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sábado, 5 de maio de 2012

Caça as bruxas na Alemanha (depoimentos de um padre)



Por Noreda Somu Tossan
A verdade é que nós humanos não sabemos (e talvez nunca saberemos) do que somos realmente capazes, e acredito que cabe a nós, de forma bem particular, e com a mais pura honestidade, averiguar as medidas que às vezes tomamos (ou que tomam pela gente) para nos proteger de nós mesmos. Ultimamente tenho me interessado muito pela questão da “alucinação”, e fui buscar em artigos, livros, documentários de televisão, mais informações sobre o tema. Parti do princípio que todos nós sofremos (em maior ou menor grau) algum tipo de alucinação, no decorrer de nossa vida. Alguns falam em abdução extraterrestre, outros falam em ouvir vozes de comando claramente, já outros falam de perseguições, enfim, é uma gama de situações em que, o indivíduo acredita piamente que está, vendo ou ouvindo algo que ninguém mais (por mais que o outro se esforce), consegue ver.

Quero voltar um pouco no tempo, numa época em que não tínhamos a Psicanálise, a Tecnologia Espacial, a Medicina Psiquiátrica e nem os fármacos desenvolvidos pela Ciência. Vou  tomar como exemplo o caso do período da “Caça às Bruxas” que ocorreu na Europa em também do lado de cá do Oceano Atlântico. Proponho a você que está lendo, uma abertura no seu conhecimento, uma rejeição total ou parcial dos mitos e crenças em que acredita, ou aceita como inofensivos. A ideia deste texto não é mostrar o óbvio, não, a intenção é ir mais além, ou seja, questionarmo-nos se de fato já estamos preparados, (agora quase quatro séculos depois) para aceitarmos como verdade absoluta tudo que nos foi deixado, ou melhor, tudo que nos é proposto como atos voltados para a segurança e bem estar do cidadão.

Trago a todos, um recorte que achei muito interessante, de um Jesuíta que teve o azar de escutar as confissões dos acusados de bruxaria na cidade alemã de Würtzburg. Seu nome era Friedrich von Spee.  Em 1631 publicou Cautio Criminalis (precauções para os acusadores), onde explicitou a essência daquele terrorismo da Igreja-Estado contra os inocentes. Antes de Spee receber seu castigo, morreu vítima de uma epidemia de peste... atendendo aos afligidos como padre da paróquia. Aqui temos um resumo de seu livro: Prestem bem atenção, pois é a narrativa de testemunha ocular.

1. Por incrível que pareça, entre nós, alemães, e especialmente (envergonha-me dizê-lo) entre católicos, há superstições populares, inveja, calúnias, maledicências, insinuações e similares que, ao não serem castigadas nem refutadas, levantam a suspeita de bruxaria. Já não Deus ou a Natureza, a não ser as bruxas, são as responsáveis por tudo.

2. Assim, todo mundo clama para que os magistrados investiguem as bruxas... a quem só a intriga popular tem feito tão numerosas.

3. Os príncipes, em consequência, pedem a seus juízes e conselheiros que abram os processos contra as bruxas.

4. Os juízes logo que sabem por onde começar, já que não têm evidências nem provas.

5. Enquanto isso, a gente considera suspeito este atraso; e um informador ou outro convence aos príncipes a tal efeito.

6. Na Alemanha, ofender a estes príncipes é um sério delito; até os sacerdotes aprovam o que possa lhes agradar sem preocupar-se de quem instigou aos príncipes (por muito bem intencionados que sejam).

7. Ao final, portanto, os juízes cedem a seus desejos e conseguem dar inicio aos julgamentos.

8. Os juízes que se atrasam, temerosos de ver-se envoltos em assunto tão espinhoso, recebem um investigador especial. Neste campo de investigação, toda a inexperiência ou arrogância que se aplique à tarefa se considera zelo da justiça. Este zelo também se vê estimulado pela expectativa de benefício (grifo meu), especialmente para um agente pobre e avarento com uma família numerosa, quando recebe como estipêndio tantos dólares por cabeça de bruxa queimada, além das taxas incidentais e gratificações que os agentes instigadores têm licença para arrancar com prazer daqueles aos que convocam.

