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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Raiva, domine-a ou seja dominado




Resolvi postar este artigo depois de experimentar um momento de extrema irritação no trabalho. foi um dia daqueles onde o desejo de estrangular uma pessoa é o único sentimento que nos faz sentir humanos. Mas, depois de controlar a pulsão de violência, percebi que era possível re-significar o momento, canalizando para aquilo que mais gosto de fazer, a saber, escrever. Talvez a pessoa mais apta a discutir o assunto seja o mestre Levi, mas também sei que cada um aqui já passou por situações semelhantes, e fico curioso para saber como cada um conseguiu lidar com o sentimento de raiva. Nessas horas a Fé (notem de qual fé estou falando) pode ajudar muito, mas, e para aqueles que não a possuem? Pode um ateu ter mais controle emocional de que um Cristão, ou um Budista, ou um Muçulmano? esta é a pergunta. Só posso falar por mim mesmo, que sou ateu, mas ainda assim, não sei se os dez anos que experimentei o Cristianismo moldaram um caráter menos belicoso. Talvez sim.

Muito já foi dito sobre as emoções ao longo das eras e, com certeza, algumas definições têm sido nominadas como melhores e outras como piores. A palavra emoção deriva do latim movere (pôr em movimento). Isso nos fala da sua natureza de colocar em movimento, de dentro para fora, comunicando ao mundo nossos estados de necessidades internas. Todas, então, seriam úteis e por isso foram mantidas no processo evolucionário humano. Lógico que algumas perderam sua função original e se adaptaram, como puderam, à nova realidade da civilização moderna. Afinal, não precisamos mais correr de leões ou matar animais para nossa alimentação. Mas o sistema de luta e fuga continua ativo.
O homem modernizou a sua estrutura social. No entanto, internamente, em seus processos somáticos, ainda é praticamente o mesmo do tempo das cavernas. Basicamente, estamos preparados para caçar e reproduzir; o resto foi se acumulando ao longo de milhares de anos e reflete-se no que somos hoje: criaturas com respostas emocionais às diversas situações nas quais, às vezes, certas manifestações não seriam necessárias, ou que surgem em dimensões desproporcionais à situação vivida. Caso duvide disso, pergunte a quem tem síndrome do pânico ou algum tipo de fobia. Um exemplo é a pessoa que pode ser considerada corajosa, mas, diante de uma minúscula aranha ou uma inofensiva lagartixa ou barata, literalmente “perde a linha” e surta.

Sempre buscamos diferenciar as emoções umas das outras e tentamos associá-las, relacionando as sensações orgânicas com a situação em que estamos envolvidos, fazendo uma ligação direta entre o fato, nossa interpretação dele e o que sentimos. Além das diversas interpretações diferentes que cada um de nós pode dar às situações semelhantes, ainda existe a intensidade da emoção, às vezes forte demais e, outras vezes, não percebidas adequadamente.

Nos animais, a manifestação de raiva foi observada em dois tipos de comportamentos: o ataque a outros animais, para obtenção de alimento, e a agressão afetiva, que serve para corte às fêmeas ou para demarcação de território. É fato que não sabemos nominar nossas emoções: estamos sempre confundindo o que sentimos. As emoções, na visão dos poetas, fazem de nós humanos, mas a realidade é que elas podem atrapalhar, e muito, aqueles que não conseguem detectar seus próprios estados emocionais.

No ano de 1924, Maranon, neurocientista francês (citado por Richard Restak em O Cérebro Humano, p.141), injetou adrenalina em 210 indivíduos, o que fez surgir sensações fisiológicas em todos eles. Quando o experimentador, de maneira indutiva, contava uma história qualquer com fundo emocional, fazia brotar no sujeito a emoção sugerida no texto. Graças ao efeito da adrenalina, a emoção surgia forte. Dessa maneira ele fez "aparecer" todas as nuances das emoções humanas apenas contando diferentes histórias. Essa experiência foi repetida na década de 1960, com algumas alterações de modelo operacional, mas com resultado similar, por Stanley Scharter e Jerome Singer.

Com a mesma base química, mas com interpretações pessoais diferentes das histórias contadas, o significado individual fez surgir emoções que mais se alinhavam com a perspectiva do indivíduo. Podemos inferir, então, que tecnicamente seriam as mesmas reações somáticas que originam as emoções; apenas os nomes dados pelos sujeitos que as vivenciavam eram diferentes, por conta de suas expectativas ou interpretações do contexto.

Nos dias atuais, a complexidade da origem das emoções é debatida ao extremo e nada está totalmente descartado. Alguns defendem a ideia de quatro emoções básicas, outros de seis estados emocionais naturais. Esse exemplo é puramente ilustrativo para que não percamos de vista a possibilidade de estar dando nomes diversos aos mesmos bois.

Podemos então acreditar que muitas das emoções que sentimos, ou nominamos, têm sua origem na mesma fórmula química endócrina? Seremos então escravos de hormônios e neurotransmissores? Isso nos dá bons argumentos para pensar com cuidado sobre como devemos reagir da próxima fez que estivermos sob forte emoção. Afinal, se a emoção tem a sua forma dada pela interpretação da história contada, se re-significarmos o conteúdo, mesmo sem alterar a base química, podemos alcançar um novo estado emocional.

Isso pode soar apenas como teoria para alguns, pois a prática não deve ser tão fácil. A maioria das pessoas não consegue perceber quando está entrando em um estado emocional alterado. "Sob forte emoção estamos sempre certos!" Todos pensam assim?

Dessa pequena abertura podemos passar a qualificar as emoções básicas, que segundo os estudos do psicólogo estadunidense Paul Ekman, são seis. Tratamos de emoções naturais, aquelas percebidas em todos os humanos com o mesmo código facial de expressão muscular, porém guardando diferenças quanto aos motivos culturais para suas manifestações: o que faz rir um oriental pode fazer chorar um ocidental, por assim dizer.

