terça-feira, 24 de abril de 2012

“Questões acerca da morte” (parte 3)



Por Edson Moura

Na Idade Média, nossos antepassados, com suas limitações de conhecimento e ainda com suas superstições, esta por sua vez, empapada do Cristianismo cada vez mais fortalecido, começaram a se preocupar, não mais  com o destino coletivo das pessoas de sua religião, e sim com o destino de cada indivíduo em particular. Foi então que se estruturou a crença de “julgamento após a morte”, podendo o morto sofrer punições pelos pecados cometidos durante toda a vida.

Segundo a crença anterior, Jesus voltaria, conduziria os que creram até o Paraíso. Modificado então, para um “Dia do Juízo Final”, onde seriam separados os nos dos maus, cabendo aos maus a “Punição Eterna”. “Então dirá aos que estiverem à sua direita:  ‘vinde benditos d meu pai, receberdes por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo...’ Em seguida, dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos...’ E estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna”.

É neste contexto que o conceito de purgatório se desenvolve dentro do catolicismo. Até então esta ideia não era estruturada como dogma, mas apenas como um elemento  procedente da crendice popular, muitas vezes associada à ideia de limbo (local onde as almas das crianças mortas sem batismo deveriam permanecer até a vinda definitiva de Cristo. O termo latino purgatorium (lugar de purificação) parece ter sido usado pela primeira vez no fim do século XIII, por Pierre Le Mangeur, em Paris.

No Concilio de Lyon, em 1274, o purgatório recebia uma primeira promulgação como dogma da Igreja católica, sendo definitivamente proclamado em 1439, no Concílio de Florença, que congregou Católicos romanos e ortodoxos Gregos.

Com o advento do purgatório, a ritualização da morte é modificada, no sentido de buscar o perdão para pecados cometidos em vida, procurando garantir um bom destino á alma que estivesse deixando o seu corpo mundano. Surge a possibilidade de interferir no “destino” do falecido, por meios das súplicas e indulgências dirigidas a Deus e aos santos, visando diminuir o tempo de expiação pelos pecados e facilitar a entrada do “morto” no Céu.

A morte vai tendo seus aspectos repulsivos mais explicados e valorizados. O corpo morto, frio e fedorento, passa a ser escondido. A imagem da morte vai se transformando, deixa de se “bela” e pública para ser feia e escondida, ou melhor dizendo, proibida. Os rituais que outrora acompanhavam a morte e o morrer, são agora esvaziados de sentido em uma maneira de evita o sofrimento pela própria morte. A morte antes aceita com naturalidade, ocorrendo em meio à tranquilidade dos familiares, passa a ser temida. A morte natural passa a ser a mote por velhice, enquanto todas as outras maneiras de morrer sinalizam a possibilidade de um castigo divino.

Feliz ou infelizmente, com o crescimento do pensamento filosófico e científico dos séculos XV e XVI, testemunhamos nova elaboração da vivência da morte. Com o advento do Iluminismo, a morte passa a ser dissociada de seus aspectos religiosos e sagrados, adotando a racionalidade como elemento norteador. A morte passa a ser vista principalmente como um evento biológico, sobre o qual deve-se buscar um maior controle por meio da Ciência e da Razão. Com isso, a estruturação de hospitais, o desenvolvimento da medicina e a busca pelo prolongamento da vida ganham mais atenção.

A relação entre morte e hospital foi se estreitando ao longo dos séculos. Os hospitais tiveram sua finalidade alterada de acordo com cada época e lugar. Antes do advento da medicina científica e tecnológica, o morrer em hospitais era destinado às pessoas pobres ou indigentes, que não possuíam condições financeiras de serem tratadas em suas próprias residências, portanto se dirigiam aos hospitais em busca de recuperação de sua saúde, ou mesmo para morrerem.

Antes do século XVIII o hospital era uma instituição de assistência aos pobres, que visava unicamente sua separação e exclusão. Na visão geral, o principal personagem do hospital não era o doente que poderia ser curado, mas sim, o pobre que estava morrendo e deveria ser assistido material e espiritualmente. O hospital seria portanto, um “morredouro”, um lugar para se morrer. O paradigma vigente nessa época era o paradigma do “cuidar”.

Cuidava-se dos doentes, mas sem a pretensão de reintegrá-los à sociedade, e enquanto estivessem vivos no aguardo da morte. O ato de cuidar estava inteiramente ligado à religiosidade, tendo o sagrado uma função asseguradora: “Cuidava-se do corpo e da alma, de maneira a facilitar à alma a sua entrada nos céus.

Com o tempo, a vivência da morte passou a ser restrita aos hospitais, transformados em locais de cura e recuperação de doentes, distanciando-os do convívio familiar durante sua recuperação ou mesmo no processo de morrer. Atualmente, século XXI, os cuidados médicos e hospitalares se pautam no paradigma de “curar”. Não basta cuidar do doente. É preciso curá-lo a todo custo e combater a morte. O paradigma do curar facilmente torna-se prisioneiro do domínio tecnológico da Medicina moderna. “Se algo pode ser feito, logo deve ser feito, essa é a missão”. Também idolatra a vida física a alimenta a tendência de usar o poder da Medicina para prolongar a vida, mesmo em condições inaceitáveis.

Esta idolatria da vida ganha forma na convicção de que, a inabilidade para curar ou evitar a morte, constitui-se uma falha na Medicina moderna. A falácia dessa lógica é pensar que a responsabilidade de curar termina quando os tratamentos estão esgotados.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Alucinações: Ontem, Hoje e Sempre



Iniciando um novo estudo sobre a evolução das crenças e das religiões, gostaria de compartilhar alguns relatos colhido em muitas regiões do mundo, sobretudo Europa. Nossas crenças em nada são absolutamente nossas e muitas vezes nem mesmo sabemos de sua origem. Acreditamos em tantas bobagens, em tantas mentiras sem fonte de verificação, ou mesmo sem vontade de nos aprofundarmos no assunto, que, em minha opinião, o que não acabou ainda, é preciso que acabe o quanto antes, para que o homem possa, de uma vez por todas, libertar-se das garras do “demônio” que habita em sua psique.

Os deuses nos guardam e guiam nossos destinos, é o que ensinam muitas culturas humanas. Existem também outras entidades, mais malévolas, responsáveis pela existência do mal. As duas classes de seres, tanto se a consideramos naturais ou sobrenaturais, reais ou imaginários, servem às necessidades humanas. Até no caso de serem “totalmente imaginários”, muitos se sentem melhor acreditando neles. Assim, em uma época em que as religiões tradicionais se viram submetidas ao fogo iluminador da ciência, não seria estranho vestir uma nova roupagem nos deuses e demônios de antigamente extraterrestres hoje.

A crença nos demônios estava muito estendida no mundo antigo. Os consideravam seres mais naturais que sobrenaturais. Hesíodo os menciona casualmente. Sócrates descrevia sua inspiração filosófica como a obra de um demônio pessoal e benigno. Sua professora, Diotima da Mantineia, disse-lhe que “tudo o que é gênio (demônio) está entre o divino e o mortal... A divindade não fica em contato com o homem, mas sim é através deste gênero de seres por onde tem lugar todo comércio e todo diálogo entre os deuses e os homens, tanto durante a vigília como durante o sonho”.

Platão, o estudante mais célebre do Sócrates, atribuía um grande papel aos demônios: “Nenhuma natureza humana investida com o poder supremo é capaz de ordenar os assuntos humanos, e não transbordar de insolência e engano”.