9. Se os desvarios de um demente ou algum rumor malicioso e ocioso (porque não se necessita nunca uma prova do escândalo) assinalam a uma pobre mulher inofensiva, ela é primeira em sofrer.

10. Entretanto, para evitar a aparência de que a acusa unicamente sobre a base de um rumor, sem outras provas, obtém-se uma certa presunção de culpabilidade ao expor o seguinte dilema: ou levou uma vida má e imprópria, ou levou uma vida boa e própria. Se for má, deve ser culpada. Por outro lado, se sua vida foi boa, é igual de imperdoável; porque as bruxas sempre simulam com o fim de aparecer especialmente virtuosas.

11. Em consequência, encarcera-se à velha. Encontra-se uma nova prova ediante um segundo dilema: Tem medo ou não o tem?. Se o tiver (quando escuta as horríveis tortura que se utilizam contra as bruxas), é uma prova segura; porque sua consciência a acusa. Se não mostrar temor (confiando em sua inocência), também é uma prova; porque é característico das bruxas simular inocência e levar até o final.

12. Em caso de que estas fossem as únicas provas, o investigador faz que seus detetives, frequentemente depravados e infames, vasculhem em sua vida anterior. Isto, certamente, não pode fazer-se sem que apareça alguma frase ou ato da mulher que homens tão bem dispostos possam torcer ou distorcer para convertê-lo em prova de bruxaria.

13. Todo aquele que lhe deseje mal tem agora grandes oportunidades de fazer contra ela as acusações que deseje; e todo mundo diz que as provas contra ela são consistentes.

14. E assim a conduz a tortura, a não ser, como acontece frequentemente, que a bruxa seja torturada o mesmo dia de sua detenção.

15. Nesses julgamentos não se permite a ninguém ter advogado nem qualquer meio de defesa justa porque a bruxaria é considerada um delito excepcional (de tal enormidade que se podem suspender todas as normas legais de procedimento), e quem se atreve a defender à prisioneira cai sob suspeita de bruxaria pessoalmente... assim como os que ousam expressar um protesto nestes casos e apressam aos juízes a exercitar a prudência, porque a partir de então recebem o qualificativo de defensores da bruxaria. Assim, todo mundo guarda silêncio por medo.

16. A fim de que possa parecer que a mulher tem uma oportunidade de defender-se a si mesmo, levam-na ante o tribunal e se procede a ler e examinar (se é que se pode chamar assim) os indícios de sua culpabilidade.

17. Até no caso que negue essas acusações e responda adequadamente a cada uma delas, não lhe empresta atenção e nem sequer se anotam suas respostas; todas as acusações retêm sua força e validez, por muito perfeitas que sejam as respostas. Ordenam-lhe retornar à  prisão para pensar mais atentamente se persistirá em sua obstinação... porque, como negou sua culpabilidade, é obstinada.

18. No dia seguinte  voltam a levá-la para fora e ela então escuta o decreto de tortura, como se nunca tivesse rechaçado as acusações.

19. Antes da tortura, entretanto, revistam-na em busca de amuletos; barbeiam-lhe todo o corpo e lhe examinam sem moderação até essas partes íntimas que indicam o sexo feminino.

20. O que tem isso de assombroso? Aos sacerdotes os trata do mesmo modo.

21. Quando a mulher foi barbeada e examinada, torturam-na para lhe fazer confessar a verdade, quer dizer, para que declare o que eles querem, porque naturalmente não há outra coisa que seja nem possa ser a verdade.

22. Começam com o primeiro grau, quer dizer, a tortura menos grave. Embora dura em excesso, é suave comparada com as que seguirão. Assim, se confessar, dizem que a mulher confessou sem tortura!

23. Agora vejam bem, que príncipe pode duvidar de sua culpabilidade quando lhe dizem que confessou voluntariamente sem tortura?

24. Condenam-na a morte sem escrúpulos. Mas a teriam executado embora não tivesse confessado; porque, assim que a tortura começou, a sorte já está lançada; não pode escapar, tem que morrer à força.

25. O resultado é o mesmo tanto se confessar como se não. Se confessar, sua culpa é clara: é executada. Qualquer retratação é em vão. Se não confessar, a tortura se repete: dois, três, quatro vezes. Em delitos excepcionais, a tortura não tem limite de duração, severidade ou frequência.

