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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Que bosta que sou (Cinismo)



Por Edson Moura

Quem sou eu com minhas ideologias falhas? Quem sou, que defendo causas perdidas? Quem sou eu que me acho um cidadão respeitável, quando na verdade minha consciência faz acusações tão duras que chego ao ponto de sentir vergonha de mim mesmo? Meu deboche, meu sarcasmo, meu ateísmo “militante”, minha não aceitação dos ditames do senso comum. Não aceitação? Merda nenhuma! Vestir apenas camisas brancas e calças pretas não faz de mim um não-alienado. 

Não sou digno de ser um admirador de Diógenes, cidadão Ateniense dos melhores, Filósofo Cínico, desprezava o conforto e as convenções sociais. Ora, não estou nem pronto para morar num barril, nem pronto para abrir mão da minha TV de 42 polegadas, do meu apartamento confortável, da comida saborosa, dos bons vinhos, da roupa limpa e cheirosa. Que bosta sou então? Um hipócrita, sim, isto sou.

Não domino meus desejos, não almejo uma vida virtuosa. Vivo gozando da frivolidade das necessidades criadas pela existência social. Apenas sei tecer críticas agudas e escárnios, demonstrando a profunda carência de sentido daquilo que as pessoas (eu), em geral, consideram importante e até sagrado. Na transgressão literária que às vezes me dou o direito de escrever, proponho a exposição das pútridas feridas morais escondidas sob o manto da (minha) hipocrisia.

De que moral posso falar? O que é a moral seria a pergunta correta, mas todos, mesmo que inconscientemente, sabemos o que é moral. A minha está arranhada, mas por quê? Sei lá, talvez por levar a cabo aquilo que muitos consideram perversão, talvez por desejar a morte de algum desafeto, talvez por fantasiar com uma mulher casada ou uma garota menor de idade. Talvez o que me fira sejam as lágrimas secas que um dia derramei por um traficante morto, quando para meu avô materno, nem sequer respeitei o luto de minha mãe. Todavia, a parte escorregadia de meu cérebro me absolve, dizendo que o marginal um dia salvara minha vida, quanto ao meu avô, esse nada fez por mim, senão fabricar minha mãe.

Julgo possuir uma ética superior, na qual acredito realmente, ética esta que gostaria de praticar com sinceridade, pois ela é muito diferente da pseudo-moral social que apenas se preocupa em obter vantagem de todas as maneiras possíveis, dando significado à frase de Maquiavel, “os fins justificam os meios”. Quem hoje está disposto a fazer um exame de consciência, quem se propõe a fazer uma reflexão profunda. Com algum empenho e acima de tudo, com muita sinceridade encontraremos personagens muito próximos de nós em pessoas com as quais convivemos diariamente. Encontraremos traços de vários personagens em nós mesmos, principalmente aqueles que julgamos serem maus, nocivos à sociedade, pervertidos, intolerantes, mesquinhos, beligerantes e falsos, muito falsos.

A falha na moral (na minha moral) é tranquilizada quando vejo não ser esta uma exclusividade do pobre, ou do inculto, ou do ateu. Pelo contrário, acredito que seja esta a característica que nivele todos os homens, e os ponham num mesmo patamar de valor. Essa degeneração nivela ricos e pobres, nobres e plebeus, analfabetos e letrados, críticos e alienados. De fato é um vírus mortal que faz da auto crítica uma necessidade vital e permanente de todos, inclusive aos que se dedicam, como eu, à Filosofia.

Aqui estou eu novamente, sentindo-me um lixo, pois a verdade é que não há remédio que alivie a dor da ferida deixada pelas verdades que encontramos escamoteadas dentro de nós mesmos. O que posso fazer é escrever textos porcarias que possam também bater no rosto dos que se dispõe a lê-los. Porque a verdade é que para escrever textos que nos deixem felizes não precisamos de muito esforço, aliás, nem precisamos mais deste tipo de escritos, já temos demais, sobretudo a Bíblia. Devo escrever coisa que nos aflijam, que nos firam, que nos deixem pensativos. 

Se o texto que escrevo não despertar o leitor com um soco no plexo solar, porque acharia que deveriam perder tempo lendo? Preciso escrever textos que nos atinjam com a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente, que revele a fraqueza dentro de cada um, como se falasse da morte de alguém que amamos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para o mais longínquo deserto, longe de qualquer presença humana. Como um suicídio. Um texto que fira o gelo abaixo de nossos pés com um machado, nos fazendo cair no mar congelado de nosso interior.

Gostaria de me achar digno de ser Diógenes. Notem que não disse que gostaria de sê-lo e sim, de me achar digno de poder ser, pois minha consciência me condena. Não sei se um dia poderei trocar os lençóis limpos por trapos imundos, a televisão pela janela, o frango pelo pão seco, a casa por um barril. Não sei se um dia poderei ser um cão assim como ele, para então poder ser admirado por não ser nada mais que um pensador rebelde, e dizer para os muitos Alexandres que existem por aí: “Saiam do meu Sol”.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

“Questões acerca da morte”


Por:Noreda Somu Tossan

A filosofia, ao contrário do que muitos imaginam, não deve ser complicada, ao invés disso, ela deve ser o mais objetiva possível, sem palavras difíceis, que muita das vezes estão ali presentes nos artigos filosóficos apenas para dar um ar de intelectualidade ao autor. Costumo escrever muito sobre morte, o que me rendeu um rótulo de pessimista, ou mórbido, desiludido ou decepcionado da vida, ou seja, uma pessoa propensa ao suicídio. Pois bem, que pensem o que quiserem. Não me importo (muito) com esses detalhes. Enquanto vão me tachando de frustrado eu vou vivendo e sorvendo cada minuto da minha existência como se não fosse haver outros mais.

Muitos dizem (eu inclusive) que a morte faz parte da vida, o que não soa muito correto se for sermos rigorosos com os termos. Ninguém que ainda esteja vivo, (eu, você que está lendo, todos nós) experimentou de fato o que é morrer. A morte é o fim de um processo orgânico, que ao cessar de pulsar como vida, se acaba, se extingue. Portanto, a morte faz parte do “além-vida”, a morte pertence apenas ao mundo dos mortos. O problema é que o mundo dos mortos faz parte do mundo dos vivos, seja no culto aos mortos, nos cemitérios, nos rituais fúnebres das tantas religiões, na poesia, na literatura, na saudade que fica ao perdermos um ente e na “esperança de um dia o encontrarmos novamente na eternidade”. É aqui que entra a Filosofia.

Se a morte não faz parte da vida, pelo menos ela deve fazer parte do pensamento dos que estão vivos. A consciência que nós “sapiens” temos da morte nos persegue e nos obriga a tomarmos uma posição, mesmo que esta seja fugir de sua lembrança inventando mil desculpas e sublimações. Mas já os que possuem fé, ou acreditam na continuação desta vida, concebem em suas cabeças, um paraíso ou um inferno, um nirvana, um renascer, ou seja, morrer de forma alguma é o fim para essas pessoas. Platão e Sócrates acreditavam nisso, portanto, filosofaram sobre a Vida e a Morte. Já Nietzsche e Sartre não acreditavam, mas também filosofaram. E se para Cícero, “Filosofar é aprender a morrer”, poderíamos reescrever esta frase e dizer: “Filosofar é aprender a viver”.

