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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Alucinações: Ontem, Hoje e Sempre



Iniciando um novo estudo sobre a evolução das crenças e das religiões, gostaria de compartilhar alguns relatos colhido em muitas regiões do mundo, sobretudo Europa. Nossas crenças em nada são absolutamente nossas e muitas vezes nem mesmo sabemos de sua origem. Acreditamos em tantas bobagens, em tantas mentiras sem fonte de verificação, ou mesmo sem vontade de nos aprofundarmos no assunto, que, em minha opinião, o que não acabou ainda, é preciso que acabe o quanto antes, para que o homem possa, de uma vez por todas, libertar-se das garras do “demônio” que habita em sua psique.

Os deuses nos guardam e guiam nossos destinos, é o que ensinam muitas culturas humanas. Existem também outras entidades, mais malévolas, responsáveis pela existência do mal. As duas classes de seres, tanto se a consideramos naturais ou sobrenaturais, reais ou imaginários, servem às necessidades humanas. Até no caso de serem “totalmente imaginários”, muitos se sentem melhor acreditando neles. Assim, em uma época em que as religiões tradicionais se viram submetidas ao fogo iluminador da ciência, não seria estranho vestir uma nova roupagem nos deuses e demônios de antigamente extraterrestres hoje.

A crença nos demônios estava muito estendida no mundo antigo. Os consideravam seres mais naturais que sobrenaturais. Hesíodo os menciona casualmente. Sócrates descrevia sua inspiração filosófica como a obra de um demônio pessoal e benigno. Sua professora, Diotima da Mantineia, disse-lhe que “tudo o que é gênio (demônio) está entre o divino e o mortal... A divindade não fica em contato com o homem, mas sim é através deste gênero de seres por onde tem lugar todo comércio e todo diálogo entre os deuses e os homens, tanto durante a vigília como durante o sonho”.

Platão, o estudante mais célebre do Sócrates, atribuía um grande papel aos demônios: “Nenhuma natureza humana investida com o poder supremo é capaz de ordenar os assuntos humanos, e não transbordar de insolência e engano”.

Não nomeamos aos bois senhores dos bois, nem às cabras das cabras, mas sim nós mesmos somos uma raça superior e governamos sobre eles. Do mesmo modo Deus, em seu amor pela humanidade, pôs acima de nós os demônios, que são uma raça superior, e eles, com grande facilidade e prazer (para eles), nos dão paz, reverência,  ordem e justiça que nunca fraqueja, ou seja, fizeram os homens felizes e uniram as tribos..

Platão negava decididamente que os demônios fossem uma fonte de mau, e representava Eros (o guardião das paixões sexuais) como um gênio ou demônio, não um deus, “nem mortal nem imortal”, “nem bom nem mau”. Mas todos os platonistas posteriores, incluindo os neoplatonistas que influíram poderosamente na filosofia cristã, sustentavam que havia alguns demônios bons e outros maus. O pêndulo ia de um lado a outro. Aristóteles, o famoso discípulo do Platão, considerou seriamente a ideia de que os sonhos estivessem escritos por demônios. Plutarco e Porfírio propunham que os demônios, vinham da Lua.

Os primeiros Pais da Igreja, apesar de serem em sua maioria  neoplatonistas, desejavam separar-se dos sistemas de crença “pagã”. Ensinavam que toda a religião pagã consistia na adoração de demônios e homens, ambos interpretados mal como deuses. Quando o apóstolo Paulo se queixava  da maldade nas alturas, não se referia à corrupção do governo a não ser aos demônios, que viviam ali:

“Porque nossa luta não é contra a carne e o sangue, a não ser contra os Principados, contra as Potestades, contra os Dominadores deste mundo tenebroso, contra os Espíritos do Mal que estão nas alturas”. (Efésios 6, 14)

Desde o começo se pretendeu que os demônios eram muito mais que uma mera metáfora poética do mal no coração dos homens. Os demônios sempre afligiram Santo Agostinho. O pensamento pagão prevalecente em sua época era o seguinte: “Os deuses ocupam as regiões mais altas, os homens as mais baixas, os demônios a do meio... Eles possuem a imortalidade do corpo, mas têm paixões da mente em comum com os homens.” No livro VIII da cidade de Deus (começado em 413), Agostinho assimila esta antiga tradição, substitui aos deuses por Deus e “demoniza” os demônios, declarando que são malignos sem exceção. Não têm virtudes que os redimam. São o manancial de todo o mal espiritual e material. Chama-os “animais etéreos... ansiosos de infligir o mal, completamente alheios à retidão, cheios de orgulho, pálidos de inveja, sutis no engano”.