Não nomeamos aos bois senhores dos bois, nem às cabras das cabras, mas sim nós mesmos somos uma raça superior e governamos sobre eles. Do mesmo modo Deus, em seu amor pela humanidade, pôs acima de nós os demônios, que são uma raça superior, e eles, com grande facilidade e prazer (para eles), nos dão paz, reverência,  ordem e justiça que nunca fraqueja, ou seja, fizeram os homens felizes e uniram as tribos..

Platão negava decididamente que os demônios fossem uma fonte de mau, e representava Eros (o guardião das paixões sexuais) como um gênio ou demônio, não um deus, “nem mortal nem imortal”, “nem bom nem mau”. Mas todos os platonistas posteriores, incluindo os neoplatonistas que influíram poderosamente na filosofia cristã, sustentavam que havia alguns demônios bons e outros maus. O pêndulo ia de um lado a outro. Aristóteles, o famoso discípulo do Platão, considerou seriamente a ideia de que os sonhos estivessem escritos por demônios. Plutarco e Porfírio propunham que os demônios, vinham da Lua.

Os primeiros Pais da Igreja, apesar de serem em sua maioria  neoplatonistas, desejavam separar-se dos sistemas de crença “pagã”. Ensinavam que toda a religião pagã consistia na adoração de demônios e homens, ambos interpretados mal como deuses. Quando o apóstolo Paulo se queixava  da maldade nas alturas, não se referia à corrupção do governo a não ser aos demônios, que viviam ali:

“Porque nossa luta não é contra a carne e o sangue, a não ser contra os Principados, contra as Potestades, contra os Dominadores deste mundo tenebroso, contra os Espíritos do Mal que estão nas alturas”. (Efésios 6, 14)

Desde o começo se pretendeu que os demônios eram muito mais que uma mera metáfora poética do mal no coração dos homens. Os demônios sempre afligiram Santo Agostinho. O pensamento pagão prevalecente em sua época era o seguinte: “Os deuses ocupam as regiões mais altas, os homens as mais baixas, os demônios a do meio... Eles possuem a imortalidade do corpo, mas têm paixões da mente em comum com os homens.” No livro VIII da cidade de Deus (começado em 413), Agostinho assimila esta antiga tradição, substitui aos deuses por Deus e “demoniza” os demônios, declarando que são malignos sem exceção. Não têm virtudes que os redimam. São o manancial de todo o mal espiritual e material. Chama-os “animais etéreos... ansiosos de infligir o mal, completamente alheios à retidão, cheios de orgulho, pálidos de inveja, sutis no engano”.

Podem afirmar que levam mensagens entre Deus e o homem disfarçando-se como anjos do Senhor, mas sua atitude é uma armadilha para nos levar a nossa destruição. Podem assumir qualquer forma e sabem muitas coisas (”demônio” significa “conhecimento” em grego, embora em Latim, “Ciência” signifique “conhecimento), especialmente sobre o mundo material. Por inteligentes que sejam, sua caridade é deficiente. Atacam “as mentes cativas e burladas dos homens”, escreveu Tertuliano. “Moram no ar, têm às estrelas por vizinhas e comercializam com as nuvens.”

Apesar da evolução intelectual, social, política e filosófica, grande parte do caráter e inclusive o nome dos demônios se manteve inalterável desde o Hesíodo até as Cruzadas. Os demônios, os “poderes do ar”, descem dos céus e mantêm relação sexual ilícita com as mulheres. Agostinho acreditava que as bruxas eram fruto dessas uniões proibidas. Na Idade Média, como na antiguidade clássica, quase todo mundo acreditava nessas histórias. chamava-se também aos demônios diabos ou anjos caídos. Os demoníacos sedutores das mulheres recebiam o nome de íncubos; os dos homens, súcubos. 

Há alguns casos em que as freiras, com certa resistência, declaravam uma semelhança assombrosa entre o íncubo e o padre confessor, ou o bispo, e ao despertar na manhã seguinte, “encontravam-se sujas como se tivessem dormido com um homem”. Há relatos similares, mas não em conventos, e sim em haréns na antiga China.

Continua...

quarta-feira, 18 de abril de 2012

"O Mundo Assombrado pelos Demônios" - Carl Sagan (A ciência vista como uma vela no escuro)


Resumo do Livro:
 
Sequestros por alienígenas, anjos e gnomos, feitiçarias e maus-olhados, curas quânticas e o poder extraordinário das pirâmides. Um dos muitos paradoxos do mundo moderno é a convivência entre o enorme sucesso da ciência e da tecnologia e a disseminação de crenças não-científicas ou pseudo-científicas nas sociedades.
 
Mitos sempre existiram. A novidade é que, no seio de nossa cultura "científica", vários deles assumem formas "modernas" e procuram na própria ciência respaldo para se sustentar (apesar de atropelarem sistematicamente os métodos científicos), produzindo as chamadas "pseudociências". Ironicamente, sua difusão é enormemente facilitada pelos mesmos meios de comunicação de massa que a ciência ajudou a criar. A ciência é "filtrada" por uma mídia em grande parte acrítica e sua parte mais importante, o seu método crítico, não chega à população em geral.

Poucos cientistas se arriscam nesse debate. O astrônomo e escritor norte-americano Carl Sagan (1934-1996), autor da série de TV Cosmos e um dos maiores divulgadores científicos de nossa época, é uma exceção. Em "O mundo assombrado pelos demônios", ele ergue o estandarte da ciência para mostrar as origens das teorias pseudocientíficas e usa-o para rebater inúmeros casos específicos, desde histórias famosas sobre raptos por alienígenas até "superstições estatísticas" em loterias e jogos de roleta.

A tese central de Sagan é que o antídoto do cidadão comum para não tomar gato por lebre (ou ciência por pseudociência) é a aliança equilibrada entre a postura cética e a abertura da mente para ideias novas. A importância dessa atitude, diz o autor, é que "as consequências do analfabetismo científico são muito mais perigosas em nossa época do que em qualquer outro período anterior", devido aos perigos potenciais dos avanços tecnológicos na vida cotidiana, quando mau usados. 

Desde 1996, ano da publicação do livro, os acontecimentos confirmaram e aprofundaram essa ideia: Avanços recentes como os medicamentos genéricos, alimentos transgênicos e a engenharia genética, além de fatores mais antigos, como usinas nucleares, armas nucleares, antibióticos usados indiscriminadamente e produtos que destroem a camada de ozônio exigem modificações na legislação e a participação de toda a sociedade para evitar efeitos nocivos.

Boa parte do livro contém uma coleção preciosa de desmistificações de uma série de fenômenos "inexplicáveis", incluindo previsões astrológicas, visões e raptos por discos voadores e bruxarias. Mas a obra não se resume a um compêndio de desmentidos. Trata-se de um livro vasto, que cobre uma série de aspectos das origens das pseudociências e das relações entre a ciência e a sociedade.

Pode-se distinguir, entre os 25 capítulos, cinco partes principais. Nos dois primeiros, discute-se a importância da ciência e suas características principais. A seguir, passa-se a discutir os principais fatores responsáveis pela permanência das crenças não-científicas na sociedade. As razões são certas características culturais e biológicas herdadas de nossos antepassados longínquos, fundamentais para a sobrevivência de nossa espécie, mas que podem funcionar como armadilhas para o discernimento quando não reconhecidas. Cada capítulo versa sobre um aspecto dessas armadilhas, ilustrado por vários exemplos concretos.
Por exemplo,a capacidade de reconhecer padrões, inata no ser humano e que nos faz abstrair formas em nuvens e em conjuntos de estrelas (constelações), é responsável pelas visões de canais em Marte e da face de Cristo no mesmo planeta. Alucinações, coletivas ou não, são ilustradas por visões de Óvnis e da Virgem Maria. Reconhecimento de padrões também aparecem na falsa identificação de regularidades em fenômenos aleatórios, como em especulações em jogos de loteria e de roleta.

