. Nesses julgamentos não se permite a ninguém ter advogado nem qualquer meio de defesa justa porque a bruxaria é considerada um delito excepcional (de tal enormidade que se podem suspender todas as normas legais de procedimento), e quem se atreve a defender à prisioneira cai sob suspeita de bruxaria pessoalmente... assim como os que ousam expressar um protesto nestes casos e apressam aos juízes a exercitar a prudência, porque a partir de então recebem o qualificativo de defensores da bruxaria. Assim, todo mundo guarda silêncio por medo.

16. A fim de que possa parecer que a mulher tem uma oportunidade de defender-se a si mesmo, levam-na ante o tribunal e se procede a ler e examinar (se é que se pode chamar assim) os indícios de sua culpabilidade.

17. Até no caso que negue essas acusações e responda adequadamente a cada uma delas, não lhe empresta atenção e nem sequer se anotam suas respostas; todas as acusações retêm sua força e validez, por muito perfeitas que sejam as respostas. Ordenam-lhe retornar à  prisão para pensar mais atentamente se persistirá em sua obstinação... porque, como negou sua culpabilidade, é obstinada.

18. No dia seguinte  voltam a levá-la para fora e ela então escuta o decreto de tortura, como se nunca tivesse rechaçado as acusações.

19. Antes da tortura, entretanto, revistam-na em busca de amuletos; barbeiam-lhe todo o corpo e lhe examinam sem moderação até essas partes íntimas que indicam o sexo feminino.

20. O que tem isso de assombroso? Aos sacerdotes os trata do mesmo modo.

21. Quando a mulher foi barbeada e examinada, torturam-na para lhe fazer confessar a verdade, quer dizer, para que declare o que eles querem, porque naturalmente não há outra coisa que seja nem possa ser a verdade.

22. Começam com o primeiro grau, quer dizer, a tortura menos grave. Embora dura em excesso, é suave comparada com as que seguirão. Assim, se confessar, dizem que a mulher confessou sem tortura!

23. Agora vejam bem, que príncipe pode duvidar de sua culpabilidade quando lhe dizem que confessou voluntariamente sem tortura?

24. Condenam-na a morte sem escrúpulos. Mas a teriam executado embora não tivesse confessado; porque, assim que a tortura começou, a sorte já está lançada; não pode escapar, tem que morrer à força.

25. O resultado é o mesmo tanto se confessar como se não. Se confessar, sua culpa é clara: é executada. Qualquer retratação é em vão. Se não confessar, a tortura se repete: dois, três, quatro vezes. Em delitos excepcionais, a tortura não tem limite de duração, severidade ou frequência.

26. Se, durante a tortura, a velha contorcer suas feições com dor, dizem que ri; se perder o sentido, dizem que se dormiu ou está sob um feitiço demônio. E, se está entorpecida, merece ser queimada viva, como se tem feito com alguma que, embora torturada várias vezes, não dizia o que os investigadores queriam.

27. E inclusive confessores e padres afirmam que morreu obstinada e impenitente; que não se converteu nem abandonou seu íncubo, mas sim manteve sua fé nele.

28. Entretanto, se morrer sob tanta tortura, dizem que o diabo lhe quebrou o pescoço.

29. Depois do qual o cadáver é enterrado debaixo da forca. 
                 
30. Por outro lado, se não morrer sob tortura e se algum juiz excepcionalmente escrupuloso não torturá-la mais sem maiores provas, ou queimá-la sem confissão, mantêm-na no cárcere e a encadeiam com a máxima dureza para que se apodreça até que ceda, embora possa passar um ano inteiro.

31. A acusada não pode liberar-se nunca. O comitê investigador cairia em desgraça se absolvesse a uma mulher; uma vez presa e com cadeias, tem que ser culpado, por meios justos ou ilícitos.

32. Enquanto isso, sacerdotes ignorantes e teimosos perturbam à desgraçada criatura a fim de que, seja certo ou não, se declare culpada; Se não fazê-lo assim, dizem, não pode ser salva nem participar dos sacramentos.

33. Sacerdotes mais longânimos ou cultos não a podem visitar no cárcere para evitar que lhe deem conselho ou informem aos príncipes do que ocorre. O mais temível é que saia à luz algo que demonstre a inocência da acusada. As pessoas que tentam fazê-lo recebem o nome de perturbadores.

34. Enquanto a mantêm na prisão e sob tortura, os juízes inventam ardilosos mecanismos para reunir novas provas de culpabilidade com o fim de declará-la culpada de modo que, ao revisar o julgamento, algum facultativo universitário possa confirmar que devia ser queimada viva.

35. Há juízes que, para aparentar uma bondade suprema, fazem exorcizar  mulher, transferem-na a outra parte e a voltam a torturar para romper sua letargia; Se mantém silêncio, então ao menos podem queimá-la. Agora bem, em nome do Céu, eu gostaria de saber: se tanto a que confessa como a que não, perecem do mesmo modo, como pode escapar alguém por inocente que seja? Oh mulher infeliz, por que alimentaste esperança? Por que, ao entrar no cárcere, não admitiu em seguida o que eles queriam? Por que, mulher insensata e louca, desejou morrer tantas vezes quando poderia ter morrido só uma? Segue meu conselho e, antes de suportar todos estes maus, dissesse que é culpada e morre. Não escapará, porque seria uma desgraça catastrófica para o zelo da Alemanha.