Personalidades que souberam usar sua raiva...para o bem ou para o mal:

ADOLFO HITLER. O que pode tê-lo tornado uma pessoa destruidora? Talvez a morte do pai em 1903, quando ele tinha apenas 14 anos, ou ainda o falecimento da mãe, em 1908, de câncer, quando o então jovem Adolf não tinha completado 20 anos de vida. Sabemos que ele foi péssimo aluno, rejeitado pela escola de belas-artes de Viena e pela escola de arquitetura. Não foi correspondido no amor declarado em centenas de poemas a Stefanie - isso pode ter sido consequência da enorme diferença de classe social. Em Viena aos 20 anos, Hitler fazia molduras para se sustentar, lavava pratos, limpava carruagens, estava sempre malvestido, vivia em albergues e remexia latas de lixo com seus amigos Neumann e Hanisch em busca de qualquer coisa de valor. Foi expulso de um albergue por não pagar uma prostituta chamada Hannah, que era judia, da qual contraiu sífilis. Em 1913 o exército o recusou, por causa de seu estado de saúde, mas o aceitou como voluntário em 1914, durante a Primeira Guerra. Foi condecorado por um ataque que o deixou cego por três dias, mas sua cegueira era de fundo psicológico, pois o gás era inofensivo.


WALT DISNEY. Maus tratos na infância podem ter despertado um gênio criativo? Disney viveu em uma fazenda no interior do Missouri, com um pai extremamente severo, que lhe impunha castigos terríveis quase todos os dias. Foi uma infância de sofrimento contínuo e de muito trabalho pesado. Um dia Walt descobriu que não possuía certidão de nascimento e isso fez com que alimentasse a ideia de que era filho adotivo. Podemos perceber a provável influência desses fatos na estrutura familiar de seus personagens. Aos 16 anos, dirigiu ambulâncias para a Cruz Vermelha na Europa, durante a Primeira Guerra Mundial, e viu de perto os horrores do conflito. Anos depois teve seus primeiros personagens, Alice e Oswald, roubados pelo ex-patrão. O interessante foi a resposta que deu quando soube que, por não ter documentado direito sua criação, não havia como reclamar: escreveu um telegrama a seu sócio e irmão dizendo que tudo estava certo, que ele não se preocupasse, pois já havia em sua mente um personagem espetacular: Mickey Mouse.
 

CHARLIE CHAPLIN. Tragédia familiar pode transformar uma pessoa positivamente? Os pais, ambos artistas famosos na época, separaram-se quando Chaplin nem tinha completado três anos de idade. O pai, alcoólatra, não queria contato com o filho, pois já tinha uma amante. Charlie ficou sob os cuidados da mãe, emocionalmente instável. Um dia, quando ele tinha apenas cinco anos, viu a mãe sofrer um problema na laringe enquanto se apresentava em um teatro lotado de soldados; foi vaiada e a plateia atirou coisas sobre ela. Machucada gravemente, ela foi para os bastidores. O pequeno Charlie subiu, sozinho, ao palco e cantou uma música, controlando a massa enfurecida. O pai morreu de cirrose quando ele tinha 12 anos, a mãe foi internada em um asilo, mentalmente perturbada, pois não tinha como cuidar dos filhos. Foi necessário muito esforço durante a infância e a adolescência para que Charlie e seu irmão conseguissem terminar os estudos em uma escola para pobres no sul de Londres. Sofrimento foi sua marca registrada.
 

THOMAS ALVA EDISON. Frequentou a escola, ensino formal, por menos de seis meses. Aprendeu sozinho, e com a ajuda da mãe, lendo apenas o que lhe interessava. Começou a vida vendendo jornais, sanduíches, doces e frutas dentro dos trens. Ficou surdo e sobre isso, quando questionado sobre se a deficiência auditiva o prejudicava, disse uma vez: "Ao contrário, a surdez foi de grande valia para mim. Poupou-me o trabalho de ficar ouvindo grande quantidade de conversas inúteis e me ensinou a ouvir a voz interior. Além do mais, um homem que precisa gritar quando fala nunca diz mentiras".
Uma situação que pode provocar a raiva em bebês nos diz muito da natureza dessa emoção. Uma interferência física: segurar os membros da criança, impedindo seus movimentos, não permitindo que ela se liberte, irá disparar uma rápida reação. Isso demonstra que essa emoção nasce quando algo interfere na nossa intenção de fazer algo. Ela pode ser ampliada se percebermos ser a ação bloqueadora intencional, ou seja, a pessoa que nos impede os movimentos decidiu fazer isso conscientemente.

O aproveitamento de energia provocado pela raiva pode ocorrer naturalmente em algumas pessoas que foram humilhadas, perseguidas ou que tiveram uma interpretação da realidade que ressaltou tal emoção. Poderia ter sido diferente se, em vez de a raiva ser controlada e direcionada para a ação, ela tivesse sido transformada em rancor e ódio. Esses sentimentos poderiam destruir a possibilidade de um pensamento estratégico que oferecesse um rumo ao sujeito que os vivencia.
Raiva que alimenta:
Muitos líderes, gerentes, homens ou mulheres de sucesso tentam provar algo para alguém que no passado os humilhou ou impediu seu desenvolvimento. Desse modo, seu êxito é uma resposta à provação que podem ter passado em outra época. Sua alta autoestima resulta de uma retroalimentação da emoção.

Algumas pessoas relatam que seus sonhos trazem a memória de tempos difíceis e isso proporciona uma energia incrível para levantar pela manhã e lutar no mundo, para nunca mais ter de passar por aqueles momentos terríveis.

A emoção, em si, e o sentimento que ela desperta não é determinante para o comportamento. Como interpretamos as situações e direcionamos nossos recursos é o que determina sucesso, vitória ou doença e morte. Ouvimos sempre dizer que outros fatores, como sorte ou azar, devem ter peso de influência no resultado final. Isso pode ser até possível, mas a decisão de buscar uma situação ou outra nasce no livre arbítrio e esse surge da capacidade de percepção de nossas próprias emoções.

Não se pode tomar uma decisão sem ao menos saber que tipo de emoção esta manifesta em nosso organismo. A pura sensação fisiológica pode não ser suficiente e clara a ponto de permitir uma avaliação definitiva do progresso comportamental.