Podem afirmar que levam mensagens entre Deus e o homem disfarçando-se como anjos do Senhor, mas sua atitude é uma armadilha para nos levar a nossa destruição. Podem assumir qualquer forma e sabem muitas coisas (”demônio” significa “conhecimento” em grego, embora em Latim, “Ciência” signifique “conhecimento), especialmente sobre o mundo material. Por inteligentes que sejam, sua caridade é deficiente. Atacam “as mentes cativas e burladas dos homens”, escreveu Tertuliano. “Moram no ar, têm às estrelas por vizinhas e comercializam com as nuvens.”

Apesar da evolução intelectual, social, política e filosófica, grande parte do caráter e inclusive o nome dos demônios se manteve inalterável desde o Hesíodo até as Cruzadas. Os demônios, os “poderes do ar”, descem dos céus e mantêm relação sexual ilícita com as mulheres. Agostinho acreditava que as bruxas eram fruto dessas uniões proibidas. Na Idade Média, como na antiguidade clássica, quase todo mundo acreditava nessas histórias. chamava-se também aos demônios diabos ou anjos caídos. Os demoníacos sedutores das mulheres recebiam o nome de íncubos; os dos homens, súcubos. 

Há alguns casos em que as freiras, com certa resistência, declaravam uma semelhança assombrosa entre o íncubo e o padre confessor, ou o bispo, e ao despertar na manhã seguinte, “encontravam-se sujas como se tivessem dormido com um homem”. Há relatos similares, mas não em conventos, e sim em haréns na antiga China.

Continua...

domingo, 6 de novembro de 2011

A cibernética Lacaniana


Por Noreda Somu Tossan

Existe um texto de Lacan com o nome de “Psicanálise e Cibernética”, ou “Acerca da Origem das Linguagens”, com data de Junho de 1955, que ainda é pouco estudado pelos historiadores de Psicanálise. Nele Lacan propõe uma interessante aproximação entre a sua teoria do Inconsciente e a Cibernética, uma disciplina então nascente e que décadas mais tarde iria se tornar a nossa já conhecida “Inteligência Artificial”. Curiosamente, nem mesmo os mais competentes biógrafos de Lacan, como, por exemplo, Elizabeth Roudinesco, sequer mencionam essa conferência.

Por qual motivo omitiram esse pensamento lacaniano acerca da Cibernética? Talvez essa seja uma atitude intencional de alguns psicanalistas que vêem na Inteligência Artificial e na Ciência Cognitiva algo necessariamente oposto à Psicanálise. A ciência Cognitiva é demonizada, de forma caricatural, como uma espécie de teoria diabólica que visa, em última análise, transformar os seres humanos em máquinas. Essa tendência aparece na obra de Roudinesco, especialmente no livro “Por que a Psicanálise?”, que tem passagens ácidas no que se refere à Ciência Cognitiva.

Mas outra hipótese que o texto dessa conferência revela-se extremamente complexo para aqueles que não têm formação em Ciência da Computação. Nele, por exemplo, aparecem desenhos em tabelas que parecem, à primeira vista, estranhos. Eles são, na verdade representações de portas lógicas de um computador.

As portas lógicas são uma espécie de representação elétrica do pensamento humano. Se assumimos que quase todo pensamento é constituído de proposições e que elas são, invariavelmente, ou verdadeiras ou falsas, podemos construir um circuito elétrico que as represente. A idéia é que “verdadeiro” ou “falso” podem corresponder, reciprocamente, a 0 e 1, e estes, por sua vez, a um circuito fechado (no qual passa corrente) ou um circuito aberto (no qual não passa corrente). É da idéia cotidiana de que nosso raciocínio são proposições verdadeiras ou falsas que são constantemente combinadas na forma de um cálculo que surge a semelhança entre circuitos elétricos e mentes ou, em última análise, entre mentes e computadores.

Mas por que Lacan estaria preocupado com isso? A Razão parece estar no fato de que há outro conceito fundamental que norteia a Ciência da Computação e a programação de computadores: a “recursão”.

A recursão é um tipo de processo no qual um de seus passos envolve sua repetição completa. Uma forma humorística de definir a recursão é dizer que “as bolachas vendem mais porque são fresquinhas e são fresquinhas porque vendem mais”. O que se percebe nesta frase é um procedimento de repetição, no qual, se não houver uma instrução especifica para parar, continuará assim por um tempo indeterminado. Ou seja, a recursão é o procedimento em círculo, sem que se coloque um fim para ele.