Sendo o autor astrônomo, boa parte desses primeiros capítulos dedica-se a desmentir histórias sobre visões e raptos por seres extraterrestres, incluindo falsificações propositais - como os círculos perfeitos nas plantações da Inglaterra -, teorias conspiracionistas, como os casos Roswell e da Área 51 e disseminações de histórias através de uma mídia quase acrítica.

A maior parte dos outros assuntos é abordada em função das histórias sobre ET's. Por exemplo, são identificados alguns paralelos entre histórias de raptos por Óvnis e histórias de bruxas e de rituais satânicos - a maioria dos elementos centrais das histórias de rapto por alienígenas está, segundo o autor, presente na paranoia que queimou inúmeras mulheres acusadas de bruxaria na Idade Média. Sagan pretende mostrar com isso que os relatos de raptos por alienígenas são apenas mais um tipo de representação mítica dos medos e desejos humanos: os ETs seriam as versões modernas das bruxas, gnomos e duendes (curiosamente, o Brasil está experimentando um novo "surto" de duendes e anjos povoando o mundo, responsável pela repercussão de obras como as da escritora Mônica Buonfiglio). Alguns casos de raptos por alienígenas e de rituais satânicos são explicados a partir da memória recuperada de abusos sexuais na infância.


A obra não é um texto de filosofia da ciência ou de epistemologia e Sagan não se aprofunda nas relações entre pseudociências, mitos, medos e desejos. Essas relações são visíveis, porém, numa leitura atenciosa do livro. O maior valor dessa parte da obra está em mostrar como as diversas pseudociências não resistem a uma análise mais apurada. 

A partir do capítulo 12, a abordagem muda e o autor passa a complementar os dois primeiros capítulos com a descrição das características da ciência, as razões pelas quais a abordagem científica é a mais apropriada e a comparação com as pseudociências. Novamente Sagan não mergulha em teorias epistemológicas, mas descreve o lado prático do pensamento cético, baseado em sua experiência como cientista. 

Sagan apresenta o que chama de "kit de detecção de mentiras", uma exposição bem elaborada da essência do pensamento cético e seus instrumentos. Esta parte da obra inclui uma interessantíssima lista de cerca de 20 falácias de argumentação mais comuns (páginas 210-215), ilustradas por numerosos exemplos afinados com o cotidiano das pessoas. Por exemplo, o argumento ad hominem, "quando atacamos o argumentador e não o argumento", ou o post hoc, ergo propter hoc ("aconteceu após um fato, logo foi por ele causado").

Nos oito capítulos finais, Sagan afasta-se do combate direto à pseudociência e passa a descrever as relações entre a ciência e a sociedade. Os problemas na educação e na divulgação científica são abordados nos primeiros três. Os últimos são dedicados às relações entre ciência e política, incluindo a importância da cultura científica na formação da cidadania (o autor tem uma experiência pessoal a contar sobre isso), a relação entre instrução e liberdade, a importância da pesquisa básica e o problema das verbas para pesquisas. 

Uma agradável surpresa aparece nas páginas 324-327, quando o autor tenta passar sua enorme experiência em divulgação científica e explica ao leitor como ela deve ser feita. Qual o segredo da vulgarização científica de sucesso? Sagan é direto: "não falar para o público em geral como falaríamos com nossos colegas do ramo" é o único segredo. Entre as "armadilhas potenciais" no trabalho de divulgação, Sagan cita "a simplificação exagerada, a necessidade de ser econômico com as qualificações (e quantificações), o crédito inadequado dado aos muitos cientistas envolvidos e as distinções insuficientes traçadas entre as analogias úteis e a realidade". 

Entre os bons exemplos de divulgadores, são citados os biólogos Stephen Jay Gould e Richard Dawkins, os físicos Steven Weinberg e Kip Thorne, o químico Roald Hoffmann e os astrônomos Fred Hoyle e Isaac Asimov. 

 
O caso da África do Sul é um exemplo concreto de o quanto o analfabetismo científico pode ser trágico: o presidente Thako Mbeki recusa-se a aceitar as inúmeras pesquisas que apontam o vírus HIV como o causador da AIDS (vide a Decração de Durban) e proibiu a administração de medicamentos à população, inclusive às gestantes, cujos filhos teriam muito mais chances de serem salvos se fossem medicadas (cf. Folha de S. Paulo de 17/12/00, pág. A25). A África do Sul é um dos países mais atingidos pela AIDS, com cerca de 10% da população contaminada pelo HIV. Outro caso famoso é o da cantora Nara Leão, que tentou curar um tumor no cérebro através de medicinas alternativas que não fizeram mais do que fazer desaparecer os sintomas (um efeito perigosíssimo!). Nara morreu por causa do tumor pouco depois, em 1989.

O leitor pode tentar desvendar com seus próprios olhos os "mistérios" da ex-secretíssima base militar norte-americana conhecida como "Área 51" nas fotos de satélite disponíveis desde 1998 no site da Terraserver .

Companhia das Letras, São Paulo, 1996.
Páginas: 442

O Provocador 0062

"Compremos o que nos mandam comprar. Comamos o que nos mandam comer. Vivamos a vida segundo a lei da modernidade líquida, mas nunca, nunca mesmo, nos esqueçamos que estamos todos na mesma embarcação. Alguns na popa olhando o mar que para trás ficou, outros na proa, buscando no vasto oceano a sua frente um pedacinho de terra que lhe dê segurança, já outros estão lá no porão descascando batatas e dividindo seu espaço com os ratos, e acredite... de certa forma todos estão felizes."

O Provocador

O Provocador 0062

"Compremos o que nos mandam comprar. Comamos o que nos mandam comer. Vivamos a vida segundo a lei da modernidade líquida, mas nunca, nunca mesmo, nos esqueçamos que estamos todos na mesma embarcação. Alguns na popa olhando o mar que para trás ficou, outros na proa, buscando no vasto oceano a sua frente um pedacinho de terra que lhe dê segurança, já outros estão lá no porão descascando batatas e dividindo seu espaço com os ratos, e acredite... de certa forma todos estão felizes."

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O Provocador 0061

"O paradoxo é que só podemos duvidar daquilo em que acreditamos, pois aquilo em que não acreditamos, para nós não é válido de forma alguma, logo, incoerência seria não descrer às vezes da Ciência em que acredito"

O Provocador

O Provocador 0061

"O paradoxo é que só podemos duvidar daquilo em que acreditamos, pois aquilo em que não acreditamos, para nós não é válido de forma alguma, logo, incoerência seria não descrer às vezes da Ciência em que acredito"

O Provocador

sábado, 14 de abril de 2012

O Provocador 0060

"Somos todos analfabetos em matéria de ciências, ou seja, hoje nem tanto, mas até pouco tempo atrás, tudo que não se podia explicar era logo jogado para o "degrau de cima". Podemos, e devemos questionar tudo, para que, uma vez livres da ciência-cristã, não nos vejamos presos a uma pseudo-ciência, cada vez mais longe da ciência-real, que é a única mãe má, que diz ao filho que ele morrerá e não voltará jamais"

O Provocador"

O Provocador 0060

"Somos todos analfabetos em matéria de ciências, ou seja, hoje nem tanto, mas até pouco tempo atrás, tudo que não se podia explicar era logo jogado para o "degrau de cima". Podemos, e devemos questionar tudo, para que, uma vez livres da ciência-cristã, não nos vejamos presos a uma pseudo-ciência, cada vez mais longe da ciência-real, que é a única mãe má, que diz ao filho que ele morrerá e não voltará jamais"

O Provocador

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segunda-feira, 9 de abril de 2012

“Questões acerca da morte" (parte 2)


Por Edson Moura

Diante da questão da morte, os filósofos não poderiam simplesmente ignorar sua importância. Muitos filósofos, no decorrer da história da Filosofia, dedicaram profundas reflexões sobre o assunto na tentativa de apaziguar suas próprias consciências, e dar sentido àquilo que parece uma fatalidade, um absurdo, um castigo. A seguir veremos alguns dos principais filósofos nessas reflexões.