Não existe emoção ruim. Todas foram mantidas durante a evolução por um bom motivo: são úteis para a manutenção da espécie, ajudam-nos a permanecer vivos. Sem elas poderíamos cometer erros de avaliação e nos colocar em risco de morte, por exemplo. Uma pena que, com a evolução social e cultural, o homem tenha deixado de prestar atenção à linguagem interna, às matrizes biológicas, acabando, muitas vezes, por precipitar ações que podem causar enorme prejuízo a si mesmo.

"Não é a intensidade dos sentimentos elevados que faz os homens superiores, mas a sua duração." (Friedrich Nietzsche).

O Provocador

sábado, 12 de maio de 2012

O que vemos, como vemos e porque vemos?


Por: Marcio Alves

A percepção social se dá no encontro com o outro. Quando passamos a perceber o outro diferente ou igual a nós, e, isto ocorre através do processo de percepção, não somente da presença enquanto física, mas também do conjunto de características que o outro possui e nos apresenta.

Esta percepção se torna possível, mediante a interação e organização das informações que vamos colhendo do nosso meio, através de nossa cognição, que passa necessariamente pelo processo de recebimento dos estímulos, internos e externos, pelos órgãos dos sentidos como também pelo sentido e significado dado por nós a estes mesmos estímulos, conforme mencionado nos estudos de Bahia bock, Furtado e Teixeira. (1999 p.136)

Esta percepção também passa pela comunicação ativa ou passiva do sujeito com seu meio social. E esta comunicação pode ser verbal (através de palavras escritas ou faladas) como também corporal (expressões e gestos do corpo) e até por variados e muitos códigos visuais. 

Entendemos, através do estudo da psicologia social, que a interação do sujeito com seu meio, seja físico e/ou social, é fruto da relação percepção, organização das informações, mais afeto, positivo ou negativo, com este mesmo meio, resultando em atitude que leva ater um determinado comportamento (ação).

Vale salientar aqui, o significado que a psicologia social dá para o termo “atitude”, conforme bem nos explica Bahia bock, Furtado e Teixeira dizendo que “Portanto, para a Psicologia social, diferentemente do senso comum, nós não tomamos atitudes (comportamento, ação), nós desenvolvemos atitudes (crenças, valores, opiniões) em relação aos objetos do meio social”. (1999 p.137)

Ou seja, primeiro o individuo desenvolve uma atitude, que são suas crenças, valores, opiniões, preferências e predisposições, sejam favoráveis ou desfavoráveis, em relação a determinados tipos de objetos, pessoas e situações, para depois, consequentemente, tomar um comportamento (ação). 

Quer dizer então, que para a psicologia social, as nossas atitudes antecedem e provocam nosso comportamento, nos movendo e determinando nossa ação no meio social. Só que o mais interessante é que estas mesmas atitudes são modeladas através do meio social, a qual, este mesmo sujeito pertence e está diretamente inserido, pois o grupo é o lugar de referencia e preferência deste sujeito que passa a ter o mesmo como base e parâmetro de como se deve comportar, falar, ouvir, perceber, entender, identificar, aprovar ou reprovar e até se relacionar com o outro.

Podemos então nos perguntar “se conhecermos as atitudes de uma determinada pessoa, será possível então prevermos antecipadamente o comportamento dela?”. 

Os autores Bahia bock, Furtado e Teixeira respondem esta pergunta afirmando que “(...) não é com tanta facilidade que conseguimos prever o comportamento de alguém a partir do conhecimento de sua atitude, pois nosso comportamento é resultante também da situação dada e de várias atitudes mobilizadas em determinada situação” (1999 p.137)

Ou seja, não é porque “sicrano” tem uma atitude negativa (não gosta, não se identifica e até reprova) em relação ao “fulano” é que o seu comportamento será de ignorar, (não conversando) ou até brigar com esta mesma pessoa, porque em um determinado contexto e situação (exemplo: no serviço, escola ou família) ela pode vir “precisar” a se relacionar, suportando o outro.

Importante também destacar que nossas atitudes podem ser mudadas diante do aparecimento de novas informações, afetos, comportamentos e situações vivenciadas, como nos mostra novamente Bahia bock, Furtado e Teixeira ao dizer que “Existe uma forte tendência a manter os componentes das atitudes em consonância. Informações positivas (...) levarão a afeto positivo. Informação positiva e afeto positivo levam a um comportamento favorável na direção do objeto” (1999 p.138)

Isto quer dizer que se o “sicrano” tem uma atitude negativa em relação ao “fulano”, o “sicrano” pode ter a sua atitude que antes era negativa, mudada para positiva, mediante o contato (situação nova vivida) com o “fulano”, passando a admirar (afeto novo) qualidades antes não percebidas (informações novas), numa dada circunstancia de ter que trabalhar junto, numa mesma empresa, se comunicando com ele. (necessidade)

Nesta percepção do outro, os papeis sociais (papeis pré-estabelecidos e pré-determinados pelo meio social cultural) são importantes para nossa compreensão desta mesma percepção, porque são eles (papeis sociais) que vão dirigir nosso modo de ver o outro e nos ver também.

“Qual comportamento esperar do professor em uma sala de aula?” Que ensine, transmitindo os conteúdos de uma dada matéria, para seus alunos de uma maneira didática, ou seja, assim como os professores tem um papel social já pré-estabelecido, existem vários tipos de papeis sociais que são apreendidos pelo sujeito, que passa não somente a perceber e saber o que esperar do outro em seu papel, como também ele mesmo tem seus próprios papeis os quais devem ser incorporados e vivenciados em seu dia a dia, e, como os autores Bahia Bock, Furtado e Teixeira, brilhantemente, sintetizam o estudo levantados por eles afirmando que “Aprender os nossos papéis sociais é, na realidade, aprender o conjunto de rituais que nossa sociedade criou”. (1999 p.140)


Texto extraído de uma parte do trabalho cientifico e acadêmico que fiz, para faculdade, sobre o tema: “A Psicologia Social – percepção social”.

terça-feira, 24 de abril de 2012

“Questões acerca da morte” (parte 3)



Por Edson Moura

Na Idade Média, nossos antepassados, com suas limitações de conhecimento e ainda com suas superstições, esta por sua vez, empapada do Cristianismo cada vez mais fortalecido, começaram a se preocupar, não mais  com o destino coletivo das pessoas de sua religião, e sim com o destino de cada indivíduo em particular. Foi então que se estruturou a crença de “julgamento após a morte”, podendo o morto sofrer punições pelos pecados cometidos durante toda a vida.