36. Quando, sob a tensão da dor, a bruxa confessa “culpa”, sua situação é indescritível. Não só não pode escapar, mas também se vê obrigada a acusar a outras que não conhece, cujos nomes com frequência põem em sua boca os investigadores ou sugere o executor, ou são os que ouviu como suspeitas ou acusadas. Estas por sua vez se veem forçadas a acusar a outras, e essas,  a outras, e assim sucessivamente: quem pode deixar de ver isto?

37. Os juízes devem suspender esses julgamentos (e impugnar assim sua validez) ou queimar a sua família, a eles mesmos e a todos outros; porque todos, antes ou depois, são acusados falsamente; e, depois da tortura, sempre se demonstra que são culpados.   
38. Assim, finalmente, os que ao princípio clamavam com maior força para alimentar as chamas se veem eles mesmos implicados, porque não atinaram a ver que também lhes chegaria a vez. Assim o Céu castiga justamente aos que com suas línguas pestilentas; criaram-se tantas bruxas e enviaram à fogueira a tantas inocentes...

Von Spee não explícita os horríveis métodos de tortura que se empregavam. Transcrevo aqui um resumo de uma valiosa recopilação da enciclopédia de bruxaria e demonologia, do Rossell HopeRobbins(1959):

“Pode-se jogar uma olhada a alguns das torturas especiais do Bamberg, por exemplo, como alimentar pela força à acusada com arenques cozinhados com sal e logo lhe negar a água... um método sofisticado que ia unido à imersão da acusada em uma bacia de água fervendo a que se acrescentou cal. Outras formas de tortura para as bruxas eram o cavalo de madeira, vários tipos de potros, a cadeira de ferro quente, tornos de pernas (botas espanholas) e grandes botas de metal ou couro nas que (com os pés dentro, certamente) vertia-se água fervendo ou chumbo fundido. No tortura da touca, se fazia beber água à acusada com um tecido macio para lhe provocar asfixia. A seguir se retirava rapidamente a gaze para lhe rasgar as vísceras. “Os Anjinhos”, tinham o objetivo de comprimir o polegar da mão ou o dedo gordo do pé na raiz das unhas de modo que a dor ao apertar fosse insuportável”.

“Além disso, aplicavam-se rotineiramente a estrapada, o trampazo e torturas ainda mais desagradáveis que me absterei de descrever. Depois da tortura, e com os instrumentos da mesma ao alcance da visão da “bruxa”, pede-se à vítima que assine uma declaração, que a seguir se qualifica de “livre confissão” admitida voluntariamente”.

Com grande risco pessoal, Von Spee protestou contra a perseguição das bruxas. Também o fizeram outros, principalmente padres católicos e protestantes que tinham sido testemunhas da pratica desses crimes: Gianfrancesco Ponzinibio na Itália, Cornelius Loos na Alemanha e Reginaid Scot em Grã-Bretanha no século XVI; assim como Johann Mayfurth (“Escutem, juízes famintos de dinheiro e perseguidores sedentos de sangue, as aparições do Diabo são pura mentira”, é o que ele bradava) na Alemanha e Alonso Salazar de Frite na Espanha no século XVII. junto com o Von Spee e os Quakers. (Criado em 1652, pelo inglês George Fox, o Movimento Quaker pretendeu ser a restauração da fé cristã original, após séculos de apostasia; eles se chamavam de "Santos", "Filhos da Luz" e "Amigos da Verdade" – donde surge, no século XVIII, o nome "Sociedade dos Amigos". A Sociedade dos Amigos reagiu contra o que considerava abusos da Igreja Anglicana, colocando-se como "sob a inspiração direta do Espírito Santo". Os membros desta sociedade, ridicularizados no século XVII com o nome de quakers (inglês para "tremedores"), que a maioria adota até hoje, rejeitam qualquer organização clerical, para viver no recolhimento, na pureza moral e na prática ativa do pacifismo, da solidariedade e da filantropia. Perseguidos na Inglaterra por Carlos II, os quakers emigraram em massa para os Estados Unidos, onde, em 1681, criaram, sob a égide de William Penn, a colônia da Pensilvânia. Em 1947, os comitês ingleses e americanos do Auxílio Quaker Internacional receberam o Prêmio Nobel da Paz.
Esses homens, em minha opinião e é quase um consenso, são heróis de nossa espécie.

 A pergunta que fica é: Por que não são mais conhecidos?

Até o século XVIII não se contemplou seriamente a possibilidade da alucinação como componente da perseguição das bruxas; o bispo Francis Hutchinson, em seu Ensaio histórico sobre bruxaria (1718), escreveu:

Muitos homens tinham acreditado ver de verdade um espírito externo ante eles, quando era só uma imagem interna que dançava em seu próprio cérebro.