26. Se, durante a tortura, a velha contorcer suas feições com dor, dizem que ri; se perder o sentido, dizem que se dormiu ou está sob um feitiço demônio. E, se está entorpecida, merece ser queimada viva, como se tem feito com alguma que, embora torturada várias vezes, não dizia o que os investigadores queriam.

27. E inclusive confessores e padres afirmam que morreu obstinada e impenitente; que não se converteu nem abandonou seu íncubo, mas sim manteve sua fé nele.

28. Entretanto, se morrer sob tanta tortura, dizem que o diabo lhe quebrou o pescoço.

29. Depois do qual o cadáver é enterrado debaixo da forca. 
                 
30. Por outro lado, se não morrer sob tortura e se algum juiz excepcionalmente escrupuloso não torturá-la mais sem maiores provas, ou queimá-la sem confissão, mantêm-na no cárcere e a encadeiam com a máxima dureza para que se apodreça até que ceda, embora possa passar um ano inteiro.

31. A acusada não pode liberar-se nunca. O comitê investigador cairia em desgraça se absolvesse a uma mulher; uma vez presa e com cadeias, tem que ser culpado, por meios justos ou ilícitos.

32. Enquanto isso, sacerdotes ignorantes e teimosos perturbam à desgraçada criatura a fim de que, seja certo ou não, se declare culpada; Se não fazê-lo assim, dizem, não pode ser salva nem participar dos sacramentos.

33. Sacerdotes mais longânimos ou cultos não a podem visitar no cárcere para evitar que lhe deem conselho ou informem aos príncipes do que ocorre. O mais temível é que saia à luz algo que demonstre a inocência da acusada. As pessoas que tentam fazê-lo recebem o nome de perturbadores.

34. Enquanto a mantêm na prisão e sob tortura, os juízes inventam ardilosos mecanismos para reunir novas provas de culpabilidade com o fim de declará-la culpada de modo que, ao revisar o julgamento, algum facultativo universitário possa confirmar que devia ser queimada viva.

35. Há juízes que, para aparentar uma bondade suprema, fazem exorcizar  mulher, transferem-na a outra parte e a voltam a torturar para romper sua letargia; Se mantém silêncio, então ao menos podem queimá-la. Agora bem, em nome do Céu, eu gostaria de saber: se tanto a que confessa como a que não, perecem do mesmo modo, como pode escapar alguém por inocente que seja? Oh mulher infeliz, por que alimentaste esperança? Por que, ao entrar no cárcere, não admitiu em seguida o que eles queriam? Por que, mulher insensata e louca, desejou morrer tantas vezes quando poderia ter morrido só uma? Segue meu conselho e, antes de suportar todos estes maus, dissesse que é culpada e morre. Não escapará, porque seria uma desgraça catastrófica para o zelo da Alemanha.

36. Quando, sob a tensão da dor, a bruxa confessa “culpa”, sua situação é indescritível. Não só não pode escapar, mas também se vê obrigada a acusar a outras que não conhece, cujos nomes com frequência põem em sua boca os investigadores ou sugere o executor, ou são os que ouviu como suspeitas ou acusadas. Estas por sua vez se veem forçadas a acusar a outras, e essas,  a outras, e assim sucessivamente: quem pode deixar de ver isto?

37. Os juízes devem suspender esses julgamentos (e impugnar assim sua validez) ou queimar a sua família, a eles mesmos e a todos outros; porque todos, antes ou depois, são acusados falsamente; e, depois da tortura, sempre se demonstra que são culpados.   
38. Assim, finalmente, os que ao princípio clamavam com maior força para alimentar as chamas se veem eles mesmos implicados, porque não atinaram a ver que também lhes chegaria a vez. Assim o Céu castiga justamente aos que com suas línguas pestilentas; criaram-se tantas bruxas e enviaram à fogueira a tantas inocentes...