Segundo a crença anterior, Jesus voltaria, conduziria os que creram até o Paraíso. Modificado então, para um “Dia do Juízo Final”, onde seriam separados os nos dos maus, cabendo aos maus a “Punição Eterna”. “Então dirá aos que estiverem à sua direita:  ‘vinde benditos d meu pai, receberdes por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo...’ Em seguida, dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos...’ E estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna”.

É neste contexto que o conceito de purgatório se desenvolve dentro do catolicismo. Até então esta ideia não era estruturada como dogma, mas apenas como um elemento  procedente da crendice popular, muitas vezes associada à ideia de limbo (local onde as almas das crianças mortas sem batismo deveriam permanecer até a vinda definitiva de Cristo. O termo latino purgatorium (lugar de purificação) parece ter sido usado pela primeira vez no fim do século XIII, por Pierre Le Mangeur, em Paris.

No Concilio de Lyon, em 1274, o purgatório recebia uma primeira promulgação como dogma da Igreja católica, sendo definitivamente proclamado em 1439, no Concílio de Florença, que congregou Católicos romanos e ortodoxos Gregos.

Com o advento do purgatório, a ritualização da morte é modificada, no sentido de buscar o perdão para pecados cometidos em vida, procurando garantir um bom destino á alma que estivesse deixando o seu corpo mundano. Surge a possibilidade de interferir no “destino” do falecido, por meios das súplicas e indulgências dirigidas a Deus e aos santos, visando diminuir o tempo de expiação pelos pecados e facilitar a entrada do “morto” no Céu.

A morte vai tendo seus aspectos repulsivos mais explicados e valorizados. O corpo morto, frio e fedorento, passa a ser escondido. A imagem da morte vai se transformando, deixa de se “bela” e pública para ser feia e escondida, ou melhor dizendo, proibida. Os rituais que outrora acompanhavam a morte e o morrer, são agora esvaziados de sentido em uma maneira de evita o sofrimento pela própria morte. A morte antes aceita com naturalidade, ocorrendo em meio à tranquilidade dos familiares, passa a ser temida. A morte natural passa a ser a mote por velhice, enquanto todas as outras maneiras de morrer sinalizam a possibilidade de um castigo divino.

Feliz ou infelizmente, com o crescimento do pensamento filosófico e científico dos séculos XV e XVI, testemunhamos nova elaboração da vivência da morte. Com o advento do Iluminismo, a morte passa a ser dissociada de seus aspectos religiosos e sagrados, adotando a racionalidade como elemento norteador. A morte passa a ser vista principalmente como um evento biológico, sobre o qual deve-se buscar um maior controle por meio da Ciência e da Razão. Com isso, a estruturação de hospitais, o desenvolvimento da medicina e a busca pelo prolongamento da vida ganham mais atenção.

A relação entre morte e hospital foi se estreitando ao longo dos séculos. Os hospitais tiveram sua finalidade alterada de acordo com cada época e lugar. Antes do advento da medicina científica e tecnológica, o morrer em hospitais era destinado às pessoas pobres ou indigentes, que não possuíam condições financeiras de serem tratadas em suas próprias residências, portanto se dirigiam aos hospitais em busca de recuperação de sua saúde, ou mesmo para morrerem.

Antes do século XVIII o hospital era uma instituição de assistência aos pobres, que visava unicamente sua separação e exclusão. Na visão geral, o principal personagem do hospital não era o doente que poderia ser curado, mas sim, o pobre que estava morrendo e deveria ser assistido material e espiritualmente. O hospital seria portanto, um “morredouro”, um lugar para se morrer. O paradigma vigente nessa época era o paradigma do “cuidar”.

Cuidava-se dos doentes, mas sem a pretensão de reintegrá-los à sociedade, e enquanto estivessem vivos no aguardo da morte. O ato de cuidar estava inteiramente ligado à religiosidade, tendo o sagrado uma função asseguradora: “Cuidava-se do corpo e da alma, de maneira a facilitar à alma a sua entrada nos céus.

Com o tempo, a vivência da morte passou a ser restrita aos hospitais, transformados em locais de cura e recuperação de doentes, distanciando-os do convívio familiar durante sua recuperação ou mesmo no processo de morrer. Atualmente, século XXI, os cuidados médicos e hospitalares se pautam no paradigma de “curar”. Não basta cuidar do doente. É preciso curá-lo a todo custo e combater a morte. O paradigma do curar facilmente torna-se prisioneiro do domínio tecnológico da Medicina moderna. “Se algo pode ser feito, logo deve ser feito, essa é a missão”. Também idolatra a vida física a alimenta a tendência de usar o poder da Medicina para prolongar a vida, mesmo em condições inaceitáveis.

Esta idolatria da vida ganha forma na convicção de que, a inabilidade para curar ou evitar a morte, constitui-se uma falha na Medicina moderna. A falácia dessa lógica é pensar que a responsabilidade de curar termina quando os tratamentos estão esgotados.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Alucinações: Ontem, Hoje e Sempre



Iniciando um novo estudo sobre a evolução das crenças e das religiões, gostaria de compartilhar alguns relatos colhido em muitas regiões do mundo, sobretudo Europa. Nossas crenças em nada são absolutamente nossas e muitas vezes nem mesmo sabemos de sua origem. Acreditamos em tantas bobagens, em tantas mentiras sem fonte de verificação, ou mesmo sem vontade de nos aprofundarmos no assunto, que, em minha opinião, o que não acabou ainda, é preciso que acabe o quanto antes, para que o homem possa, de uma vez por todas, libertar-se das garras do “demônio” que habita em sua psique.