Todos os seres vivos morrem. Esta é uma lei natural e universal a que ninguém escapa, logo, o ser humano, como animal, também morre. É certo que os avanços na Medicina ou na engenharia Genética andam prometendo certa “imortalidade” para em breve. Mas não sabemos quando, nem como e sequer se atingiremos este sonho. Mas só o homem tem consciência de que vai morrer. E por este motivo, já antes de nossa morte, podemos senti-la, pensá-la, vivê-la, o que não deixa de ser um paradoxo. O fato é que, dessa consciência que temos de que vamos morrer, surge uma gama de possibilidades e consequências históricas, culturais, sociais e filosóficas sobre a significação humana da morte. Daí surgiu as grandes religiões, com a promessa de que o homem não morre para sempre, de que ele sobreviverá à morte física. Sejam eles os Cristãos, os Muçulmanos, os Judeus ou os Budistas.

Mas embora tantos prometam uma vida após a morte, a ressurreição, o renascer, o reencarnar-se, o nirvana, ainda persiste o problema de que cada ser humano terá que enfrentar sozinhos a “travessia com o barqueiro para o outro lado”. Mesmo com o consolo das crenças e das religiões, o medo de deixar a vida continua assombrando a humanidade, provocando calafrios, fugas, alienações, neuroses e orações. E ainda que as religiões prometam a salvação eterna, muitos de seus fiéis abarrotam as igrejas com seus corpos mortais adoecidos em busca de um milagre, curas físicas ou espirituais, prosperidade financeira, o retorno de um amor perdido, ou seja, a felicidade aqui e agora, o mais longe possível da famigerada morte. Ninguém que morrer, nem tampouco falar da morte, da sua morte. O medo da morte é um dos maiores incentivos para a atividade humana, atividade esta em boa parte destinada a evitar a chegada da inevitável morte, buscando inutilmente vencê-la, se enganando com a negação de que ela é o destino final do homem.

Se olharmos com atenção para as diversa civilizações e povos da história da humanidade veremos que todos tiveram e têm uma relação ritual e simbólica com a presença da morte. Desde que se criaram as religiões e os deuses, os rituais criados pelo homem nada mais são do que formas de se relacionarem, de “negociarem” com o sagrado, com o sobrenatural, o mistério divino, tendo com anseio galgarem uma vida que supostamente se estenderia para além desta. Assim o homem buscou, busca e continuará buscando por muito tempo ainda a imortalidade e o eterno. Foi assim que as civilizações antigas inventaram suas crenças absurdas, seus rituais grotescos (a começar pela feitiçaria).

Certamente os feiticeiros foram os primeiros a tentar controlar, pela magia, as forças, sejam elas do bem ou do mal, em benefício do próprio homem e suas necessidades de sobrevivência histórica ou para além dela. Depois deles vieram os sacerdotes, os profetas, os enviados por  Deus ou pelos deuses, tentando mostrar assim que, mesmo sem experimentar literalmente a morte era possível um prelúdio de como seria o mundo dos espíritos, de como os heróis mitológicos iam e vinham do reino dos mortos, vitoriosos, carregando a cabeça de seus inimigos, ou amarrando as serpentes infernais em cativeiros no submundo. Assim foram os deuses do Egito Antigo, Ísis, Osíris, Néftis, entre tantos outros. A crença da imortalidade da alma, que certamente inspirou a fé judaica, marcou toda a milenar cultura egípcia, cujas pirâmides que até hoje erguem-se imponentes nas areias do deserto do Saara, nada mais são do que túmulos de seus reis, guardando sarcófagos com suas múmias embalsamadas e cheias de tesouros, esperando a volta de suas almas do mundo dos mortos.

Na Grécia, os cultos a Orfeu e a Dionísio e os mistérios de Átis e de Adônis possuem a mesma essência, a saber, a morte e o renascimento. Por aí podemos avaliar que, enterrando ou cremando seus mortos, a humanidade sempre revelou e continua a revelar essa crença ou, como alguns gostam de chamar, fé, na eternidade da vida para além da morte.

Continua...

domingo, 6 de novembro de 2011

A cibernética Lacaniana


Por Noreda Somu Tossan

Existe um texto de Lacan com o nome de “Psicanálise e Cibernética”, ou “Acerca da Origem das Linguagens”, com data de Junho de 1955, que ainda é pouco estudado pelos historiadores de Psicanálise. Nele Lacan propõe uma interessante aproximação entre a sua teoria do Inconsciente e a Cibernética, uma disciplina então nascente e que décadas mais tarde iria se tornar a nossa já conhecida “Inteligência Artificial”. Curiosamente, nem mesmo os mais competentes biógrafos de Lacan, como, por exemplo, Elizabeth Roudinesco, sequer mencionam essa conferência.

Por qual motivo omitiram esse pensamento lacaniano acerca da Cibernética? Talvez essa seja uma atitude intencional de alguns psicanalistas que vêem na Inteligência Artificial e na Ciência Cognitiva algo necessariamente oposto à Psicanálise. A ciência Cognitiva é demonizada, de forma caricatural, como uma espécie de teoria diabólica que visa, em última análise, transformar os seres humanos em máquinas. Essa tendência aparece na obra de Roudinesco, especialmente no livro “Por que a Psicanálise?”, que tem passagens ácidas no que se refere à Ciência Cognitiva.

Mas outra hipótese que o texto dessa conferência revela-se extremamente complexo para aqueles que não têm formação em Ciência da Computação. Nele, por exemplo, aparecem desenhos em tabelas que parecem, à primeira vista, estranhos. Eles são, na verdade representações de portas lógicas de um computador.

As portas lógicas são uma espécie de representação elétrica do pensamento humano. Se assumimos que quase todo pensamento é constituído de proposições e que elas são, invariavelmente, ou verdadeiras ou falsas, podemos construir um circuito elétrico que as represente. A idéia é que “verdadeiro” ou “falso” podem corresponder, reciprocamente, a 0 e 1, e estes, por sua vez, a um circuito fechado (no qual passa corrente) ou um circuito aberto (no qual não passa corrente). É da idéia cotidiana de que nosso raciocínio são proposições verdadeiras ou falsas que são constantemente combinadas na forma de um cálculo que surge a semelhança entre circuitos elétricos e mentes ou, em última análise, entre mentes e computadores.

Mas por que Lacan estaria preocupado com isso? A Razão parece estar no fato de que há outro conceito fundamental que norteia a Ciência da Computação e a programação de computadores: a “recursão”.

A recursão é um tipo de processo no qual um de seus passos envolve sua repetição completa. Uma forma humorística de definir a recursão é dizer que “as bolachas vendem mais porque são fresquinhas e são fresquinhas porque vendem mais”. O que se percebe nesta frase é um procedimento de repetição, no qual, se não houver uma instrução especifica para parar, continuará assim por um tempo indeterminado. Ou seja, a recursão é o procedimento em círculo, sem que se coloque um fim para ele.

Procedimentos recursivos são a base da construção de algoritmos (programas). Mas isso ocorre não somente com as linguagens artificiais utilizadas pelos computadores. Nossa linguagem natural também é recursiva. Na década de 1950, Noam Chomsky propôs essa hipótese. Quando escrevemos uma sentença, podemos sempre acrescentar uma outra a ela, e assim por diante, num processo infinito. “Há um garoto sentado na ponte” pode se transformar em “Há um garoto que matou seus pais sentado na ponte” e “Há um garoto que matou seus pais sentado na ponte criando coragem para pular” e assim por diante. A linguagem remete à própria linguagem e este é um procedimento circular repetitivo.