Segundo a tradição, um dos maiores filósofos foi Sócrates, embora nada tenha escrito e quase tudo que conhecemos acerca de seu trabalho fora escrito por seu discípulo Platão. Os últimos momentos da vida de seu mestre encontra-se narrado no diálogo de “Fédon” ou “Da Imortalidade da Alma”. Sócrates corajosamente aceita a sentença que seu pares lhes impuseram , negando-se a fugir como propunha seus discípulos, pois para Sócrates, obedecer as leis da cidade era uma questão de honra. Devemos nos lembrar que Sócrates também era político, uma espécie de deputado ou senador de Atenas.

Aceitando sua sentença de morte, Sócrates dá sua última “aula” aos discípulos, revelando o caráter moral de sua decisão, de coerência com o que havia dito e vivido como cidadão ateniense. Fala das virtudes (temperança, coragem, justiça) e convida seus discípulos a serem fiéis aos apelos de suas consciências, mesmo enfrentando tamanha injustiça. Diz Sócrates: “Se morrer é encontrar-se com os grandes da história de Atenas, como Péricles, pai da democracia, a morte então seria um prêmio para ele”. Impressionado com a vida e também com a morte de seu mestre, Platão revelará em praticamente todos os diálogos que escreveu, como  no “A defesa de Sócrates”, o quanto seus ensinamentos e coerência de vida eram fundamentais para construção de uma sociedade justa e de uma vida feliz.

Podemos também falar de Epicuro, nascido na cidade de Samos, tornou-se discípulo de Demócrito com apenas quatorze anos de idade. Depois de muitas idas e vindas, instala-se em Atenas onde funda sua escola filosófica para homens e mulheres, que, como não podia deixar de ser, foi alvo de fofocas escandalosas. Epicurismo ou Hedonismo, tem como princípio de sua doutrina, pregar que a felicidade humana deve se basear na vivência do prazer, o que não significa desregramento ou, imoralidade. Para ele, o prazer devia ser regido pela razão, pelo equilíbrio, ou seja, a justa medida de Aristóteles.

Epicuro ensina seus discípulos a não temer a morte, pois pior seria viver para sempre e pior, viver em desgraça, miséria ou dor. Antecipar o pensamento de morte não vale à pena, pois o morrer, em si, não faz parte da vida. Será apenas um momento que, de repente nos conduzirá para outros horizontes ou para o nada. Assim como dormimos todas as noites e não percebemos como isso acontece, assim será a morte. Portanto, o que vale na vida de verdade, é procurar viver bem, desfrutar o que há de bom, viver intensamente cada instante, e estar com os amigos.

Também Martin Heidegger, filósofo alemão, e um dos principais pensadores do século vinte, que escreveu obras como “O ser e o Tempo”, é tido como um pensador Existencialista (embora não tenha aceitado o adjetivo). Mas, ao se preocupar com um sentido mais profundo para a existência humana, ou com a questão metafísica do “ser aí”, e ao afirmar que “o homem é um ser para a morte”, Heidegger certamente se inscreve entre aqueles que tiveram um preocupação comum aos filósofos denominados existencialista, como Sartre.

O ser humano vive sua existência como projeto, com suas infinitas possibilidades de realização no futuro, mas somente uma poderá ser sua escolha, que nunca é definitiva. A todo momento a liberdade humana é chamada a se posicionar, a se ajustar, mas sabendo que a própria liberdade não é um dado pronto e acabado. A liberdade se faz a cada momento que se coloca, a cada ato, livre ou não. Todavia o homem sabe que há uma “situação limite” colocada pela morte. E este é um fato do qual homem algum poderá escapar, fazendo surgir assim a angustia existencial e as tantas perguntas sobre o sentido de nossa existência.

“Por que, e para que viver, se tudo acabará com a morte?” Quem nunca se fez esta pergunta? Devemos nos lembrar que para Heidegger, não podemos contar com a saída da crença em vida eterna, ou seja, imortalidade da alma, possibilidade dado pelos filósofos metafísicos tradicionais como Platão, Descartes, ou Leibniz.

Diante da angústia perante a desagradabilíssima e inevitável experiência da morte, o que não significa medo psicológico, depressão ou pensamento mórbido sobre a morte, temos duas saídas apenas: Uma existência autêntica dos que assumem essa angústia e aceitam sua finitude, voltando-se para um viver crítico, responsável e quem sabe livre. Se esta é a única vida que tenho, cabe somente a mim vivê-la em plenitude, a construí-la com os outros no mundo, sem medo, sem amarras, sem escravidão e mesquinharias.

A outra posição que um ser humano pode tomar diante dos pensamentos aterradores acerca de sua morte é o do homem inautêntico, que foge da angustia da morte, que nega a sua realidade por meio de mil subterfúgios, refugiando-se na impessoalidade, alienação religiosa e massificação. E por negar a angústia da morte, acaba por negar-se a si mesmo e a autenticidade de sua vida.
Edson Moura

Leia a primeira parte em: "Questões acerca da morte"

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Ramsés - Christian Jacq (Cinco Volumes)

Sobre os Livros:
Quando se evoca a grandeza do antigo Egito, um nome vem imediatamente á memória: Ramsés, que reinou durante mais de sessenta anos.

Ao recriar a grandiosidade e o mistério dos tempos antigos, retrata, como nunca se fez antes, o magnífico faraó Ramsés, cujo reinado se encontra talhado em esculturas colossais. Pertencente à XIX dinastia do Egito Antigo, Ramsés soube cultivar a sabedoria, a justiça e a prosperidade. Abençoado por Sethi e amado pelo povo, ele reinou por mais de 60 anos às margens do Nilo, a terra do misticismo e do encantamento.

Minha opinião: Indico fortemente essa saga, ainda mais pra quem gosta do Egito. Tem um alto conteúdo histórico, amizades, traições, guerras, sexo… o nível do diálogo é extremamente simples, poderiam ser lidos até por crianças se não fosse por algumas coisinhas mencionadas acima. O trabalho editorial é incrível, dando nota 10 para as capas.
1º Livro da Série Ramsés – “O Filho da Luz”
Ano de Lançamento: 2000
Número de Páginas: 389 páginas
Editora: Bertrand Brasil
Tradutor: Maria D. Alexandre

Sinopse: Primeiro volume da saga em cinco partes sobre a vida do faraó Ramsés. Ele é um jovem que anseia secretamente substituir o pai no trono do Egito, mas o direito à sucessão pertence a seu irmão, Chenar. Mas quem realmente sucederá o faraó Sethi?