Von Spee não explícita os horríveis métodos de tortura que se empregavam. Transcrevo aqui um resumo de uma valiosa recopilação da enciclopédia de bruxaria e demonologia, do Rossell HopeRobbins(1959):

“Pode-se jogar uma olhada a alguns das torturas especiais do Bamberg, por exemplo, como alimentar pela força à acusada com arenques cozinhados com sal e logo lhe negar a água... um método sofisticado que ia unido à imersão da acusada em uma bacia de água fervendo a que se acrescentou cal. Outras formas de tortura para as bruxas eram o cavalo de madeira, vários tipos de potros, a cadeira de ferro quente, tornos de pernas (botas espanholas) e grandes botas de metal ou couro nas que (com os pés dentro, certamente) vertia-se água fervendo ou chumbo fundido. No tortura da touca, se fazia beber água à acusada com um tecido macio para lhe provocar asfixia. A seguir se retirava rapidamente a gaze para lhe rasgar as vísceras. “Os Anjinhos”, tinham o objetivo de comprimir o polegar da mão ou o dedo gordo do pé na raiz das unhas de modo que a dor ao apertar fosse insuportável”.

“Além disso, aplicavam-se rotineiramente a estrapada, o trampazo e torturas ainda mais desagradáveis que me absterei de descrever. Depois da tortura, e com os instrumentos da mesma ao alcance da visão da “bruxa”, pede-se à vítima que assine uma declaração, que a seguir se qualifica de “livre confissão” admitida voluntariamente”.

Com grande risco pessoal, Von Spee protestou contra a perseguição das bruxas. Também o fizeram outros, principalmente padres católicos e protestantes que tinham sido testemunhas da pratica desses crimes: Gianfrancesco Ponzinibio na Itália, Cornelius Loos na Alemanha e Reginaid Scot em Grã-Bretanha no século XVI; assim como Johann Mayfurth (“Escutem, juízes famintos de dinheiro e perseguidores sedentos de sangue, as aparições do Diabo são pura mentira”, é o que ele bradava) na Alemanha e Alonso Salazar de Frite na Espanha no século XVII. junto com o Von Spee e os Quakers. (Criado em 1652, pelo inglês George Fox, o Movimento Quaker pretendeu ser a restauração da fé cristã original, após séculos de apostasia; eles se chamavam de "Santos", "Filhos da Luz" e "Amigos da Verdade" – donde surge, no século XVIII, o nome "Sociedade dos Amigos". A Sociedade dos Amigos reagiu contra o que considerava abusos da Igreja Anglicana, colocando-se como "sob a inspiração direta do Espírito Santo". Os membros desta sociedade, ridicularizados no século XVII com o nome de quakers (inglês para "tremedores"), que a maioria adota até hoje, rejeitam qualquer organização clerical, para viver no recolhimento, na pureza moral e na prática ativa do pacifismo, da solidariedade e da filantropia. Perseguidos na Inglaterra por Carlos II, os quakers emigraram em massa para os Estados Unidos, onde, em 1681, criaram, sob a égide de William Penn, a colônia da Pensilvânia. Em 1947, os comitês ingleses e americanos do Auxílio Quaker Internacional receberam o Prêmio Nobel da Paz.
Esses homens, em minha opinião e é quase um consenso, são heróis de nossa espécie.

 A pergunta que fica é: Por que não são mais conhecidos?

Até o século XVIII não se contemplou seriamente a possibilidade da alucinação como componente da perseguição das bruxas; o bispo Francis Hutchinson, em seu Ensaio histórico sobre bruxaria (1718), escreveu:

Muitos homens tinham acreditado ver de verdade um espírito externo ante eles, quando era só uma imagem interna que dançava em seu próprio cérebro.

Graças à valentia dos que se opuseram à perseguição das bruxas, a sua extensão até as classes privilegiadas, ao perigo que entranhava para a crescente instituição do capitalismo e, especialmente, à dispersão das ideias da Ilustração europeia, as queimas de bruxas virtualmente desapareceram. A última execução por bruxaria na Holanda, berço da Ilustração, foi em 1610; na Inglaterra, em 1684; na América, em 1692; na França, em 1745; na Alemanha, em 1775, e na Polônia, em 1793. Na Itália, a Inquisição condenou à morte bruxas até finais do século XVIII e a tortura inquisitorial não se aboliu na Igreja católica até 1816. O último bastião defensor da realidade da bruxaria e a necessidade de castigo foram as Igrejas cristãs.