Ora, Lacan acompanhava os progressos da Cibernética nos anos 50 e, possivelmente, conhecia os trabalhos de seus pioneiros, entre eles o de Norbert Wiener, que estava profundamente envolvido com a programação de computadores. Da mesma maneira, os trabalhos de Chomsky acerca da recursão em linguagens naturais também deviam ser conhecidos por Lacan.

Se a linguagem é recursiva, nos diz Lacan, o inconsciente também o será, já que está estruturado na forma de uma linguagem. É daí que vem o caráter repetitivo do inconsciente, o fenômeno da repetição inexorável, identificado por Freud na sua obra de maturidade. A repetição em um processo neurótico é praticamente interminável, a não ser que em algum momento haja uma instrução para interrompê-lo, como pode ocorrer na psicoterapia. A neurose é um procedimento recursivo e, para explicar sua natureza, teríamos de buscar um modelo cibernético para ela. O neurótico é uma máquina “em looping” e é isso que o aproxima da pulsão da morte. Essa é, em síntese, a mensagem da conferência de Lacan transcrita no seminário II.

Talvez devamos, então, reconsiderar a posição da Psicanálise diante da Inteligência Artificial e da Ciência Cognitiva. Talvez Roudinesco esteja excessivamente à margem esquerda do rio Sena para poder vislumbrar o interesse de Lacan por essas disciplinas, que na década de 1950 , já eram pesquisas científica de ponta. Mas para reconhecer isso será preciso abandonar preconceitos que permeiam a historiografia da Psicanálise. Provavelmente são eles que não permitem que os historiadores da Psicanálise consigam vislumbrar a verdadeira dimensão dessa conferência de Lacan e prefiram não mencioná-la.

Fonte: Revista Filosofia edição 64 pág 37 (João de Fernandes Teixeira, Ph.D pela University of Essex Inglaterra/Professor titular na Universidade Federal de São Carlos site www.filosofiadamente.org)







domingo, 30 de outubro de 2011

O Positivismo Filosófico como Religião




Por Noreda Somu Tossan

Há algum tempo venho escrevendo textos sobre religiões digamos, desconhecidas, mas que de forma silenciosa, influenciou e ainda influencia muitos pensamentos. Sinto certa dificuldade em me manter imparcial frente a algumas delas. Evito também exagerar no sarcásmo e ironia, traço bem característicos dos meus escritos. Pois bem, coletei informações e resolvi trazer à baila (como diria o mestre Levi) para que pudessemos dissecar mais esta vertente religiosa, ou filosófica, para então, por meu de nosso trabalho especulativo, possamos aprender um pouco mais à medida que ensinamos.

O que é “Positivismo”?

Positivismo é um conceito que possui diferentes significados, englobando tanto perspectivas filosóficas e científicas do século desenove quanto outras do século vinte. Desde o seu início, com Augusto Comte (1798-1857) na primeira metade do século desenove, até a atualidadeI, o sentido da palavra mudou de forma absurda, incorporando diferentes sentidos, muitos deles opostos ou contraditórios entre si. Nesse sentido, existem correntes de outras disciplinas que se consideram "positivistas" sem guardar nenhuma relação com a obra de Augusto Comte.

Exemplos paradigmáticos disso são o “Positivismo Jurídico”, do austríaco Hans Kelsen, e o “Positivismo Lógico”, de Rudolph Carnap, Otto Neurath e seus associados. Para Comte, o Positivismo é uma doutrina filosófica, sociológica e política. Surgiu como desenvolvimento sociológico do Iluminismo, das crises social e moral do fim da Idade Média e do nascimento da sociedade industrial (processos que tiveram como grande marco a Revolução Francesa (1789-1799). Em linhas gerais, ele propõe à existência humana valores completamente humanos, afastando radicalmente a teologia e a metafísica (embora incorporando-as em uma filosofia da história). Assim, o Positivismo associa uma interpretação das ciências e uma classificação do conhecimento a uma ética humana radical, desenvolvida na segunda fase da carreira de Comte.

O método geral do positivismo de Auguste Comte consiste na observação dos fenômenos, opondo-se ao racionalismo e ao idealismo, por meio da promoção do primado da experiência sensível, única capaz de produzir a partir dos dados concretos (positivos) a verdadeira ciência(na concepção positivista), sem qualquer atributo teológico ou metafísico, subordinando a imaginação à observação, tomando como base apenas o mundo físico ou material. O Positivismo nega à ciência qualquer possibilidade de investigar a causa dos fenômenos naturais e sociais, considerando este tipo de pesquisa inútil e inacessível, voltando-se para a descoberta e o estudo das leis (relações constantes entre os fenômenos observáveis). Em sua obra Apelo aos conservadores, Augusto Comte definiu a palavra "positivo" com sete acepções: real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático.

A ideia-chave do Positivismo Comteano é a Lei dos Três Estados, de acordo com a qual o homem passou e passa por três estágios em suas concepções, isto é, na forma de conceber as suas ideias e a realidade:

1º Teológico: o ser humano busca explicar a realidade por meio de "deuses", buscando responder a questões como "de onde viemos?" e "para onde vamos?"; além disso, busca-se o absoluto;

2º Metafísico: é um meio-termo entre a teologia e a positividade. No lugar dos deuses há entidades abstratas para explicar a realidade: "o Éter", "o Povo", "o Mercado financeiro", etc. Continua-se a procurar responder a questões como "de onde viemos?" e "para onde vamos?" e procurando o absoluto é a busca da razão e destino das coisas. é o meio termo entre teológico e positivo.

3º Positivo: etapa final e definitiva, não se busca mais o "porquê" das coisas, mas sim o "como", por meio da descoberta e do estudo das leis naturais, ou seja, relações constantes de sucessão ou de coexistência. A imaginação subordina-se à observação e busca-se apenas pelo observável e concreto.

Auguste Comte deu vida à “Religião da Humanidade”. Após a elaboração de sua filosofia, Comte concluiu que deveria criar uma nova religião, afinal de contas, para ele, as religiões do passado eram apenas formas provisórias da única e verdadeira religião, “A religião positiva”. Segundo os positivistas, as religiões não se caracterizam pelo sobrenatural, pelos "deuses", mas sim pela busca da unidade moral humana. Daí a necessidade do surgimento de uma nova Religião que apresentasse um novo conceito do “Ser Supremo”, então surge a Religião da Humanidade.

Os positivistas diziam que a Teologia e a Metafísica, nunca inspiraram uma religião verdadeiramente racional, cuja instituição estaria reservada ao advento do espírito positivo. Estabelecendo a unidade espiritual por meio da ciência, a Religião da Humanidade possui como principal objetivo a Regeneração Social e Moral. A Religião da Humanidade possui como Ser Supremo a Humanidade. Ela representa o conjunto de seres convergente de todas as gerações, passadas, futuras e presentes convergentes, isto é, que contribuíram, que contribuem e que contribuirão para o desenvolvimento e aperfeiçoamento humano.

O dogma da Religião da Humanidade é a ciência. Também foram construídos templos e capelas onde são celebrados cultos elaborados à Humanidade. A religião positivista caracteriza-se pelo uso de símbolos, sinais, estandartes, vestes litúrgicas, dias de santos (grandes figuras humanas), sacramentos, comemorações cívicas e pelo uso de um calendário próprio, o Calendário Positivista (um calendário solar composto por 13 meses de 28 dias). O lema da religião positivista é : "O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim" (sôa familiar?)