2º Livro da Série Ramsés – “O Templo de Milhões de Anos”
Ano de Lançamento: 2000
Número de Páginas: 369 páginas
Editora: Bertrand Brasil
Tradutor: Maria D. Alexandre
Sinopse: Ao recriar a grandiosidade do Egito Antigo, o autor retrata como nunca o magnífico faraó Ramsés, cujo reinado se encontra talhado em esculturas colossais. Exclusivo, entre os brasileiros, como o mais conhecido dos pecados capitais – a inveja.
3º Livro da Série Ramsés – “A Batalha de Kadesh”
Ano de Lançamento: 2000
Número de Páginas: 369 páginas
Editora: Bertrand Brasil
Tradutor: Maria D. Alexandre
Sinopse: Neste volume, Ramsés tem de enfrentar um exército inimigo com poder bélico maior do que o seu enquanto busca salvar a vida de sua esposa que está gravemente doente. Comunidade no Orkut: Sem comunidade por enquanto…
4º Livro da Série Ramsés – “A Dama de Abu-Simbel”
Ano de Lançamento: 2000
Número de Páginas: 370 páginas
Editora: Bertrand Brasil
Tradutor: Maria D. Alexandre
Sinopse: No penúltimo volume da série, o egiptólogo Christian Jacq dá continuidade à saga romanceada do faraó egípcio Ramsés. Neste volume, além enfrentar a ira de Moisés, que virá libertar os hebreus, o faraó terá que livrar-se da magia negra de um mago líbio.
 5º Livro da Série Ramsés – “Sob a Acácia do Ocidente”
Ano de Lançamento: 2000
Número de Páginas: 364 páginas
Editora: Bertrand Brasil
Tradutor: Maria D. Alexandre
Sinopse: No último volume da série, o egiptólogo Christian Jacq dá continuidade à saga romanceada do faraó egípcio Ramsés. Neste volume, Ramsés se vê acossado pelo seu maior inimigo: o tempo, pior que todos os magos e hebreus. O tempo roubou-lhe o amor e os amigos, e agora castiga o próprio faraó.

Por Edson Moura

quarta-feira, 4 de abril de 2012

“Questões acerca da morte”


Por:Noreda Somu Tossan

A filosofia, ao contrário do que muitos imaginam, não deve ser complicada, ao invés disso, ela deve ser o mais objetiva possível, sem palavras difíceis, que muita das vezes estão ali presentes nos artigos filosóficos apenas para dar um ar de intelectualidade ao autor. Costumo escrever muito sobre morte, o que me rendeu um rótulo de pessimista, ou mórbido, desiludido ou decepcionado da vida, ou seja, uma pessoa propensa ao suicídio. Pois bem, que pensem o que quiserem. Não me importo (muito) com esses detalhes. Enquanto vão me tachando de frustrado eu vou vivendo e sorvendo cada minuto da minha existência como se não fosse haver outros mais.

Muitos dizem (eu inclusive) que a morte faz parte da vida, o que não soa muito correto se for sermos rigorosos com os termos. Ninguém que ainda esteja vivo, (eu, você que está lendo, todos nós) experimentou de fato o que é morrer. A morte é o fim de um processo orgânico, que ao cessar de pulsar como vida, se acaba, se extingue. Portanto, a morte faz parte do “além-vida”, a morte pertence apenas ao mundo dos mortos. O problema é que o mundo dos mortos faz parte do mundo dos vivos, seja no culto aos mortos, nos cemitérios, nos rituais fúnebres das tantas religiões, na poesia, na literatura, na saudade que fica ao perdermos um ente e na “esperança de um dia o encontrarmos novamente na eternidade”. É aqui que entra a Filosofia.

Se a morte não faz parte da vida, pelo menos ela deve fazer parte do pensamento dos que estão vivos. A consciência que nós “sapiens” temos da morte nos persegue e nos obriga a tomarmos uma posição, mesmo que esta seja fugir de sua lembrança inventando mil desculpas e sublimações. Mas já os que possuem fé, ou acreditam na continuação desta vida, concebem em suas cabeças, um paraíso ou um inferno, um nirvana, um renascer, ou seja, morrer de forma alguma é o fim para essas pessoas. Platão e Sócrates acreditavam nisso, portanto, filosofaram sobre a Vida e a Morte. Já Nietzsche e Sartre não acreditavam, mas também filosofaram. E se para Cícero, “Filosofar é aprender a morrer”, poderíamos reescrever esta frase e dizer: “Filosofar é aprender a viver”.

Todos os seres vivos morrem. Esta é uma lei natural e universal a que ninguém escapa, logo, o ser humano, como animal, também morre. É certo que os avanços na Medicina ou na engenharia Genética andam prometendo certa “imortalidade” para em breve. Mas não sabemos quando, nem como e sequer se atingiremos este sonho. Mas só o homem tem consciência de que vai morrer. E por este motivo, já antes de nossa morte, podemos senti-la, pensá-la, vivê-la, o que não deixa de ser um paradoxo. O fato é que, dessa consciência que temos de que vamos morrer, surge uma gama de possibilidades e consequências históricas, culturais, sociais e filosóficas sobre a significação humana da morte. Daí surgiu as grandes religiões, com a promessa de que o homem não morre para sempre, de que ele sobreviverá à morte física. Sejam eles os Cristãos, os Muçulmanos, os Judeus ou os Budistas.

Mas embora tantos prometam uma vida após a morte, a ressurreição, o renascer, o reencarnar-se, o nirvana, ainda persiste o problema de que cada ser humano terá que enfrentar sozinhos a “travessia com o barqueiro para o outro lado”. Mesmo com o consolo das crenças e das religiões, o medo de deixar a vida continua assombrando a humanidade, provocando calafrios, fugas, alienações, neuroses e orações. E ainda que as religiões prometam a salvação eterna, muitos de seus fiéis abarrotam as igrejas com seus corpos mortais adoecidos em busca de um milagre, curas físicas ou espirituais, prosperidade financeira, o retorno de um amor perdido, ou seja, a felicidade aqui e agora, o mais longe possível da famigerada morte. Ninguém que morrer, nem tampouco falar da morte, da sua morte. O medo da morte é um dos maiores incentivos para a atividade humana, atividade esta em boa parte destinada a evitar a chegada da inevitável morte, buscando inutilmente vencê-la, se enganando com a negação de que ela é o destino final do homem.

Se olharmos com atenção para as diversa civilizações e povos da história da humanidade veremos que todos tiveram e têm uma relação ritual e simbólica com a presença da morte. Desde que se criaram as religiões e os deuses, os rituais criados pelo homem nada mais são do que formas de se relacionarem, de “negociarem” com o sagrado, com o sobrenatural, o mistério divino, tendo com anseio galgarem uma vida que supostamente se estenderia para além desta. Assim o homem buscou, busca e continuará buscando por muito tempo ainda a imortalidade e o eterno. Foi assim que as civilizações antigas inventaram suas crenças absurdas, seus rituais grotescos (a começar pela feitiçaria).

Certamente os feiticeiros foram os primeiros a tentar controlar, pela magia, as forças, sejam elas do bem ou do mal, em benefício do próprio homem e suas necessidades de sobrevivência histórica ou para além dela. Depois deles vieram os sacerdotes, os profetas, os enviados por  Deus ou pelos deuses, tentando mostrar assim que, mesmo sem experimentar literalmente a morte era possível um prelúdio de como seria o mundo dos espíritos, de como os heróis mitológicos iam e vinham do reino dos mortos, vitoriosos, carregando a cabeça de seus inimigos, ou amarrando as serpentes infernais em cativeiros no submundo. Assim foram os deuses do Egito Antigo, Ísis, Osíris, Néftis, entre tantos outros. A crença da imortalidade da alma, que certamente inspirou a fé judaica, marcou toda a milenar cultura egípcia, cujas pirâmides que até hoje erguem-se imponentes nas areias do deserto do Saara, nada mais são do que túmulos de seus reis, guardando sarcófagos com suas múmias embalsamadas e cheias de tesouros, esperando a volta de suas almas do mundo dos mortos.