A perseguição de bruxas foi estúpida e vergonhosa. Como pudemos fazer isso? Como podíamos ter tanta ignorância de nós mesmos e nossas debilidades? Como pôde ocorrer nas nações mais “avançadas”, mais “civilizadas” da Terra, um ato tão bárbaro? Por que a apoiavam resolutamente conservadores, monárquicos e fundamentalistas religiosos? Por que se opunham a isso, liberais quaisquer e seguidores do Iluminismo? Se estivermos absolutamente seguros de que nossas crenças são corretas e as de outros erradas, que nos motiva o bem e aos outros o mal, que o rei do universo nos fala e não aos fiéis de fés muito diferentes, que é mau desafiar as doutrinas convencionais ou fazer perguntas inquisitivas, que nosso trabalho principal é acreditar e obedecer... a perseguição de bruxas se repetirá (com outra roupagem) em suas infinitas variações até a época do último homem.

Recorde o primeiro ponto do Friedrich Von Spee e o que implica: se o público tivesse compreendido melhor a superstição e o ceticismo, teria contribuído a provocar um corte na série de causas e efeitos. Se não conseguirmos entender como pode acontecer da última vez, não seremos capazes de reconhecê-lo da próxima vez que surgir.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Alucinações: Ontem, Hoje e Sempre



Iniciando um novo estudo sobre a evolução das crenças e das religiões, gostaria de compartilhar alguns relatos colhido em muitas regiões do mundo, sobretudo Europa. Nossas crenças em nada são absolutamente nossas e muitas vezes nem mesmo sabemos de sua origem. Acreditamos em tantas bobagens, em tantas mentiras sem fonte de verificação, ou mesmo sem vontade de nos aprofundarmos no assunto, que, em minha opinião, o que não acabou ainda, é preciso que acabe o quanto antes, para que o homem possa, de uma vez por todas, libertar-se das garras do “demônio” que habita em sua psique.

Os deuses nos guardam e guiam nossos destinos, é o que ensinam muitas culturas humanas. Existem também outras entidades, mais malévolas, responsáveis pela existência do mal. As duas classes de seres, tanto se a consideramos naturais ou sobrenaturais, reais ou imaginários, servem às necessidades humanas. Até no caso de serem “totalmente imaginários”, muitos se sentem melhor acreditando neles. Assim, em uma época em que as religiões tradicionais se viram submetidas ao fogo iluminador da ciência, não seria estranho vestir uma nova roupagem nos deuses e demônios de antigamente extraterrestres hoje.

A crença nos demônios estava muito estendida no mundo antigo. Os consideravam seres mais naturais que sobrenaturais. Hesíodo os menciona casualmente. Sócrates descrevia sua inspiração filosófica como a obra de um demônio pessoal e benigno. Sua professora, Diotima da Mantineia, disse-lhe que “tudo o que é gênio (demônio) está entre o divino e o mortal... A divindade não fica em contato com o homem, mas sim é através deste gênero de seres por onde tem lugar todo comércio e todo diálogo entre os deuses e os homens, tanto durante a vigília como durante o sonho”.

Platão, o estudante mais célebre do Sócrates, atribuía um grande papel aos demônios: “Nenhuma natureza humana investida com o poder supremo é capaz de ordenar os assuntos humanos, e não transbordar de insolência e engano”.

Não nomeamos aos bois senhores dos bois, nem às cabras das cabras, mas sim nós mesmos somos uma raça superior e governamos sobre eles. Do mesmo modo Deus, em seu amor pela humanidade, pôs acima de nós os demônios, que são uma raça superior, e eles, com grande facilidade e prazer (para eles), nos dão paz, reverência,  ordem e justiça que nunca fraqueja, ou seja, fizeram os homens felizes e uniram as tribos..

Platão negava decididamente que os demônios fossem uma fonte de mau, e representava Eros (o guardião das paixões sexuais) como um gênio ou demônio, não um deus, “nem mortal nem imortal”, “nem bom nem mau”. Mas todos os platonistas posteriores, incluindo os neoplatonistas que influíram poderosamente na filosofia cristã, sustentavam que havia alguns demônios bons e outros maus. O pêndulo ia de um lado a outro. Aristóteles, o famoso discípulo do Platão, considerou seriamente a ideia de que os sonhos estivessem escritos por demônios. Plutarco e Porfírio propunham que os demônios, vinham da Lua.