Augusto Comte foi o criador da palavra "altruísmo", palavra que segundo o fundador, resume o ideal de sua nova religião. A idéia de uma unidade humana (moral, intelectual e prática) considera que o ser humano só poderá ser harmônico, coerente e, portanto, feliz, se puder manter uma unidade mental individual e, ao mesmo tempo, puder relacionar-se bem com seu meio. Para isso, precisa cultivar o altruísmo e manter idéias sintéticas; com isso, terá sentimentos e noções gerais que permitirão uma conduta generosa e esclarecida em suas atividades cotidianas, que tendem a ser egoístas e dispersivas.

A influência positivista no Brasil ocorreu de diferentes formas e lugares, desde a década de 1870 até meados do século vinte, mas estendendo-se até o século vinte e um. Entretanto, foi no Rio de Janeiro, entre o final do Império e a I República que o Positivismo foi mais notável no Brasil, desempenhando um papel central tanto no processo de Abolição da Escravatura quanto no de Proclamação da República. Além disso, a laicização do Estado e das instituições públicas foi uma das grandes preocupações dos positivistas, além da realização da justiça social e do progresso social. Nessas ações, os nomes mais conhecidos são os de Benjamin Constant Botelho de Magalhães (o "Proclamador da República") e o de Raimundo Teixeira Mendes, autor da bandeira nacional.

O modelo atual da bandeira Brasileira é um reflexo dessa influência na política nacional. Na bandeira lê-se a máxima política positivista “Ordem e Progresso”, surgida a partir do lema comteano: “O Amor por princípio e a Ordem por base, o Progresso por meta, representando as aspirações a uma sociedade justa, fraterna e progressista. Como não poderia faltar, fica a pergunta:

Alguém aqui é positivista?

Noreda Somu Tossan

Fontes: Discurso sobre o Espírito Positivo/Sistema de Política Positiva/Wikipedia



quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A evolução da moral e da ética




Por Por Noreda Somu Tossan

Seria possível condensar os valores todos num só, ou num essencial? Seria a “decência” esse condensado de tudo que julgamos bom? Porque se pensarmos na grande referência moral de nossa tradição, “Os dez mandamentos bíblicos”, eles se caracterizam, antes demais nada, por serem vários, muitos. A versão judaica, aliás, não coincide exatamente com as diferentes versões cristãs. Os cristãos admitem imagens de Deus, ao contrário dos Judeus, e a igreja Ortodoxa chega mesmo a dar papel importantíssimo aos ícones. A Igreja Católica, além disso, acrescentou cinco mandamentos dela própria, diga-se de passagem, bem menos impactantes que os revelados à Moisés no Monte Sinai.

Hoje, se quisermos penar no que é bom e correto, os mandamentos de Deus não são suficientes (e também têm alguns excessos). Quer dizer que precisamos incluir o que lhes falta exemplo: o respeito às religiões diferentes e também ao ateísmo, a igualdade dos sexos, a não descriminação dos outros povos, o fim da escravatura, enfim, uma série de preceitos morais que nos textos sagrados passam em silêncio, mas que se tornou fundamental para nós no século XXI. e também precisamos retirar alguns pontos que, embora façam sentido do ponto de vista religioso, não garantem que uma pessoa seja ética (decente), exemplo:

Não tomar o nome de Deus em vão, não adorar outros deuses e santificar um dia por semana são prescrições em determinada religiões, algumas, mas não para todas, o que não faz do adepto da religião que não pratica tais costumes, um imoral ou indecente. Ateus e agnósticos por exemplo não estariam obrigados por elas. E nem por isso, essas pessoas que não vêem sentido em um terço dos mandamentos judaico-cristãos, são sujeitos maus.

Fica então a pergunta: a ética se constrói pela constante agregação de novos conceitos ou se pode derivar de um preceito essencial? A ética é um “catálogo” de virtudes ou tem um cerne, uma origem, uma essência? Cada vez que as Nações Unidas convocam uma nova conferência internacional, que anuncia mais uma declaração dos direitos (introduzindo o direito à moradia, proclamando os direitos das crianças e dos adolescentes, mandando que se respeitem os povos aborígenes), elas estão de fato acrescentando princípios novos a uma lista cada vez maior de obrigações, ou será que tudo isso poderia ser pensado a partir de um, ou alguns poucos princípios básicos?

A moral parece-se mais hoje em dia com uma lista de compras, que vamos ampliando cada vez que nos lembramos de uma coisa nova. É evidente que a sociedade atual declare quais são seus direitos, inclusive alguns nunca antes lembrados. Mas não podemos esquecer que, declarar não é promulgar. Declarar é reconhecer que eles valem, não é criar. Você declara a partir de algo que já existe, mesmo que muitos não tenham consciência dele. Daí então surge o maior dilema em minha opinião: jamais criamos preceitos morais? Ou criamos? Modificamos os anteriores? O que já foi descente se torna agora indecente e vice-versa?

Acredito que hoje, quase tudo o que diz respeito à ética pode derivar de dois grandes princípios, a igualdade (não com uma conotação comunista) e a liberdade (não com conotação anarquista). Se somos iguais não podemos desrespeitar o outro, sermos arrogantes, intolerantes ou corruptos. O voto de todos tem o mesmo peso nas eleições. Se somos livres, devemos responder por nossos atos e também reconhecer a liberdade dos outros. Para o século XXI acredito ser a resposta mais adequada, mas daí vem outros dilemas: Isso é retroativo? Vale para o passado? Machistas e escravagistas de uma época que tolerava essas condutas, como ficam no retrato ético atual? Ou devemos reconhecer que a moral muda com o tempo?