Na Grécia, os cultos a Orfeu e a Dionísio e os mistérios de Átis e de Adônis possuem a mesma essência, a saber, a morte e o renascimento. Por aí podemos avaliar que, enterrando ou cremando seus mortos, a humanidade sempre revelou e continua a revelar essa crença ou, como alguns gostam de chamar, fé, na eternidade da vida para além da morte.

Continua...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Vaidade das vaidades, tudo vaidade


Por Edson Moura
Dias desses recebi a visita de um grande amigo, aliás, dois grandes amigos, e por muitas vezes, no calor de nossos debates, refleti sobre temas que preferi não compartilhar com eles naquele momento. Agora, depois de passada a euforia de ter meus companheiros Marcio e Esdras dividindo o mesmo teto comigo, resolvi escrever sobre o que pensei naquele momento.  Ponderações sobre a velhice, a morte e o “ser feliz” num mundo já há tempos dominado pela indústria da beleza e sua falsa promessa de bem estar e eterna juventude me fizeram pensar sobre como estou conduzindo minha existência.
 
Ouvi dizer, ou talvez tenha lido em algum livro ou revista que certa feita Sócrates foi indagado ao observar atenciosamente e com profunda admiração sobre as coisas que punha os olhos. Sócrates teria respondido que, na verdade examinava quantas coisas supérfluas existiam, e que, portanto, eram prescindíveis à sua felicidade. Hoje certamente essas coisas são muito banais. De modo que não se precisa sair a cata dos encantos da sereia. Dentro desse universo do que é supérfluo estão inseridas as bugigangas mais variadas do não envelhecimento.

A Indústria da beleza vem ditando em ritmo frenético o que é necessário para ser aceito nos espaços em que ela é fundamental. Mas o que seria o “belo”? Será que o belo é o mesmo que está retratado nos outdoors e nos manequins de grifes famosas? Para nós ocidentais chafurdados no capitalismo, os encantos de um Shopping Center faz todo o sentido, todas aquelas vitrines bem montadas nos seduzem e acabam nos obrigando a viver numa espécie de comunhão religiosa com o frívolo. Parece-me que nossa felicidade vem embrulhada num papel colorido de presente. Às vezes, nem percebemos que somos indivíduos, seres “para si” existentes, pois nos equiparamos àquilo que nos gera uma provisória sensação de bem estar.

Em 1931 Giovanne Reale disse: “Dê-me televisão e hambúrguer e não me venha com sermões sobre liberdade responsabilidade. Com este mesmo sentido, e parafraseando Nietzsche, Reale afirma que “a raiz de todos os males que atinge ao homem de hoje se encontra no exatamente Niilismo. O niilismo nietzschiano reduz-se à fórmula emblemática da morte de Deus, ou seja, do esmagamento da transcendência e de todos os valores metafísicos. Ora, se isto constitui-se uma verdade, se Deus está morto e com Ele toda dimensão transcendental, prevalece então o Materialismo e com isso toda a transvaloração dos ideais supremos.

Nessa perspectiva, o bem-estar material é deve ser tratado como prioridade, e isso gera, ou pelo menos contribui muito, para o mal-estar da civilização. Chamamos esse tipo de bem –estar de “felicidade artificial”, produzido pelo consumo desregrado que chega a se tornar um hiperconsumo bulímico que se alterna com as dietas de privações na busca de um corpo perfeito, mesmo que isso gere um culto dispendioso às vitaminas e dos oligoelementos.

Todos nós conhecemos a história de Narciso, que foi um jovem de extrema beleza, mas intoleravelmente soberbo e desdenhoso. Agrado de si mesmo e a todos os mais desprezando, levava a vida no serrado dos bosques coutadas, em companhia de um grupo de amigos para quem ele era tudo. E onde Narciso ia o seguia uma ninfa chama Eco. Assim vivendo chegou certo dia, por mero acaso, à beira de uma fonte cristalina e debruçou-se. Ao enxergar nas águas sua própria imagem, perdeu-se numa contemplação e depois numa admiração tão extasiadas de si mesmo que não pode afastar-se do reflexo que mirava e ali ficou paralisado, até que a consciência o abandonou. Foi então transformado numa flor que traz seu nome, a qual desabrocha no começo da primavera. É a flor sagrada das divindades infernais: Plutão, Prosérpina e Eumênides.

 Pobre Narciso, o culto a si mesmo o fez perder sua condição de existência, consumido pelo inebriado delírio de sua imagem. Não devemos nunca esquecer também que isto é apenas um detalhe quase sem relevância frente ao seu sinistro fim, ser transformado numa flor sagrada para as divindades do inferno. Lembremo-nos então que homens deste tipo tornam-se inúteis e imprestáveis para tudo na sociedade.

A Atual conjuntura do mundo, notoriamente marcado pela evolução científica, vem cada vez mais descobrindo meios de proporcionar prazer com a “felicidade artificial”. Sabe-se que a ciência tem um papel importantíssimo no retardamento da velhice, das doenças e como era de se esperar, da morte. Claro que isso não é ruim! É maravilhoso, desde que este objetivo não nos torne escravos de tais progressos. O homem é um ser temporal, finito. E quando não aceitamos esta condição, ou seja, quando ele faz de todo seu tempo um eterno retocar de maquiagem de suas rugas e cabelos brancos, de uma busca infinita pela beleza externa ditada pelos outdoors, acabará como Narciso: Inútil e imprestável.

Devemos lembrar que essa busca incessante pela beleza e negação da velhice é evidente nos padrões sociais mais elevados, pois sabemos, ou deveríamos saber, que são os ricos que detêm o poder aquisitivo para valer-se de tais panaceias. “Nos ricos o consumo torna-se histérico, maníaco pela autenticidade, pela beleza, pela cor pura e pela saúde. São eles quem dominam as vitrines, os grandes magazines, os pequenos mercados de pulgas. A mania de frivolidade torna-se mania de ninharias. Como seria a imagem do grande Sócrates em um Shopping Center? Qual seria sua reação?

Nessa corrida desesperada o tempo acaba por tornar-se o grande vilão. Uma voz que não se cansa de nos sussurrar: “Os teus dias estão passando!”. Então corremos para o espelho, verificamos se a calvície está aumentando, se mais um fio de cabelo ficou branco, se mais uma ruga traçou nosso rosto como o leito de um rio já seco, se a barriga já nos impede de amarrar o cadarço de nossos sapatos e assim por diante.  Rapidamente corremos para academia na tentativa frustrada de reparar a flacidez de nossos músculos já cansados de tanto trabalho pesado, ou, quando ainda não estão flácidos, o que é o meu caso, tentar impedir que isto aconteça. Desesperamo-nos, pois os dias estão passando, e o inimigo cruel não tem a menor intenção de parar de correr.

 A ampulheta da consciência diz isso. Uma batalha épica é travada com nosso ego, que diz: “Eu não quero envelhecer!”. Moisés num de seus salmos disse: “...Pois todos os nossos dias vão passando na tua indignação; passamos os nossos dias como um conto que se conta. Os anos de nossa vida chegam a setenta, ou oitenta para os que tem mais vigor, entretanto, são anos difíceis e cheios de sofrimento, pois a vida passa depressa e nós voamos...". (Salmo 90.9-11). Ninguém experimentou isso melhor do que o poeta John Keats, que morreu aos 25 anos vitimado por uma tuberculose, lamentando resignadamente: “Se eu tivesse tido mais tempo!”.