Os primeiros Pais da Igreja, apesar de serem em sua maioria  neoplatonistas, desejavam separar-se dos sistemas de crença “pagã”. Ensinavam que toda a religião pagã consistia na adoração de demônios e homens, ambos interpretados mal como deuses. Quando o apóstolo Paulo se queixava  da maldade nas alturas, não se referia à corrupção do governo a não ser aos demônios, que viviam ali:

“Porque nossa luta não é contra a carne e o sangue, a não ser contra os Principados, contra as Potestades, contra os Dominadores deste mundo tenebroso, contra os Espíritos do Mal que estão nas alturas”. (Efésios 6, 14)

Desde o começo se pretendeu que os demônios eram muito mais que uma mera metáfora poética do mal no coração dos homens. Os demônios sempre afligiram Santo Agostinho. O pensamento pagão prevalecente em sua época era o seguinte: “Os deuses ocupam as regiões mais altas, os homens as mais baixas, os demônios a do meio... Eles possuem a imortalidade do corpo, mas têm paixões da mente em comum com os homens.” No livro VIII da cidade de Deus (começado em 413), Agostinho assimila esta antiga tradição, substitui aos deuses por Deus e “demoniza” os demônios, declarando que são malignos sem exceção. Não têm virtudes que os redimam. São o manancial de todo o mal espiritual e material. Chama-os “animais etéreos... ansiosos de infligir o mal, completamente alheios à retidão, cheios de orgulho, pálidos de inveja, sutis no engano”.

Podem afirmar que levam mensagens entre Deus e o homem disfarçando-se como anjos do Senhor, mas sua atitude é uma armadilha para nos levar a nossa destruição. Podem assumir qualquer forma e sabem muitas coisas (”demônio” significa “conhecimento” em grego, embora em Latim, “Ciência” signifique “conhecimento), especialmente sobre o mundo material. Por inteligentes que sejam, sua caridade é deficiente. Atacam “as mentes cativas e burladas dos homens”, escreveu Tertuliano. “Moram no ar, têm às estrelas por vizinhas e comercializam com as nuvens.”

Apesar da evolução intelectual, social, política e filosófica, grande parte do caráter e inclusive o nome dos demônios se manteve inalterável desde o Hesíodo até as Cruzadas. Os demônios, os “poderes do ar”, descem dos céus e mantêm relação sexual ilícita com as mulheres. Agostinho acreditava que as bruxas eram fruto dessas uniões proibidas. Na Idade Média, como na antiguidade clássica, quase todo mundo acreditava nessas histórias. chamava-se também aos demônios diabos ou anjos caídos. Os demoníacos sedutores das mulheres recebiam o nome de íncubos; os dos homens, súcubos. 

Há alguns casos em que as freiras, com certa resistência, declaravam uma semelhança assombrosa entre o íncubo e o padre confessor, ou o bispo, e ao despertar na manhã seguinte, “encontravam-se sujas como se tivessem dormido com um homem”. Há relatos similares, mas não em conventos, e sim em haréns na antiga China.

Continua...

domingo, 6 de novembro de 2011

A cibernética Lacaniana


Por Noreda Somu Tossan

Existe um texto de Lacan com o nome de “Psicanálise e Cibernética”, ou “Acerca da Origem das Linguagens”, com data de Junho de 1955, que ainda é pouco estudado pelos historiadores de Psicanálise. Nele Lacan propõe uma interessante aproximação entre a sua teoria do Inconsciente e a Cibernética, uma disciplina então nascente e que décadas mais tarde iria se tornar a nossa já conhecida “Inteligência Artificial”. Curiosamente, nem mesmo os mais competentes biógrafos de Lacan, como, por exemplo, Elizabeth Roudinesco, sequer mencionam essa conferência.

Por qual motivo omitiram esse pensamento lacaniano acerca da Cibernética? Talvez essa seja uma atitude intencional de alguns psicanalistas que vêem na Inteligência Artificial e na Ciência Cognitiva algo necessariamente oposto à Psicanálise. A ciência Cognitiva é demonizada, de forma caricatural, como uma espécie de teoria diabólica que visa, em última análise, transformar os seres humanos em máquinas. Essa tendência aparece na obra de Roudinesco, especialmente no livro “Por que a Psicanálise?”, que tem passagens ácidas no que se refere à Ciência Cognitiva.