Edson Moura



segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O rebanho de um homem



Por Noreda Somu Tossan

Acumular é um dos mais profundos instintos da alma. Porque a alma ama, e o amor deseja sempre possuir. Se eu amo aquela casinha de cercas brancas, onde há uma seringueira com balança e um riacho, por que não possuí-la, se posso? Ora, se ela for minha, certamente cuidarei dela, quem sabe até pintarei as janelas de azul. Se eu amo a música que ouço, por que não comprar o CD e tê-lo só pra mim? O Levarei para casa e ouvirei quantas vezes quiser, desfrutando assim daquilo que é meu. O amor é onívoro, quer comer tudo. Sabe-se que, comer é a forma mais radical de possuir. Comendo o que estava fora e era outro, passa então a ser parte do seu próprio corpo.
Juntei algumas riquezas e estou sendo açoitado por uma pergunta feita em uma parábola contada por Jesus: “Para quem ficará tudo que acumulaste?”. Quando o que se acumulou se resume a bens e dinheiro, a resposta é relativamente fácil. Dinheiro e bens são valores que se medem por meio de números. Sendo assim, basta dividir o montante pelo número de herdeiros definidos legalmente e dar a cada um a parte que lhe corresponde. Mas e as outras coisas que acumulei?
Jesus sabiamente comparou o corpo a um tesouro do qual cada um tira as coisas que ajuntou no decorrer de sua vida. Cada indivíduo tem um tesouro que é único, só seu. Portanto, no meu tesouro há uma quantidade enorme de coisas totalmente, ou, absolutamente, inúteis, que não têm valor algum no mercado. Muitos livros usados, rabiscados e empoeirados. Algumas fotografias que marcam momentos importantes em minha vida (em minha vida).  Várias poesias rabiscadas em comandas de pedidos, dessas que garçons usam. Contos, recortes, cartas, enfim, memórias.
Parece estranho, mas o fato é que as memórias são também objetos que acumulamos em nossa caminhada existencial. Estão guardadas no nosso tesouro particular, às vezes secreto. Sinto a necessidade extrema de dá-las a alguém que tome conta delas. Aí me vem a aflição por escrever. Quando escrevo estou, à minha maneira, lutando contra a morte, não a morte literal, mas sim, buscando uma certa imortalidade. A imortalidade das minhas memórias. Pelejando bravamente contra a morte das coisas que o meu amor ajuntou e que vão se perder quando eu morrer.
Já dizia Alberto Caeiro: “Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse... Quando me sento a escrever versos..., sinto um cajado nas mãos..., olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias, ou olhando para minhas idéias e vendo o meu rebanho.” Também me considero um guardador de rebanhos. Minhas ovelhas são minhas idéias, minhas memórias. Para quem ficarão minhas ovelhas quando eu partir? Quem cuidará delas com o mesmo amor que eu cuidei? É preciso encontrar alguém que as ame assim como eu as amei, que também tenha essa alma de pastor, que as chame pelo nome, que as conduza por pastos verdes e fontes de águas frescas, que as defenda dos lobos e as acaricie ao fim da tarde.
A pergunta me atravessa os pensamentos como lâmina afiadíssima: “O que acumulei numa vida inteira, para quem ficará?” “Quem cuidará do meu rebanho querido?”. Mas, talvez, esta seja uma pergunta impossível de ser respondida mesmo. Eu apenas alimentei a ilusão de ter possuído um rebanho, apenas tive a ilusão de acumular objetos, memórias, idéias. Esse rebanho nunca me pertenceu. É um grande rebanho que passeia pelos pastos do mundo, ovelhas à procura de quem cuide delas. Por um período estiveram sob meus cuidados. Eu as chamava pelo nome. Assim que eu me for, sairão por aí e provavelmente encontrarão outro pastor, que certamente saberá cuidar melhor delas do que eu mesmo cuidei. Farão delas ovelhas mais fortes, com o auxílio de outros pastores, modificarão as minhas ovelhas e logo elas se esquecerão de mim.
Minhas ovelhas jamais ficarão abandonadas. Mas alimento a esperança, novamente me entrego à ilusão, de que meu filho Jonas, ou o mais novo Cauã, serão esses pastores. E toda vez que eles virem uma de minhas ovelhas machucada, ou desgarrada do rebanho, a trarão de volta, tirarão os carrapatos e lembrarão-se do velho pastor que não deixou nada, a não ser, suas memórias escritas, mas escritas com amor.
Noreda Somu Tossan

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A primeira mentira sempre nos deixa a um passo da segunda

Por Edson Moura

Ser alguém, alguém importante, é o desejo de todo homem. Uma tarefa deveras difícil devo dizer, pois o mundo em que vivemos é tão competitivo que precisamos muitas vezes apelar para nossas imaginações, criando assim, uma personalidade que possivelmente nos baterá na face cedo ou tarde. É como um pai, desejando chamar a atenção de seu filho, inventa estórias para atraí-lo. Atitudes assim parecem ser tão inocentes, tão isentas de maldade, que não nos damos conta quando o abismo chamado mentira precipita a confiança que tínhamos de nossos filhos.

Transparência é a mais bela cor que nossos filhos devem ver em nossas performances. Me apavora pensar que meus filhos, por minha culpa, mintam para seus amigos dizendo que o pai dele é um dos maiores sommelieres de São Paulo, que atende celebridades em seu restaurante, e que as pessoas fazem fila para serem atendidas por ele. O choque para uma criança, que vê a verdade emergir em plena sala de aula, quando seus amiguinhos o desmascaram é massacrante.

A frustração se apossará de sua pequena alma. A decepção com a figura paterna demorará anos para passar, e talvez nunca passe. Imagino os filhos de muitos políticos que aparecem na mídia, com suas fotos estampadas na primeira página de jornais, escândalos de corrupção, crimes contra a sociedade, sociedade esta da qual fazem parte os pais dos colegas de escola. Quem poderá calcular o tamanho da vergonha que sentirão? Qual psicólogo vai conseguir devolver a esta criança a confiança em seu pai? Contará ele também mentiras? Possivelmente.

Um jogos de espelhos sem igual, isso é o que é. Às vezes somos enganados também, é sem querer passamos adiante algo que não é verdade. E como uma bola de neve que não para de crescer à medida em que desce a montanha, a estória viaja pelo mundo, pelo nosso pequeno mundinho. Já disseram que uma mentira dá a volta ao mundo mesmo antes de a verdade vestir os sapatos, e isto é uma verdade. Invariavelmente um dia a verdade aparecerá, e se isso não acontecer é porque o seu criador viveu intensamente tentando proteger daqui e dali seu conto. Uma vida de preocupação, um eterno caminhar em ovos, esquivando-se constantemente de situações que possam comprometê-lo.

Uma luta sem contra a famosíssima “Lei de Murph” . Este adágio popular da cultura ocidental que afirma que se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará, ou, se há mais de uma maneira de se executar uma tarefa ou trabalho, e se uma dessas maneiras resultar em catástrofe ou em conseqüências indesejáveis, certamente essa será a maneira escolhida por alguém para executá-la. Ela é comumente citada (ou abreviada) por "Se algo pode dar errado, dará" ou ainda "Se algo pode dar errado, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo a causar o maior estrago possível". Assim, inutilmente, tentamos burlar os acontecimentos.

Portanto, o melhor a fazer é evitar os exageros. Não colocar glamour demais em “causos” que contamos, para que não caiamos na ingênua crença de que crimes perfeitos existam. Falem a verdade para seus filhos e amigos, mesmo que a verdade às vezes o coloque bem lá embaixo, e a admiração por você não seja a principal característica de seus companheiros. Fazendo isso, é bem possível que seja admirado um dia, principalmente quando seus filhos crescerem e entenderem que seu pai nunca foi bonito, rico, e importante, mas foi honesto consigo mesmo, sendo esta a única obrigação de um ser humano.

Um ótimo exemplo disso que vos escrevo está bem explicitado no filme “O resgate de um campeão”, estrelado por Josh hartnett e Samuel L. Jackson, baseado numa história real. Quem puder assistir, eu recomendo, é lindo o filme.

Edson Moura





quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A pílula da felicidade

Por Noreda Somu Tossan

Uma das melhores coisas que a filosofia despertou em mim, foi a capacidade de questionar. Não só questionar para poder debater com amigos e outros blogueiros, mas sim, avaliar tudo aquilo que vejo e depois digerir este conteúdo e quando possível, escrever sobre ele com minhas próprias palavras. Uma dessas maravilhas é a capacidade de não mais assistir a um filme e não fazer uma avaliação crítica de seu conteúdo. Pois bem, assisti recentemente a um filme chamado “Sem limites”, onde um jovem escritor com bloqueio criativo se vê desesperado por não conseguir escrever seu livro.

Casualmente ele encontra um amigo que lhe oferece uma pílula misteriosa, e daí para frente tudo em sua vida muda. Sua capacidade cognitiva é elevada ao extremo e sua cabeça se torna um turbilhão. Me perguntei se esta pílula seria possível com os avanços na área da farmacologia e neurociência. Pesquisei aqui e ali e quero fazer um breve relato sobre os males e os benefícios dos avanços da tecnologia. Boa leitura.

Muito antes de Heidegger formular sua crítica romântica à tecnologia e nos falar de niilismo, o sociólogo alemão Max Weber já preconizava que a época moderna se caracterizaria pelo desencantamento do mundo. Desencantar-se é uma característica inevitável do processo de racionalização provocado pela ciência e pelo surgimento das sociedades industriais. A nova imagem do mundo que se consolidou ao longo século XX visou aniquilar com a religião e com tudo que poderia haver de mágico na nossa concepção de universo.