Os deuses nos guardam e guiam nossos destinos, é o que ensinam muitas culturas humanas. Existem também outras entidades, mais malévolas, responsáveis pela existência do mal. As duas classes de seres, tanto se a consideramos naturais ou sobrenaturais, reais ou imaginários, servem às necessidades humanas. Até no caso de serem “totalmente imaginários”, muitos se sentem melhor acreditando neles. Assim, em uma época em que as religiões tradicionais se viram submetidas ao fogo iluminador da ciência, não seria estranho vestir uma nova roupagem nos deuses e demônios de antigamente extraterrestres hoje.

A crença nos demônios estava muito estendida no mundo antigo. Os consideravam seres mais naturais que sobrenaturais. Hesíodo os menciona casualmente. Sócrates descrevia sua inspiração filosófica como a obra de um demônio pessoal e benigno. Sua professora, Diotima da Mantineia, disse-lhe que “tudo o que é gênio (demônio) está entre o divino e o mortal... A divindade não fica em contato com o homem, mas sim é através deste gênero de seres por onde tem lugar todo comércio e todo diálogo entre os deuses e os homens, tanto durante a vigília como durante o sonho”.

Platão, o estudante mais célebre do Sócrates, atribuía um grande papel aos demônios: “Nenhuma natureza humana investida com o poder supremo é capaz de ordenar os assuntos humanos, e não transbordar de insolência e engano”.

Não nomeamos aos bois senhores dos bois, nem às cabras das cabras, mas sim nós mesmos somos uma raça superior e governamos sobre eles. Do mesmo modo Deus, em seu amor pela humanidade, pôs acima de nós os demônios, que são uma raça superior, e eles, com grande facilidade e prazer (para eles), nos dão paz, reverência,  ordem e justiça que nunca fraqueja, ou seja, fizeram os homens felizes e uniram as tribos..

Platão negava decididamente que os demônios fossem uma fonte de mau, e representava Eros (o guardião das paixões sexuais) como um gênio ou demônio, não um deus, “nem mortal nem imortal”, “nem bom nem mau”. Mas todos os platonistas posteriores, incluindo os neoplatonistas que influíram poderosamente na filosofia cristã, sustentavam que havia alguns demônios bons e outros maus. O pêndulo ia de um lado a outro. Aristóteles, o famoso discípulo do Platão, considerou seriamente a ideia de que os sonhos estivessem escritos por demônios. Plutarco e Porfírio propunham que os demônios, vinham da Lua.

Os primeiros Pais da Igreja, apesar de serem em sua maioria  neoplatonistas, desejavam separar-se dos sistemas de crença “pagã”. Ensinavam que toda a religião pagã consistia na adoração de demônios e homens, ambos interpretados mal como deuses. Quando o apóstolo Paulo se queixava  da maldade nas alturas, não se referia à corrupção do governo a não ser aos demônios, que viviam ali:

“Porque nossa luta não é contra a carne e o sangue, a não ser contra os Principados, contra as Potestades, contra os Dominadores deste mundo tenebroso, contra os Espíritos do Mal que estão nas alturas”. (Efésios 6, 14)

Desde o começo se pretendeu que os demônios eram muito mais que uma mera metáfora poética do mal no coração dos homens. Os demônios sempre afligiram Santo Agostinho. O pensamento pagão prevalecente em sua época era o seguinte: “Os deuses ocupam as regiões mais altas, os homens as mais baixas, os demônios a do meio... Eles possuem a imortalidade do corpo, mas têm paixões da mente em comum com os homens.” No livro VIII da cidade de Deus (começado em 413), Agostinho assimila esta antiga tradição, substitui aos deuses por Deus e “demoniza” os demônios, declarando que são malignos sem exceção. Não têm virtudes que os redimam. São o manancial de todo o mal espiritual e material. Chama-os “animais etéreos... ansiosos de infligir o mal, completamente alheios à retidão, cheios de orgulho, pálidos de inveja, sutis no engano”.

Podem afirmar que levam mensagens entre Deus e o homem disfarçando-se como anjos do Senhor, mas sua atitude é uma armadilha para nos levar a nossa destruição. Podem assumir qualquer forma e sabem muitas coisas (”demônio” significa “conhecimento” em grego, embora em Latim, “Ciência” signifique “conhecimento), especialmente sobre o mundo material. Por inteligentes que sejam, sua caridade é deficiente. Atacam “as mentes cativas e burladas dos homens”, escreveu Tertuliano. “Moram no ar, têm às estrelas por vizinhas e comercializam com as nuvens.”

Apesar da evolução intelectual, social, política e filosófica, grande parte do caráter e inclusive o nome dos demônios se manteve inalterável desde o Hesíodo até as Cruzadas. Os demônios, os “poderes do ar”, descem dos céus e mantêm relação sexual ilícita com as mulheres. Agostinho acreditava que as bruxas eram fruto dessas uniões proibidas. Na Idade Média, como na antiguidade clássica, quase todo mundo acreditava nessas histórias. chamava-se também aos demônios diabos ou anjos caídos. Os demoníacos sedutores das mulheres recebiam o nome de íncubos; os dos homens, súcubos. 

Há alguns casos em que as freiras, com certa resistência, declaravam uma semelhança assombrosa entre o íncubo e o padre confessor, ou o bispo, e ao despertar na manhã seguinte, “encontravam-se sujas como se tivessem dormido com um homem”. Há relatos similares, mas não em conventos, e sim em haréns na antiga China.

Continua...

domingo, 6 de novembro de 2011

A cibernética Lacaniana


Por Noreda Somu Tossan

Existe um texto de Lacan com o nome de “Psicanálise e Cibernética”, ou “Acerca da Origem das Linguagens”, com data de Junho de 1955, que ainda é pouco estudado pelos historiadores de Psicanálise. Nele Lacan propõe uma interessante aproximação entre a sua teoria do Inconsciente e a Cibernética, uma disciplina então nascente e que décadas mais tarde iria se tornar a nossa já conhecida “Inteligência Artificial”. Curiosamente, nem mesmo os mais competentes biógrafos de Lacan, como, por exemplo, Elizabeth Roudinesco, sequer mencionam essa conferência.