Assim como a nossa morte, a velhice, por enquanto, é inevitável, aliás, podemos dizer que elas caminham lado a lado e de mãos dadas. Vez ou outra a morte chega de maneira paulatina, outras vezes o tempo a impulsiona, mesmo assim, por mais velho que estejamos, sempre acharemos que está cedo demais para abrirmos a porta e convidá-la para entrar. O segredo está no velho pensamento romano: “Lembra-te que és mortal!”. Não aceitar a velhice, e consequentemente a morte, é viver sobre o jugo de uma eterna angústia. A Angústia da luta contra o inevitável, isso gera desespero, pois em determinado momento percebemos que a luta é vã, então entramos em crise. Portanto, não adianta nos desesperarmos, velhice e morte, essas duas companheiras nos visitam todos os dias. Todos os dias a primeira nos bate à porta, enquanto a segunda fica na soleira esperando o dia em que, sorrateiramente invadirá nossa morada, com isso, quando ela entrar, nada mais podemos fazer a não ser, arrumar as malas e partir para o definitivo.

Só me resta recorrer a Salomão, o sábio: “Vaidade das vaidades, tudo vaidade”, e como disse o profeta Moisés no salmo bíblico: ...Nossa vida é um conto ligeiro.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Ainda há tempo


Por Edson Moura


Algo ainda me diz que posso ter esperança
Que no fundo somos todos crianças
O Problema é que meus olhos de adulto não me deixam ver

As estórias contadas por meu velho pai
Vez ou outra minha memória me trai
Mesmo meu cérebro adulto não me deixa esquecer

Algo me anestesie minha mente racional
Que me traga de volta o sentimento passional
Reflito e acho que já não é possível

Minha vida está passando e eu aqui...

Minha vida está passando e eu aqui...
Minha vida está passando e eu aqui... acreditando que vivi.

Como pude esquecer-me daquelas piadas?
Que animavam minhas tardes entediadas.
Meu sorriso reluta em se mostrar

Talvez tenha me tornado um velho triste
Esquecendo-me que o amor ainda existe
Nem sinto vontade de chorar.

Por que desisti da gente?
Por que me prender ao presente?
Quando foi que ergui este muro?

O Agora é real, agressivo e responsável
O que já passou é nostálgico, e irrecuperável
Só idiotas como eu não dão uma chance para o futuro.

Minha vida está passando e eu aqui...
Minha vida está passando e eu aqui...
Minha vida está passando e eu aqui... acreditando que vivi.

 Edson Moura






sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O Suicídio - Émile Durkheim

Sobre o Livro:

O Suicídio foi um dos pilares no campo da sociologia. Escrito pelo sociólogo francês Émile Durkheim e publicado em 1897, foi um estudo de caso de um suicídio, publicação única em sua época, que trouxe um exemplo de como uma monografia sociológica deveria ser escrita.

Inúmeros estudos contemporâneos sobre o suicídio focavam em características individuais. Durkheim estudou as conexões entre os indivíduos e a sociedade. Ele acreditava que se pudesse demonstrar o quanto um ato individual é o resultado do meio social que o cerca, teria uma prova da utilidade da sociologia. Neste livro, Durkheim desenvolveu o conceito de anomia. 

Ele explora as diferentes taxas de suicídio entre protestantes e católicos, explicando que o forte controle social entre os católicos resulta em menores índices de suicídio.
De acordo com Durkheim, os indivíduos têm um certo nível de integração com os seus grupos, o que ele chama de integração social. Níveis anormalmente baixos ou altos de integração social poderiam resultar num aumento das taxas de suicídio:

Níveis baixos porque baixa integração social resulta numa sociedade desorganizada, levando os indivíduos a se voltar para o suicídio como uma última alternativa;

 Níveis altos porque as pessoas preferem destruir a si próprias do que viver sob grande controle da sociedade.

O trabalho de Durkheim influenciou os proponentes da Teoria do Controle, e é frequentemente mencionado como um estudo sociológico clássico.

Pág: 445

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Em Breve (Portal Stopim)

Olá amigos que por tanto tempo acompanharam este blog. Venho anunciar por meio de mais esta postagem, que em breve um novo portal estará online para que possamos interagir. Depois de aproximadamente 2 anos com o blog “Outro Evangelho”, achei por bem dar continuidade ao meu trabalho de divulgação de notícias, proposição de reflexões e algumas vezes denúncias, em outro lugar. Um lugar mais apropriado, mais funcional do que um simples blog (sem querer de forma alguma diminuir a importância este veículo de comunicação).

Após quase dois meses de pesquisa e de exaustiva procura por uma empresa que pudesse desenvolver um Site com as características que eu buscava, encontrei A “Chairô desenvolvedores” e acreditem ou não, são evangélicos (risos). Pois bem, o Logotipo já foi criado, e patenteado, o domínio já está registrado e a hospedagem também já foi providenciada, ou seja, falta pouco... muito pouco.

Porque estou escrevendo tudo isso? Apenas para divulgar o novo endereço? Sim e não! O que quero comunicar é que logo mais, é bem possível que eu não mais escreva aqui. Assim como também pararei de postar no blog “Produtos do Amor” e no “Blog do Noreda”. Isso quer dizer que o Noreda enfim desaparecerá? Não! O Noreda certamente ainda estará ativo no novo endereço, assim como o Edson Moura, Marcio Alves e outro amigos que por tanto tempo acompanharam o “Outro Evangelho”

Dentro de alguns dias entrarei em contato com alguns dos companheiros para fazer a convocação formal para serem co-autores do novo Site. Isso mesmo! Levi Bronzeado (Psicanálise), Eduardo Medeiros (Religião e História), Marcio Alves (Psicologia), Altamirando Macedo (Ciências), Gabriel Nagib (Genética), Guiomar Barba, Ercio Baltazar (Denúncias eFilosofia), Emiliano Caratta (Sustentabilidade), Renata Moura (Educação), Carlos Viana (Cultura e Lazer), entre outros serão convocados para contribuir com este novo trabalho.

“Portal Stopim” é o nome do Site. Um lugar onde a informação jamais estará atrelada à entidades governamentais, onde a denúncia será feita e “re-feita” quando não surtir efeito na primeira vez. Um jornal! Sim, um jornal é o que será. Mas um jornal desvinculado, sem corporativismo, sem dogmas acadêmicos, sem “rabo-preso”, não tendencioso, não “puxa-saco”, não covarde, sem limites para veicular o notícia e esperar que ela exploda quando sua gravidade assim o exigir.

Certa vez meu amigo Esdras Gregório exortou-me dizendo que eu apenas escrevo, que não passo de um demagogo, que era preciso ser mais ativo na propagação dos meus ideais, pois bem, como não posso formar um grupo radical extremista e assassino, faço uso daquilo que por tanto tempo tem sido minhas armas, a saber, a escrita. Aí está Gresder, chegou a hora de arregaçar as mangas e botar a mão na massa, fazer a diferença na Internet, usar esta ferramenta para tentar mudar o obscuro futuro de nosso País. (Por falar em Gresder, alguém sabe por onde ele anda?)

“Portal Stopim” é um investimento à longo prazo, talvez seja necessário alguns anos para que o Site ganhe relevância, mas assim como apenas dois amigos (Marcio e Eu) conseguimos levar o “Outro Evangelho” até os níveis mais altos no Google, nada impede que muitas cabeças pensando juntas e com consciência de que algo precisa ser mudado, não consiga também atingir os patamares de um “G1” ou um “R7”. “Não quero mudar o mundo, não ele todo, apenas este mundo que me circunda”. Conto com a colaboração de todos.

Edson Moura dos santos


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O Provocador 0059

"A explosão da Primeira Grande Guerra mostrou aos fanáticos progressistas como o 'rolo compressor' industrial poderia se virar contra seus mestres e esmagar seres humanos aos milhões. A partir daí, Nietzche, Marx, Freud e outros profetas do pessimismo, começaram a ser ouvidos. Nascidos no meio do ufanismo progressista, observavam que dominar a natureza física sem antes aprender a controlar a natureza humana era por demais arriscado."