No século XXI assistimos a mais um passo nessa direção: o desencantamento do "eu". As novas ciências, em especial a neurociência, nos convidam a abandonar a imagem do ser humano como criatura dotada de uma alma imortal, que seria uma centelha do divino. Temos todos um cérebro igual, de onde se quer inferir que somos todos iguais. Mas isso pode soar tão absurdo como querer dizer que o cardápio de todos os restaurantes do mundo deveria ser igual porque o estômago humano é igual em todos os lugares e culturas.

O desencantamento do “eu” visa à dissolução da subjetividade. A ciência estaria tentando profanar um dos últimos bastiões da Religião e da Filosofia ao buscar uma explicação científica da natureza da consciência humana. Contra essa iniciativa, que parece tão drástica, mas, ao mesmo tempo reconhecida como inexorável, cada vez mais surgem grupos humanos que se agarram às crenças mais bizarras ou à fé fundamentalista. O fundamentalismo seja religioso ou político, tornou-se uma marca da vida contemporânea tanto quanto a ciência, embora se alastre predominantemente nas sociedades pré-tecnológicas do terceiro mundo.

Essa avalanche sobre o “eu”, protagonizada pela neurociência, manifesta-se, sobretudo, no uso crescente de drogas que produzem estados alterados de consciência. Sabemos que todas as sociedades humanas sempre tentaram, por meio da legislação, impor uma política da experiência ou uma espécie de ética da consciência, que visa banir as drogas proibidas, nem sempre com justificativas médicas ou científicas aceitáveis.

Mas agora não se trata mais apenas de banir as drogas ilegais. É preciso discutir as drogas lícitas que produzem estados alterados de consciência. As tentativas de suprimir as tristezas e a falta de atenção das crianças na escola levaram a uso quase que indiscriminado de antidepressivos e de substâncias como a ritalina. As conseqüências desse processo já se fazem sentir até na modificação da psicologia popular, na qual já não se fala: “Estou triste”, mas “Estou deprimido”.

Mas será que se pode exigir das pessoas que não se entristeçam ou não se angustiem? Em um futuro próximo é possível que o uso dessas drogas para melhorar o humor e o aprendizado passe a ser por parte dos empregadores (item da cesta básica) e pelos professores (farão parte da merenda escolar). E alguém poderia proclamar: por que não? O exército americano já obriga seus soldados a ingerirem algumas drogas que podem fazer que eles percorram grandes distâncias carregando equipamentos geralmente muito pesados sem, entretanto, sentir cansaço.

Não faz muito tempo, a neuro-farmacologia descobriu algumas substâncias que induzem a experiência religiosa. Ora, será que essas substâncias não deveriam ser consumidas por todos e o Estado declará-las obrigatórias? A religião é mais confortável que o ateísmo, disso já sabia o velho Kant. Então por que não disseminar a religiosidade? Afinal, indivíduos e sociedades religiosas serão, supostamente, mais pacatos e administráveis... Será esta a “pílula de Deus”, já que existem pílulas para tantas outras coisas.

A questão de fundo, contudo, continua a mesma. O que torna alguns estados alterados de consciência mais desejáveis que os outros? A neuro-farmacologia trouxe, a reboque, um amplo leque de dilemas éticos e força novas pautas de discussão filosófica. Afinal, o que define um bom estado de consciência e quais, dentre todos os que podemos ter, devem ser declarados ilegais ou inaceitáveis? Essa é a pergunta principal que deve nortear uma ética da consciência, já que vivemos (e viveremos) predominantemente em estados alterados de consciência, produzidos pela ingestão, cada vez mais freqüente, de drogas legais ou ilegais. Afinal, desde a invenção do Prozac, ingressamos definitivamente no admirável mundo novo de que nos falava Aldous Huxley.

Não estamos preparados para a demolição do “eu”. Se há uma década temíamos que máquinas se tornassem conscientes, hoje, temos de temer que humanos percam a consciência. Não há nada mais abundante no planeta do que seres humanos, e eles podem se tornar úteis para os propósitos de uns poucos por maio da supressão da consciência. A supressão da consciência tem se revelado um investimento menor, do ponto de vista econômico, do que a construção de robôs conscientes. Essa é a nova forma que a angústia passou a ter a partir do século XXI.

A ética da consciência precisará nos ajudar a escolher entre os possíveis estados alterados de consciência no intervalo entre a “angústia mórbida”, que não nos permite sequer levantar da cama, e o “alienado feliz”, aquele que Sartre chamava de “salaud”, ou o idiota imune à própria angústia. Não será uma escolha nada fácil.

Noreda Somu Tossan

Fonte: Filme "Sem limites"
Fonte: Revista Filosofia nº 60

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Justiça e Perdão


Outro dia um amigo emprestou-me um filme muito interessante que tinha como tema a vingança.Tudo bem que a produção era daquelas baratas, mas ao final dele, fiquei pensativo a respeito do tema. A história era de uma escritora que ao isolar-se em uma cidadezinha para escrever mais um de seus romances, acabou sendo violentada por quatro jovens e até pelo xerife da cidade. Após sobreviver ao ataque, ela retorna para vingar-se, coisa que faz com requintes de crueldade. Entre cortar pênis, e introduzir espingardas em ânus, ou afogar um deles em soda cáustica ela se satisfaz e sente-se bem com a sensação de dever cumprido.

O interessante é que logo pela manhã eu presenciei uma cena que me remeteu ao filme. Um rapaz muito mal educado começou a agredir verbalmente o motorista do ônibus. Chamou-o de chifrudo, velho lerdo, “viado”, e outros adjetivos que julgo desnecessário citar aqui. O motorista aceitou àquelas provocações como um perfeito cavalheiro. Pensei comigo: ele deve ser um daqueles crentes que aceitam tudo calado, pois o Senhor é seu juiz. Eu particularmente já estava “espumando de raiva”, mas me controlava, afinal de contas, eu também aprendi que não se deve pagar o mal com mal.

Ao chegarmos na av. Cidade Jardim, um dos pontos mais lotados da zona leste de São Paulo, fui surpreendido com a atitude do motorista. Ele arrastava o ônibus bem devagarinho, ao tempo em que ia chamando o rapaz de corno, dizendo que a cara dele era de chifrudo, que a mulher dele provavelmente estaria dando pra outro enquanto ele saía pra trabalhar. Chamava-o de “pião”, dizia que enquanto ele (o rapaz) pegava um ônibus lotado para chegar ao trabalho, seu carro zero estava estacionado na garagem da empresa. Acreditem, cheguei a sentir uma pontinha de pena do jovem (mas passou rápido). O motorista foi cruel em sua vingança. Premeditou tudo e foi muito feliz em sua desforra.

Pergunto-me: estaria certo o motorista ao buscar justiça? A atitude dele pode ser recriminada, tendo em vista que devemos evitar discussões nos dias atuais? Ou será que ele deveria ter ido além e ter dado uma boa de uma surra naquele jovem desaforado? Bom, particularmente acho que ele deveria sim, ter descido do ônibus e socado aquele rapaz, só para ele aprender a respeitar aos mais velhos. Só assim o motorista conseguiria se impor frente ao seu adversário. A coragem de enfrentar as dificuldades e a busca por justiça não são qualidades apreciadas por Deus? Não! Este é discurso islâmico.