Por qual motivo omitiram esse pensamento lacaniano acerca da Cibernética? Talvez essa seja uma atitude intencional de alguns psicanalistas que vêem na Inteligência Artificial e na Ciência Cognitiva algo necessariamente oposto à Psicanálise. A ciência Cognitiva é demonizada, de forma caricatural, como uma espécie de teoria diabólica que visa, em última análise, transformar os seres humanos em máquinas. Essa tendência aparece na obra de Roudinesco, especialmente no livro “Por que a Psicanálise?”, que tem passagens ácidas no que se refere à Ciência Cognitiva.

Mas outra hipótese que o texto dessa conferência revela-se extremamente complexo para aqueles que não têm formação em Ciência da Computação. Nele, por exemplo, aparecem desenhos em tabelas que parecem, à primeira vista, estranhos. Eles são, na verdade representações de portas lógicas de um computador.

As portas lógicas são uma espécie de representação elétrica do pensamento humano. Se assumimos que quase todo pensamento é constituído de proposições e que elas são, invariavelmente, ou verdadeiras ou falsas, podemos construir um circuito elétrico que as represente. A idéia é que “verdadeiro” ou “falso” podem corresponder, reciprocamente, a 0 e 1, e estes, por sua vez, a um circuito fechado (no qual passa corrente) ou um circuito aberto (no qual não passa corrente). É da idéia cotidiana de que nosso raciocínio são proposições verdadeiras ou falsas que são constantemente combinadas na forma de um cálculo que surge a semelhança entre circuitos elétricos e mentes ou, em última análise, entre mentes e computadores.

Mas por que Lacan estaria preocupado com isso? A Razão parece estar no fato de que há outro conceito fundamental que norteia a Ciência da Computação e a programação de computadores: a “recursão”.

A recursão é um tipo de processo no qual um de seus passos envolve sua repetição completa. Uma forma humorística de definir a recursão é dizer que “as bolachas vendem mais porque são fresquinhas e são fresquinhas porque vendem mais”. O que se percebe nesta frase é um procedimento de repetição, no qual, se não houver uma instrução especifica para parar, continuará assim por um tempo indeterminado. Ou seja, a recursão é o procedimento em círculo, sem que se coloque um fim para ele.

Procedimentos recursivos são a base da construção de algoritmos (programas). Mas isso ocorre não somente com as linguagens artificiais utilizadas pelos computadores. Nossa linguagem natural também é recursiva. Na década de 1950, Noam Chomsky propôs essa hipótese. Quando escrevemos uma sentença, podemos sempre acrescentar uma outra a ela, e assim por diante, num processo infinito. “Há um garoto sentado na ponte” pode se transformar em “Há um garoto que matou seus pais sentado na ponte” e “Há um garoto que matou seus pais sentado na ponte criando coragem para pular” e assim por diante. A linguagem remete à própria linguagem e este é um procedimento circular repetitivo.

Ora, Lacan acompanhava os progressos da Cibernética nos anos 50 e, possivelmente, conhecia os trabalhos de seus pioneiros, entre eles o de Norbert Wiener, que estava profundamente envolvido com a programação de computadores. Da mesma maneira, os trabalhos de Chomsky acerca da recursão em linguagens naturais também deviam ser conhecidos por Lacan.

Se a linguagem é recursiva, nos diz Lacan, o inconsciente também o será, já que está estruturado na forma de uma linguagem. É daí que vem o caráter repetitivo do inconsciente, o fenômeno da repetição inexorável, identificado por Freud na sua obra de maturidade. A repetição em um processo neurótico é praticamente interminável, a não ser que em algum momento haja uma instrução para interrompê-lo, como pode ocorrer na psicoterapia. A neurose é um procedimento recursivo e, para explicar sua natureza, teríamos de buscar um modelo cibernético para ela. O neurótico é uma máquina “em looping” e é isso que o aproxima da pulsão da morte. Essa é, em síntese, a mensagem da conferência de Lacan transcrita no seminário II.

Talvez devamos, então, reconsiderar a posição da Psicanálise diante da Inteligência Artificial e da Ciência Cognitiva. Talvez Roudinesco esteja excessivamente à margem esquerda do rio Sena para poder vislumbrar o interesse de Lacan por essas disciplinas, que na década de 1950 , já eram pesquisas científica de ponta. Mas para reconhecer isso será preciso abandonar preconceitos que permeiam a historiografia da Psicanálise. Provavelmente são eles que não permitem que os historiadores da Psicanálise consigam vislumbrar a verdadeira dimensão dessa conferência de Lacan e prefiram não mencioná-la.

Fonte: Revista Filosofia edição 64 pág 37 (João de Fernandes Teixeira, Ph.D pela University of Essex Inglaterra/Professor titular na Universidade Federal de São Carlos site www.filosofiadamente.org)







segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A primeira mentira sempre nos deixa a um passo da segunda

Por Edson Moura

Ser alguém, alguém importante, é o desejo de todo homem. Uma tarefa deveras difícil devo dizer, pois o mundo em que vivemos é tão competitivo que precisamos muitas vezes apelar para nossas imaginações, criando assim, uma personalidade que possivelmente nos baterá na face cedo ou tarde. É como um pai, desejando chamar a atenção de seu filho, inventa estórias para atraí-lo. Atitudes assim parecem ser tão inocentes, tão isentas de maldade, que não nos damos conta quando o abismo chamado mentira precipita a confiança que tínhamos de nossos filhos.

Transparência é a mais bela cor que nossos filhos devem ver em nossas performances. Me apavora pensar que meus filhos, por minha culpa, mintam para seus amigos dizendo que o pai dele é um dos maiores sommelieres de São Paulo, que atende celebridades em seu restaurante, e que as pessoas fazem fila para serem atendidas por ele. O choque para uma criança, que vê a verdade emergir em plena sala de aula, quando seus amiguinhos o desmascaram é massacrante.