Graças à valentia dos que se opuseram à perseguição das bruxas, a sua extensão até as classes privilegiadas, ao perigo que entranhava para a crescente instituição do capitalismo e, especialmente, à dispersão das ideias da Ilustração europeia, as queimas de bruxas virtualmente desapareceram. A última execução por bruxaria na Holanda, berço da Ilustração, foi em 1610; na Inglaterra, em 1684; na América, em 1692; na França, em 1745; na Alemanha, em 1775, e na Polônia, em 1793. Na Itália, a Inquisição condenou à morte bruxas até finais do século XVIII e a tortura inquisitorial não se aboliu na Igreja católica até 1816. O último bastião defensor da realidade da bruxaria e a necessidade de castigo foram as Igrejas cristãs.

A perseguição de bruxas foi estúpida e vergonhosa. Como pudemos fazer isso? Como podíamos ter tanta ignorância de nós mesmos e nossas debilidades? Como pôde ocorrer nas nações mais “avançadas”, mais “civilizadas” da Terra, um ato tão bárbaro? Por que a apoiavam resolutamente conservadores, monárquicos e fundamentalistas religiosos? Por que se opunham a isso, liberais quaisquer e seguidores do Iluminismo? Se estivermos absolutamente seguros de que nossas crenças são corretas e as de outros erradas, que nos motiva o bem e aos outros o mal, que o rei do universo nos fala e não aos fiéis de fés muito diferentes, que é mau desafiar as doutrinas convencionais ou fazer perguntas inquisitivas, que nosso trabalho principal é acreditar e obedecer... a perseguição de bruxas se repetirá (com outra roupagem) em suas infinitas variações até a época do último homem.

Recorde o primeiro ponto do Friedrich Von Spee e o que implica: se o público tivesse compreendido melhor a superstição e o ceticismo, teria contribuído a provocar um corte na série de causas e efeitos. Se não conseguirmos entender como pode acontecer da última vez, não seremos capazes de reconhecê-lo da próxima vez que surgir.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Psicologia reversa


Por Noreda Somu Tossan

Em 15 de Junho de 2011, o Supremo Tribunal Federal julgou lícitas as manifestações populares nomeadas marchas da maconha, contemplando os direitos constitucionais de reunião e livre expressão.

Tais movimentos sociais questionam o caráter moralista e estigmatizador do discurso antidrogas e os marcos legais de criminalização do uso da maconha. Embora o tema desperte polêmica e reações apaixonadas, não só de usuários, a questão das drogas exige sobriedade e raciocínio lógico para enxergar além dos riscos.

Estudos sociológicos recentes consideram a reclassificação de psicoativos e redirecionam o debate para os conceitos de abuso e compulsão, indicando a necessidade de pensar os significados sociais dos usos de drogas para nortear políticas e ações de prevenção, de redução de danos e recuperação de dependentes.

Paralelamente , levantam-se discussões acerca das drogas lícitas, como álcool e cigarros, e de comportamentos compulsivos, igualmente causadores de desajuste, desagregação e degradação social de indivíduos possuidores de vícios ou distúrbios.

Desde a década de 1960, os sucessivos Governos dos Estados Unidos que para eliminar o consumo era necessário romper o ciclo das drogas, ou seja: combater o cultivo, interceptar o tráfico, dificultar o acesso às drogas para que, ao final, em conseqüência dos preços elevados ante as ações repressivas ao tráfico, o consumidor fosse obrigado a desistir do consumo de drogas ilícitas.

Para executar cada uma dessas ações, os governos têm investido cifras absurdas na ampliação dos quadros militares e na compra de sofisticados instrumentos de tecnologia militar. Na América Latina países como Colômbia e México têm sido os mais fiéis seguidores da cartilha Americana de guerra contra o narcotráfico. No entanto, os resultados infelizmente não têm sido os esperados.

Embora esses países tenham alcançado certo controle da situação, a produção e tráfico de drogas não têm sofrido mudanças significativas que coíbam a procura dos usuários CPOR drogas ilícitas. O narcotráfico tem fôlego porque é rentável e é óbvio, por que existem consumidores à procura de drogas. Acredito que no momento em que o estado assumir o monopólio das drogas, o narcotráfico deixará de ser uma pratica lucrativa e, em conseqüência disso, o estado poderá dispor de recursos suficientes para criar ações de saúde pública orientadas à prevenção ou tratamento da dependência química.

Para tanto será necessário quebrar tabus e desconstruir o “mito da drogas” e rasgar a “cartilha” de guerra contra o narcotráfico veiculada pelos Estados Unidos. Como anunciou recentemente a Comissão Global da ONU sobre as Drogas, se os Governos não tomam decisões racionais, baseadas em princípios lógicos, o problema das drogas tende a se agravar e a ocasionar conseqüências ainda mais catastróficas do que as que já se apresentam na sociedade.

Noreda Somu Tossan