Mas outra hipótese que o texto dessa conferência revela-se extremamente complexo para aqueles que não têm formação em Ciência da Computação. Nele, por exemplo, aparecem desenhos em tabelas que parecem, à primeira vista, estranhos. Eles são, na verdade representações de portas lógicas de um computador.

As portas lógicas são uma espécie de representação elétrica do pensamento humano. Se assumimos que quase todo pensamento é constituído de proposições e que elas são, invariavelmente, ou verdadeiras ou falsas, podemos construir um circuito elétrico que as represente. A idéia é que “verdadeiro” ou “falso” podem corresponder, reciprocamente, a 0 e 1, e estes, por sua vez, a um circuito fechado (no qual passa corrente) ou um circuito aberto (no qual não passa corrente). É da idéia cotidiana de que nosso raciocínio são proposições verdadeiras ou falsas que são constantemente combinadas na forma de um cálculo que surge a semelhança entre circuitos elétricos e mentes ou, em última análise, entre mentes e computadores.

Mas por que Lacan estaria preocupado com isso? A Razão parece estar no fato de que há outro conceito fundamental que norteia a Ciência da Computação e a programação de computadores: a “recursão”.

A recursão é um tipo de processo no qual um de seus passos envolve sua repetição completa. Uma forma humorística de definir a recursão é dizer que “as bolachas vendem mais porque são fresquinhas e são fresquinhas porque vendem mais”. O que se percebe nesta frase é um procedimento de repetição, no qual, se não houver uma instrução especifica para parar, continuará assim por um tempo indeterminado. Ou seja, a recursão é o procedimento em círculo, sem que se coloque um fim para ele.

Procedimentos recursivos são a base da construção de algoritmos (programas). Mas isso ocorre não somente com as linguagens artificiais utilizadas pelos computadores. Nossa linguagem natural também é recursiva. Na década de 1950, Noam Chomsky propôs essa hipótese. Quando escrevemos uma sentença, podemos sempre acrescentar uma outra a ela, e assim por diante, num processo infinito. “Há um garoto sentado na ponte” pode se transformar em “Há um garoto que matou seus pais sentado na ponte” e “Há um garoto que matou seus pais sentado na ponte criando coragem para pular” e assim por diante. A linguagem remete à própria linguagem e este é um procedimento circular repetitivo.

Ora, Lacan acompanhava os progressos da Cibernética nos anos 50 e, possivelmente, conhecia os trabalhos de seus pioneiros, entre eles o de Norbert Wiener, que estava profundamente envolvido com a programação de computadores. Da mesma maneira, os trabalhos de Chomsky acerca da recursão em linguagens naturais também deviam ser conhecidos por Lacan.

Se a linguagem é recursiva, nos diz Lacan, o inconsciente também o será, já que está estruturado na forma de uma linguagem. É daí que vem o caráter repetitivo do inconsciente, o fenômeno da repetição inexorável, identificado por Freud na sua obra de maturidade. A repetição em um processo neurótico é praticamente interminável, a não ser que em algum momento haja uma instrução para interrompê-lo, como pode ocorrer na psicoterapia. A neurose é um procedimento recursivo e, para explicar sua natureza, teríamos de buscar um modelo cibernético para ela. O neurótico é uma máquina “em looping” e é isso que o aproxima da pulsão da morte. Essa é, em síntese, a mensagem da conferência de Lacan transcrita no seminário II.

Talvez devamos, então, reconsiderar a posição da Psicanálise diante da Inteligência Artificial e da Ciência Cognitiva. Talvez Roudinesco esteja excessivamente à margem esquerda do rio Sena para poder vislumbrar o interesse de Lacan por essas disciplinas, que na década de 1950 , já eram pesquisas científica de ponta. Mas para reconhecer isso será preciso abandonar preconceitos que permeiam a historiografia da Psicanálise. Provavelmente são eles que não permitem que os historiadores da Psicanálise consigam vislumbrar a verdadeira dimensão dessa conferência de Lacan e prefiram não mencioná-la.

Fonte: Revista Filosofia edição 64 pág 37 (João de Fernandes Teixeira, Ph.D pela University of Essex Inglaterra/Professor titular na Universidade Federal de São Carlos site www.filosofiadamente.org)