A frustração se apossará de sua pequena alma. A decepção com a figura paterna demorará anos para passar, e talvez nunca passe. Imagino os filhos de muitos políticos que aparecem na mídia, com suas fotos estampadas na primeira página de jornais, escândalos de corrupção, crimes contra a sociedade, sociedade esta da qual fazem parte os pais dos colegas de escola. Quem poderá calcular o tamanho da vergonha que sentirão? Qual psicólogo vai conseguir devolver a esta criança a confiança em seu pai? Contará ele também mentiras? Possivelmente.

Um jogos de espelhos sem igual, isso é o que é. Às vezes somos enganados também, é sem querer passamos adiante algo que não é verdade. E como uma bola de neve que não para de crescer à medida em que desce a montanha, a estória viaja pelo mundo, pelo nosso pequeno mundinho. Já disseram que uma mentira dá a volta ao mundo mesmo antes de a verdade vestir os sapatos, e isto é uma verdade. Invariavelmente um dia a verdade aparecerá, e se isso não acontecer é porque o seu criador viveu intensamente tentando proteger daqui e dali seu conto. Uma vida de preocupação, um eterno caminhar em ovos, esquivando-se constantemente de situações que possam comprometê-lo.

Uma luta sem contra a famosíssima “Lei de Murph” . Este adágio popular da cultura ocidental que afirma que se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará, ou, se há mais de uma maneira de se executar uma tarefa ou trabalho, e se uma dessas maneiras resultar em catástrofe ou em conseqüências indesejáveis, certamente essa será a maneira escolhida por alguém para executá-la. Ela é comumente citada (ou abreviada) por "Se algo pode dar errado, dará" ou ainda "Se algo pode dar errado, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo a causar o maior estrago possível". Assim, inutilmente, tentamos burlar os acontecimentos.

Portanto, o melhor a fazer é evitar os exageros. Não colocar glamour demais em “causos” que contamos, para que não caiamos na ingênua crença de que crimes perfeitos existam. Falem a verdade para seus filhos e amigos, mesmo que a verdade às vezes o coloque bem lá embaixo, e a admiração por você não seja a principal característica de seus companheiros. Fazendo isso, é bem possível que seja admirado um dia, principalmente quando seus filhos crescerem e entenderem que seu pai nunca foi bonito, rico, e importante, mas foi honesto consigo mesmo, sendo esta a única obrigação de um ser humano.

Um ótimo exemplo disso que vos escrevo está bem explicitado no filme “O resgate de um campeão”, estrelado por Josh hartnett e Samuel L. Jackson, baseado numa história real. Quem puder assistir, eu recomendo, é lindo o filme.

Edson Moura





segunda-feira, 13 de junho de 2011

“Quem somos Eu?”


Todas as mentes humanas já nascem com uma incrível capacidade de dominar a “magia” e o encanto das palavras e também com a capacidade de autoenganar-se, re-significando os traços da psique humana. Muitas vezes, tentando esconder a verdade de nós mesmos, buscamos encontrar a verdade sobre nós mesmos, e acabamos por precisarmos desenvolver uma mente multifacetária, e por que não dizer... “inconsciente”.

Se formos tomar como base as teorias de Jung e Freud para fazermos referências a cada anseio, ideal, método, desejo, pulsão, fraude, impulso, conflito, arquétipo e medo, cairemos sempre no inconsciente. Quando não conseguimos dar conta do que é real, usando a razão, ou seja, o que está no nível consciente, revelamos uma personalidade múltipla e dispersa em uma total falta de significado, um vazio que clama por ser preenchido, mesmo que seja por algo não palpável, irreal, insubstancioso, não importa, qualquer coisa é melhor do que se sentir como um barco à deriva em um oceano de incertezas.

Atualmente, a hipocrisia, maldade, mentira, perversidade e a violência permeiam a sociedade, vemos aqui e ali embates e debates de “especialistas” que tentam desvendar este fenômeno sócio-cultural que é muitas vezes feito em salas confortáveis e climatizadas, sentados em suas cadeiras de couro de respaudar. Os temas são os mais variados:

“Como resolver o problema da agressividade?”

“Como controlar os altos índices de criminalidade?”

“Como podemos extirpar de vez a crueldade de nosso meio?”

Não acredito que seja possível! O homem é vítima de seu próprio desenvolvimento e as circunstâncias o obrigaram a ser agressivo, talvez no intuito de se aniquilar ou se autodestruir. Como conseqüência, ele agride, dilacera e mutila o outro, que acreditem, causa uma multiplicidade de prazeres que o levam a cometer mais e mais agressões.

Numa era tão competitiva como esta em que nos encontramos, é muito comum vermos homens e mulheres se digladiando por uma vaga de emprego, um romance, um lugar ao sol. Ele busca ser notado, almeja ser o centro das atenções, e para isso, ela segue à risca a sugestão de Maquiavel, “os fins justificam os meios”. Não precisamos sair de casa para ver que esta é uma verdade, basta observar como tratamos às vezes nossos filhos. “Porque você não faz como seu irmão que é super aplicado na escola? Ela vai ganhar uma bicicleta nova e você não, portanto, supere ele.”

Só o tempo nos mostrará se o homem superará esta fase, e se o fizer, como será o homem do futuro. Mas uma coisa é certa: Ninguém é de fato o que quer ser. Como disse lá encima, criamos outras personalidades que vez ou outra consegue suplantar o verdadeiro eu. O homem deveria parar de se perguntar “quem somos?” e preocupar-se mais com o “o que eu quero ser agora?”, procurar uma personalidade em sua “caixa de máscaras” e usá-la até que ele mesmo acredite que aquela faceta é sua verdadeira personalidade.

Ouso dizer que a personalidade do homem é marcada pela multiplicidade de personalidades que ele consegue desenvolver ao longo de sua vida. Qualquer um pode ser o que quiser. É só encontrar algo que se encaixe no meio em que está “convivendo”. Acredito que, desde que a pessoa tenha consciência de que ela “está alguém” e não “é alguém”, ela poderá trafegar por qualquer caminho que desejar, e quem sabe terá uma boa estadia no meio dos viventes, sem agredir ao próximo com suas excentricidades, suas maldades ocultas, seus desejos pervertidos, ou seja, ser “perfeitamente normal”, tendo consciência também de que “em terra de loucos, o único normal será considerado o doente da cidade”.