O Provocador

O Provocador 0059

"A explosão da Primeira Grande Guerra mostrou aos fanáticos progressistas como o 'rolo compressor' industrial poderia se virar contra seus mestres e esmagar seres humanos aos milhões. A partir daí, Nietzche, Marx, Freud e outros profetas do pessimismo, começaram a ser ouvidos. Nascidos no meio do ufanismo progressista, observavam que dominar a natureza física sem antes aprender a controlar a natureza humana era por demais arriscado."

O Provocador

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Provocador 0058

"Na atual conjuntura do país, construir escolas não tem absolutamente nada a ver com investir no ensino. Educação é como uma camisa com muitos botões. Quando se erra o primeiro buraco, todos os demais prosseguirão errados"
O Provocador

O Provocador 0058

"Na atual conjuntura do país, construir escolas não tem absolutamente nada a ver com investir no ensino. Educação é como uma camisa com muitos botões. Quando se erra o primeiro buraco, todos os demais prosseguirão errados"
O Provocador

domingo, 6 de novembro de 2011

A cibernética Lacaniana


Por Noreda Somu Tossan

Existe um texto de Lacan com o nome de “Psicanálise e Cibernética”, ou “Acerca da Origem das Linguagens”, com data de Junho de 1955, que ainda é pouco estudado pelos historiadores de Psicanálise. Nele Lacan propõe uma interessante aproximação entre a sua teoria do Inconsciente e a Cibernética, uma disciplina então nascente e que décadas mais tarde iria se tornar a nossa já conhecida “Inteligência Artificial”. Curiosamente, nem mesmo os mais competentes biógrafos de Lacan, como, por exemplo, Elizabeth Roudinesco, sequer mencionam essa conferência.

Por qual motivo omitiram esse pensamento lacaniano acerca da Cibernética? Talvez essa seja uma atitude intencional de alguns psicanalistas que vêem na Inteligência Artificial e na Ciência Cognitiva algo necessariamente oposto à Psicanálise. A ciência Cognitiva é demonizada, de forma caricatural, como uma espécie de teoria diabólica que visa, em última análise, transformar os seres humanos em máquinas. Essa tendência aparece na obra de Roudinesco, especialmente no livro “Por que a Psicanálise?”, que tem passagens ácidas no que se refere à Ciência Cognitiva.

Mas outra hipótese que o texto dessa conferência revela-se extremamente complexo para aqueles que não têm formação em Ciência da Computação. Nele, por exemplo, aparecem desenhos em tabelas que parecem, à primeira vista, estranhos. Eles são, na verdade representações de portas lógicas de um computador.

As portas lógicas são uma espécie de representação elétrica do pensamento humano. Se assumimos que quase todo pensamento é constituído de proposições e que elas são, invariavelmente, ou verdadeiras ou falsas, podemos construir um circuito elétrico que as represente. A idéia é que “verdadeiro” ou “falso” podem corresponder, reciprocamente, a 0 e 1, e estes, por sua vez, a um circuito fechado (no qual passa corrente) ou um circuito aberto (no qual não passa corrente). É da idéia cotidiana de que nosso raciocínio são proposições verdadeiras ou falsas que são constantemente combinadas na forma de um cálculo que surge a semelhança entre circuitos elétricos e mentes ou, em última análise, entre mentes e computadores.

Mas por que Lacan estaria preocupado com isso? A Razão parece estar no fato de que há outro conceito fundamental que norteia a Ciência da Computação e a programação de computadores: a “recursão”.

A recursão é um tipo de processo no qual um de seus passos envolve sua repetição completa. Uma forma humorística de definir a recursão é dizer que “as bolachas vendem mais porque são fresquinhas e são fresquinhas porque vendem mais”. O que se percebe nesta frase é um procedimento de repetição, no qual, se não houver uma instrução especifica para parar, continuará assim por um tempo indeterminado. Ou seja, a recursão é o procedimento em círculo, sem que se coloque um fim para ele.

Procedimentos recursivos são a base da construção de algoritmos (programas). Mas isso ocorre não somente com as linguagens artificiais utilizadas pelos computadores. Nossa linguagem natural também é recursiva. Na década de 1950, Noam Chomsky propôs essa hipótese. Quando escrevemos uma sentença, podemos sempre acrescentar uma outra a ela, e assim por diante, num processo infinito. “Há um garoto sentado na ponte” pode se transformar em “Há um garoto que matou seus pais sentado na ponte” e “Há um garoto que matou seus pais sentado na ponte criando coragem para pular” e assim por diante. A linguagem remete à própria linguagem e este é um procedimento circular repetitivo.

Ora, Lacan acompanhava os progressos da Cibernética nos anos 50 e, possivelmente, conhecia os trabalhos de seus pioneiros, entre eles o de Norbert Wiener, que estava profundamente envolvido com a programação de computadores. Da mesma maneira, os trabalhos de Chomsky acerca da recursão em linguagens naturais também deviam ser conhecidos por Lacan.

Se a linguagem é recursiva, nos diz Lacan, o inconsciente também o será, já que está estruturado na forma de uma linguagem. É daí que vem o caráter repetitivo do inconsciente, o fenômeno da repetição inexorável, identificado por Freud na sua obra de maturidade. A repetição em um processo neurótico é praticamente interminável, a não ser que em algum momento haja uma instrução para interrompê-lo, como pode ocorrer na psicoterapia. A neurose é um procedimento recursivo e, para explicar sua natureza, teríamos de buscar um modelo cibernético para ela. O neurótico é uma máquina “em looping” e é isso que o aproxima da pulsão da morte. Essa é, em síntese, a mensagem da conferência de Lacan transcrita no seminário II.

Talvez devamos, então, reconsiderar a posição da Psicanálise diante da Inteligência Artificial e da Ciência Cognitiva. Talvez Roudinesco esteja excessivamente à margem esquerda do rio Sena para poder vislumbrar o interesse de Lacan por essas disciplinas, que na década de 1950 , já eram pesquisas científica de ponta. Mas para reconhecer isso será preciso abandonar preconceitos que permeiam a historiografia da Psicanálise. Provavelmente são eles que não permitem que os historiadores da Psicanálise consigam vislumbrar a verdadeira dimensão dessa conferência de Lacan e prefiram não mencioná-la.

Fonte: Revista Filosofia edição 64 pág 37 (João de Fernandes Teixeira, Ph.D pela University of Essex Inglaterra/Professor titular na Universidade Federal de São Carlos site www.filosofiadamente.org)







O Provocador 0057

"Um homem honesto consigo mesmo só pratica atos heróicos quando as circunstâncias o impedem de agir de outra maneira. Herói esperto é aquele que sabe a hora certa de bater em retirada. Salvar sua vida agora lhe dá a chance de salvar outra depois"


O Provocador

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"Um homem honesto consigo mesmo só pratica atos heróicos quando as circunstâncias o impedem de agir de outra maneira. Herói esperto é aquele que sabe a hora certa de bater em retirada. Salvar sua vida agora lhe dá a chance de salvar outra depois"


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O Provocador 0056

"O inferno é darmo-nos conta de que nossa existência é finita e única e não nos conformamos com isso"
O Provocador

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"O inferno é darmo-nos conta de que nossa existência é finita e única e não nos conformamos com isso"
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O Provocador 0055

"O cara que recusa um elogio é um enganador, pois tudo que ele quer é ser elogiado duas vezes"
O Provocador

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