É evidente que o discurso islâmico de posiciona contrário ao discurso cristão. Enquanto para o Islã o “pecado” precisa ter uma punição do mesmo peso e natureza, no cristianismo, a orientação é desconsiderar a injustiça cometida. Jesus delega a Deus a função de fazer justiça e obriga o injustiçado a perdoar aquele que o injustiçara. (..e perdoai [Deus] as nossas dividas [injustiças, pecados], assim como nós perdoamos nossos devedores Mt 6:12). Ao relembrar o episódio no ônibus, não consigo evitar a frase que me vêm à mente: “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal, mas, se alguém lhe bater na face direita, oferece-lhe também a outra”.

Depois de muito refletir, cheguei à conclusão de que “perdão e justiça” são valores éticos inconciliáveis, antagônicos, impraticáveis dentro de um mesmo contexto. O mesmo se dá aos valores “igualdade e liberdade”, ou seja, para se obter um estado de igualdade de condições e de oportunidade entre pessoas de um mesmo grupo ou sociedade, é preciso sacrificar a liberdade de se fazer o que deseja. Em grupos e sociedades liberais, como a sociedade de mercado, por exemplo, a liberdade de agir é a mola propulsora do progresso, mas, a desigualdade social acaba sendo um efeito colateral aceitável. O lema da revolução francesa até que soa bonito... “Liberdade e Igualdade”... mas, é totalmente impraticável.

É preciso fazer valer os nossos direitos, e quando esses direitos nos pedem para reagirmos a uma agressão com outra agressão, por que não? Poxa vida! Até quando viveremos na mediocridade? Até quando seremos capachos de nossos detratores, só porque Jesus falou que assim deveria ser? A morte de Jesus e de Pedro na cruz, sem que ambos reagissem contra seus inimigos, nos mostra o extremo da passividade e da tolerância em relação à injustiça. Provavelmente o conflito entre justiça e perdão seja o causador do grande mal-estar nas sociedades de orientação cristã.

O “bom religioso”, obediente às leis bíblicas e civis, vive em sociedade sendo explorado pelo seu patrão capitalista, pelo banco que lhe empresta dinheiro a 13% ao mês enquanto só paga 0,5% na poupança, pelos políticos que lhe tomam dinheiro com os impostos e não lhe devolvem em saúde, educação e segurança e transporte descente conforme nos é garantido pela Constituição, entre outras impunidades para as quais não tomamos atitude em nome do perdão que está arraigado em nossos subconscientes. Nossa ira inconsciente gerada pelo desejo voraz de justiça esbarra em uma orientação moral, da qual muitas vezes não temos consciência, que nos impede de tomar uma atitude.

Não me envergonho de escrever essas coisas, mas me envergonho por ter permanecido passivo por tanto tempo, estóico, contente com as agruras, e feliz por saber que um dia Deus me acolheria e todo sofrimento então teria fim. Quanto tempo eu perdi, e quantas lágrimas minhas poderia ter evitado se tivesse provado o sabor incomensurável da “doce vingança”.

Edson Moura



sexta-feira, 24 de junho de 2011

"LIberdade de Expressão"


Dois mil e onze, mais uma vez retornando, Edson Moura, tentando fazer uso de sua liberdade de expressão, um dos pouquíssimos direitos que ainda temos neste país. Vocês vão adentrar no mundo da informação, auto-conhecimento, denuncia, crítica e até diversão. Este é o "Outro Evangelho"...sejam todos bem vindos.

À Todos aqueles que pensam, e que ousam ultrapassar os limites da boa política de vizinhança, não mantendo oculto aquilo que gostariam de gritar para o mundo inteiro ouvir...”Se o mundo inteiro pudesse me ouvir”. Nosso espaço é reduzido, é resumido, não sei o motivo. Por que será que fazem isso? Muitos de nós nem sabemos que somos tangidos como gado, somos vitimas de um ideal comum, ou ideologia de massa, sei lá.

Minhas palavras só chegam até uma minoria, que covardia, não querem que mostremos a verdade do dia-a-dia. Outros falam que meus escritos são muito agressivos e que muito do que escrevo não deveria ser dito. Mas, se o mundo inteiro pudesse me ouvir, eu gritaria cada vez mais alto para todo mundo refletir. A informação não pode ficar escondida e o conhecimento compartilhado é fonte de vida.

O sentido que dei à minha vida está atrelado ao exercício do meu direito de falar, seja através de um simples texto, ou de uma poesia, ou uma crônica engraçada, qualquer coisa é válida, quando se deseja repartir o que se sabe. Estou exercendo o meu direito de dizer o que penso. Às vezes escrevo uma mensagem de coragem e força pra viver, e viver com intensidade, contemplar o mundo, jogar na terra uma semente de união a cada segundo. Juntar as minhas idéias com as suas e revelar o que existe de belo na “filosofia das ruas”. Saibam que foi nas ruas que aprendi que sempre temos algo a dizer, e você está convidado para fazer parte desta “milícia” enquanto lê. O momento não pode ser outro, o lugar é aqui..então não perca tempo e grite, grite para o mundo inteiro te ouvir.

Grite para nossa presidente amparar essa gente, pois o Brasil ainda passa fome e o nordeste ainda tem sede. Grite para as pessoas serem mais humanas, que deixem o orgulho de lado e ajudem que está precisando. Aos pensadores, não pensem só com a cabeça, mas também com o coração, estendam as suas mãos, ajudem a quem está precisando, pois um homem que se esquece que é um ser humano, precisam de exemplos, pessoas que estão lutando e passam horas e mais horas juntando semelhante com semelhante, aprendendo e ensinando.

Gritar para Deus que gostaria de vê-lo ajudando, mandá-lo descer do céu e ver o povo que está chorando. Dizer que Betinho, e não Jesus, é que foi um grande homem, este último fundou a campanha da cidadania contra a fome. Dizer que nem só da palavra que sai da boca de Deus viverá o homem, e que um pedaço de pão, mesmo que amassado pelo “diabo”, também mata a fome. “Aonde comem um, dois também comem".

Direito de dizer que nunca mais quero ver a guerra, e desejar que as armas é que vão para debaixo da terra. Dizer que seria tão bom se a fome fosse tão gostosa quanto a sensação que se tem depois de comer. Mas infelizmente isso não é verdade, e a desgraça é encontrada em qualquer canto da cidade. Precisamos nos unir, temos que nos ajudar, e gritar cada vez mais alto para que todos possam escutar, e descobrir que só o ser humano consciente do poder de suas palavras pode fazer isto mudar. Filosofia de rua não irá parar por aqui...enquanto o mundo inteiro não puder me ouvir.

Digam que aprendemos a não sermos mais enganados. Digam que somente os covardes é que vêem tudo e permanecem calados. Falem que aprendemos a respeitar e ser respeitados. Gritem que a voz do coração pode fazer o mundo inteiro te ouvir, e que temos muito pra contar...repassar o que já vivi. Gritem que há muito tempo a Bíblia deixou de ser o melhor livro do mundo, e que agora já podemos e devemos duvidar de seu conteúdo. Digam que o que importa é a qualidade e não a quantidade de nossas ações, de nossas intenções e de nossa bondade. Espero que seus sonhos sejam iguais aos meus e que a realidade da vida nos afaste mais e mais de Deus, não duvidando nunca de que estamos certos e entendendo que esse Deus bondoso...não está por perto.

Escrevo neste pequeno espaço chamado “Outro Evangelho”, e tenho plena consciência de que posso não obter um bom resultado. Também não sei se estas linhas chegarão aonde eu quero, mas tenho a certeza de que chegarão em algum lugar, então terá surtido algum efeito.