Edson Moura

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

“Estar ou não Estar...eis a questão”

Por Edson Moura

Todos estão acostumados com a célebre frase: “Ser ou não Ser, eis a questão” recitada por Hamlet em sua tragédia. William Shakespeare, sem dúvida alguma, acabou por imortalizar uma das mais conhecidas falas da literatura mundial. Mas hoje, em pleno século XXI, poucos de nós sequer imaginam que não “somos” e sim “estamos” algo.

Sem querer massacrar a gramática, o que deveríamos perguntar às pessoas que se apresentam a nós, não é: “Quem é você?”. E sim: “Quem está você?” Explico:

A expressão “ser alguém” carrega consigo uma idéia de permanência que, na língua portuguesa, pode ser corrigida para “estar alguém” como uma perspectiva temporal, bem mais aceitável quando analisamos o comportamento do indivíduo.

As experiências que passamos no nosso cotidiano nos desafiam a nos reorganizarmos constantemente, seja reafirmando nossos valores, ou modificando-os completamente. A cada nova situação experimentada, somos colocados diante de desafios que nos transformam, trazendo à tona novas capacidades, medos, potencialidades e dificuldades que até então eram desconhecidas por nós.

Quando nos deparamos com algo novo, uma situação de pressão qualquer, o “ser” que éramos instantes atrás, pode suscitar atitudes completamente novas, tornando-nos um outro “eu”. É claro que esta atitude não representará uma ruptura total com o “ser” que éramos no passado, mas, modificará, muito ou pouco, o que passamos a ser daí para a frente.

Muitos imaginam que eventos traumáticos são os que mais colaboram para que uma pessoa mude de comportamento, mas não é bem assim, pelo contrário, os eventos cotidianos podem se mostrar muito mais reveladores do que os grandes acontecimentos. As mudanças traumáticas e repentinas com certeza podem ser percebidas com mais clareza dos que as alterações cotidianas, mas o fato de algo acontecer em escala reduzida, quase imperceptível, não o torna menos importante na complexa montagem de um ser humano.

Se hoje eu olhei com desejo uma garota que não passou dos 12 anos ainda, ou se eu não socorri uma pessoa acidentada, por estar mais preocupado com o meu horário de assistir ao Jornal Nacional, essa atitude, talvez inesperada por mim mesmo, esteja revelando que minha ética é diferente do que eu pensava até instantes atrás.

Essas transformações inerentes ao ser humano ficam mais fáceis de serem percebidas quando aumentamos o espaço de tempo. Ao compararmos nosso “eu” de agora, com o “eu” de 15 minutos atrás não nos é revelado uma grande mudança, embora já tenhamos mudado. Mas, quando comparamos o “eu” de hoje, com o “eu” de 15 anos atrás, as transformações tornam-se mais evidentes. Quais eram minhas crenças?... Minha perspectiva de vida?... Quais roupas eu considerava bonitas?...Com quais amigos que eu preferia conversar e etc...

Se nos encontrássemos com nós mesmos há 20 anos, sentiríamos orgulho, ou vergonha? Resumindo:

Hoje você é uma pessoa completamente diferente da pessoa que era há 20 anos, mas, ao mesmo tempo, carrega traços da pessoa que era no passado. Portanto, posso reescrever esta última frase. Ela ficaria assim:

Hoje você “está” uma pessoa completamente diferente da que “estava” há 20 anos, mas, ao mesmo tempo, carrega traços da pessoa que “estava” no passado. E lembre-se: “O mesmo homem jamais poderá banhar-se no mesmo mar”.

Edson Moura

quarta-feira, 30 de junho de 2010

“Vamos descansar”

Por Noreda Somu Tossan

Há um bom tempo eu venho aplicando muito esforço em um ideal, que é absorver ao máximo tudo quanto puder em matéria de conhecimento. Percebi, já há bastante tempo, que nessa minha busca desenfreada por sabedoria, eu estava perdendo muitas noites de sono e não conseguia atingir meu objetivo. Foi quando vi um comentários de um amigo...já no finalzinho da noite, dizendo que precisava dormir, pois dormir faz bem à saúde. Procurei então, refletir sobre o assunto e acabei por escrever esta postagem.

Dormir é fundamental para manter a capacidade mnêmica em dia. É durante o sono que as memórias são cultivadas: enquanto algumas vingam, outras se perdem. A construção da memória depende muito desse período em que o cérebro tece a trama da subjetividade e nos dá respostas aos problemas que nos afligem durante o dia.

Ao contrário do que eu pensava e do que a maioria pensa, o cérebro não descansa durante o sono...mas encontra-se em total atividade. É nessas horas que as informações coletadas durante o dia são processadas...selecionadas...gravadas e finalmente transformadas em memória permanente.

Dentre as várias funções do sono, o processamento da memória parece ser a única que exige do organismo estar realmente adormecido. Economizar horas de sono prejudica a cognição. Alguns aspectos da consolidação da memória só são acionados quando dormimos mais de seis horas ininterruptas. Quando se passa uma noite em claro, as memórias daquele dia ficam, por assim dizer, comprometidas.

Mas o que isso tem à ver com o “Religião”, e com aquilo que aqui é falado? Tudo ora! Afinal de contas, nós desta sala, lutamos para que as pessoas tenham uma vida mais despreocupada...aproveitando os momentos ao máximo...brincando com os filhos...e por que não dizer: Dormindo!

Chega de vigílias em busca de Deus! Chega de noites de sono, subindo montes para buscar poder do céu! Devemos relaxar e aproveitar o pouco que nos resta das vinte e quatro horas do dia, para repousar o esqueleto, e se tivermos que subir o monte...que seja o “monte de cobertores”.

Texto inspirado em comentário de Eduardo Medeiros no Blog:


”Boa noite a todos porque dormir cedo faz bem à saúde, é ou não é doutor Levi?

LEVI: Japão e Portugal já foram. Sexta vai a Holanda????????

Escrito por Noreda Somu Tossan