Edson Moura


Texto baseado em "Rap de Filosofia de Rua" chamado "Se o mundo inteiro me pudesse ouvir", rap este que já passa dos 20 anos de sua criação e que permeou minha infância e juventude dando-me diretrizes para o meu desenvolvimento tanto intelectual quanto comportamental.

domingo, 5 de junho de 2011

Mentiras e Verdades


Perdi a conta de quantas vezes disse que amava, quando na verdade, o vazio “preenchia” meu ser tal qual um buraco negro. Também já não me lembro de todas as vezes que os tratei com cordialidade e polidez, ao tempo em que a vontade de mandá-los às favas corroia minhas entranhas, latejando como uma ferida infeccionada. Enfim, podemos dizer que: Se nunca formos descobertos numa mentira, seria o mesmo que dizer a verdade. O que devemos evitar sempre que possível é tentar mascarar um erro com uma mentira, pois fazendo isso, sempre acabaremos por precisar de uma segunda...e uma terceira.

Minhas mentiras nunca tiveram a intenção de fazer mal a ninguém, pelo contrário, elas me ajudaram a conviver com pessoas indesejáveis. “Conviver”, esta é a palavra correta a ser usada. Santas mentiras se assim me permitem chamá-las. Desde muito jovem fui condicionado a praticar a “política da boa vizinhança”. Li em algum lugar, não sei onde, que algumas verdades são tão preciosas que devem ser protegidas com as maiores mentiras, e com passar do tempo constatei que esta é uma verdade. Sabemos que uma verdade, quando é dita com má intenção, facilmente derrota todas as mentiras que possamos inventar para defender, proteger ou agradar alguém.

Mentindo poupei algumas pessoas de sofrer, omitindo fatos evitei celeumas em diversos lugares por onde estive. Sou franco, mas não muito, até porque excesso de franqueza nos torna mal educados. Jamais diria à esposa de um amigo que sua comida é ruim, mesmo que muitas vezes seja intragável. Nunca diria a uma mulher que ela está gorda, ainda que suas curvas parecessem mais com a circunferência da Terra. Necessitamos da mentira, ela nos massageia. Estamos tão acostumados a beber de um só gole uma mentira que nos lisonjeia, enquanto tomamos gota por gota da verdade que nos amarga a alma.

Verdades já me colocaram em muitas enrascadas. Não quero que pensem que sou desonesto, pois não tem nada a ver uma coisa com a outra. Honesto sou, mas minto para salvar, se não ao outro, a mim mesmo. Houve uma época em que optei por dizer apenas a verdade. Que furada! Angariei alguns desafetos, chamaram-me de insensível, deixei de estender as mãos há muita gente. Sofri quando resolvi falar a verdade. Seria realmente cômico, se não fosse trágico. Quem diria que a verdade teria um peso inferior ao da mentira, em pleno século XXI?! Nos é muito difícil acreditar que algo que nos é contado por alguém seja verdade, quando bem sabemos que mentiríamos se estivéssemos no lugar da pessoa que nos fala.

Também não vão pensar que tudo que falo é mentira, pois isto não é verdade. Invariavelmente eu “tenho” que contar algumas verdadezinhas, e, mesmo correndo o risco de ser mal interpretado, ponho-as para fora, como lâminas afiadíssimas que cortarão as frágeis linhas de minhas amizades. Fazer o que não é? É a vida. Afinal de contas, uma mentira muito bem contada pode dar a volta ao mundo mesmo antes de a verdade ter a chance de calçar os sapatos, já dizia Winston Churchill

Por que estou abrindo meu coração neste pequeno texto, eu não sei. Talvez seja um medo “inconsciente” de morrer e não deixar claro para todos os meus amigos e parentes quem realmente é o Edson Moura. É bem possível que meu cérebro esteja me traindo e, de certa forma me obrigando a confessar meus “pecados” antes que seja muito tarde para fazê-lo. Gostaria muito que meus filhos lessem estas linhas antes da minha partida, mas também quero que eles saibam que o herói que sempre me esforcei para ser, não passa de um manipulador de situações (um manipulador do bem).

Mas falando a verdade agora...não sei se estas linhas são a mais pura expressão das verdades que vivi, ou mais uma vez, minto para fazê-los um pouco mais felizes, fazendo-os acreditar que o que escrevo seja verdade, quando verdadeiramente, conto mais algumas mentiras. Mas que droga! Chego à conclusão de que “Minto tão bem, que nem eu mesmo sei quando estou falando a verdade”.

Edson Moura e Noreda Somu Tossan

quarta-feira, 1 de junho de 2011

“Filosofia é árvore e não fruto”


Até os dias de hoje, muitos estudiosos se perguntam: Quem surgiu primeiro, a filosofia ou a educação? Acredito, que desde que o homem olhou para um lado e para o outro e se perguntou: “O que é a vida?”, ou, “Para onde vamos quando morremos?”, neste momento a filosofia surgiu em nosso meio.

Conforme o tempo foi passando e o homem foi vendo a necessidade de se agrupar em tribos e cidades, tudo isso graças à sistematização do conhecimento, sem o qual não teriam nenhuma possibilidade de abandonar a vida nômade, surgiu então a educação. Nos primórdios da sociedade a educação era apenas oral, ou seja, passava de pai para filho dentro de sua família. Educação era práxis. Aprendia-se a usar uma rede de pesca usando-a, aprendia-se a usar uma lança, simplesmente usando-a. O aprendizado de um indivíduo era voltado apenas para a resolução dos problemas que apareciam no seu cotidiano. E por não existirem escolas, a educação não era burocrática.

Mas foi na Grécia que surgiu a filosofia enquanto ciência digna de altos estudos e também a escola. Os filósofos produziam conhecimento, mas o ensinavam na escola. Então, indagar sobre a natureza das coisas era praticar a filosofia como atividade de busca de respostas, ou seja, “sistematização”, aos fenômenos do mundo, e educação era ensinar saberes, Já nessa época engessados.

Um exemplo da influência da filosofia sobre a educação é a crença geocêntrica de Aristóteles, que só foi refutada em 1609 por Galileu. Isso nos mostra que por mais de 1900 anos o mundo conhecido acreditou que a Terra era o centro do sistema solar. Inclusive isso era ensinado em todas as escolas que existiam no planeta.

Quanto à filosofia, podemos afirmar que Homero (autor de Ilíada e Odisséia) atribuiu ao Ocidente um modelo de homem, uma ética, e um berço, a saber a Grécia, e Hesíodo contribuiu com a “Teogonia”, modelos que foram ensinados geração após geração na educação ocidental. Tales de Mileto, conhecido como o primeiro filósofo a questionar a origem das coisas, de todas as coisa para ser exato, , mudou para sempre a história da educação.

Pitágoras também fundou uma escola de filosofia que tinha um “plano de fundo” místico e religioso (acreditava na reencarnação das almas) e na “perfeição” dos números (posteriormente refutado com a descoberta do número irracional). Mas foi Platão, fundador da “Academia” um dos mais influentes pensadores do mundo ocidental, pois, em sua escola surgiu alguns dos princípios da universidade.

Portanto, ao analisarmos a história da filosofia, podemos chegar à conclusão de que educação é um “rebento” da filosofia e não o contrário como acreditam muitas das pessoas com quem converso. O lado mal dessa história é que até mesmo a filosofia, hoje em dia está sendo praticada como atividade apenas curricular, ou seja, sabe-se muito sobre a história da filosofia, mas não se sabe mais filosofar. A tragédia é o fato de quase todos considerarem a filosofia um fruto da educação.

Edson Moura