Procedimentos recursivos são a base da construção de algoritmos (programas). Mas isso ocorre não somente com as linguagens artificiais utilizadas pelos computadores. Nossa linguagem natural também é recursiva. Na década de 1950, Noam Chomsky propôs essa hipótese. Quando escrevemos uma sentença, podemos sempre acrescentar uma outra a ela, e assim por diante, num processo infinito. “Há um garoto sentado na ponte” pode se transformar em “Há um garoto que matou seus pais sentado na ponte” e “Há um garoto que matou seus pais sentado na ponte criando coragem para pular” e assim por diante. A linguagem remete à própria linguagem e este é um procedimento circular repetitivo.

Ora, Lacan acompanhava os progressos da Cibernética nos anos 50 e, possivelmente, conhecia os trabalhos de seus pioneiros, entre eles o de Norbert Wiener, que estava profundamente envolvido com a programação de computadores. Da mesma maneira, os trabalhos de Chomsky acerca da recursão em linguagens naturais também deviam ser conhecidos por Lacan.

Se a linguagem é recursiva, nos diz Lacan, o inconsciente também o será, já que está estruturado na forma de uma linguagem. É daí que vem o caráter repetitivo do inconsciente, o fenômeno da repetição inexorável, identificado por Freud na sua obra de maturidade. A repetição em um processo neurótico é praticamente interminável, a não ser que em algum momento haja uma instrução para interrompê-lo, como pode ocorrer na psicoterapia. A neurose é um procedimento recursivo e, para explicar sua natureza, teríamos de buscar um modelo cibernético para ela. O neurótico é uma máquina “em looping” e é isso que o aproxima da pulsão da morte. Essa é, em síntese, a mensagem da conferência de Lacan transcrita no seminário II.

Talvez devamos, então, reconsiderar a posição da Psicanálise diante da Inteligência Artificial e da Ciência Cognitiva. Talvez Roudinesco esteja excessivamente à margem esquerda do rio Sena para poder vislumbrar o interesse de Lacan por essas disciplinas, que na década de 1950 , já eram pesquisas científica de ponta. Mas para reconhecer isso será preciso abandonar preconceitos que permeiam a historiografia da Psicanálise. Provavelmente são eles que não permitem que os historiadores da Psicanálise consigam vislumbrar a verdadeira dimensão dessa conferência de Lacan e prefiram não mencioná-la.

Fonte: Revista Filosofia edição 64 pág 37 (João de Fernandes Teixeira, Ph.D pela University of Essex Inglaterra/Professor titular na Universidade Federal de São Carlos site www.filosofiadamente.org)







domingo, 30 de outubro de 2011

O Positivismo Filosófico como Religião




Por Noreda Somu Tossan

Há algum tempo venho escrevendo textos sobre religiões digamos, desconhecidas, mas que de forma silenciosa, influenciou e ainda influencia muitos pensamentos. Sinto certa dificuldade em me manter imparcial frente a algumas delas. Evito também exagerar no sarcásmo e ironia, traço bem característicos dos meus escritos. Pois bem, coletei informações e resolvi trazer à baila (como diria o mestre Levi) para que pudessemos dissecar mais esta vertente religiosa, ou filosófica, para então, por meu de nosso trabalho especulativo, possamos aprender um pouco mais à medida que ensinamos.

O que é “Positivismo”?

Positivismo é um conceito que possui diferentes significados, englobando tanto perspectivas filosóficas e científicas do século desenove quanto outras do século vinte. Desde o seu início, com Augusto Comte (1798-1857) na primeira metade do século desenove, até a atualidadeI, o sentido da palavra mudou de forma absurda, incorporando diferentes sentidos, muitos deles opostos ou contraditórios entre si. Nesse sentido, existem correntes de outras disciplinas que se consideram "positivistas" sem guardar nenhuma relação com a obra de Augusto Comte.

Exemplos paradigmáticos disso são o “Positivismo Jurídico”, do austríaco Hans Kelsen, e o “Positivismo Lógico”, de Rudolph Carnap, Otto Neurath e seus associados. Para Comte, o Positivismo é uma doutrina filosófica, sociológica e política. Surgiu como desenvolvimento sociológico do Iluminismo, das crises social e moral do fim da Idade Média e do nascimento da sociedade industrial (processos que tiveram como grande marco a Revolução Francesa (1789-1799). Em linhas gerais, ele propõe à existência humana valores completamente humanos, afastando radicalmente a teologia e a metafísica (embora incorporando-as em uma filosofia da história). Assim, o Positivismo associa uma interpretação das ciências e uma classificação do conhecimento a uma ética humana radical, desenvolvida na segunda fase da carreira de Comte.

O método geral do positivismo de Auguste Comte consiste na observação dos fenômenos, opondo-se ao racionalismo e ao idealismo, por meio da promoção do primado da experiência sensível, única capaz de produzir a partir dos dados concretos (positivos) a verdadeira ciência(na concepção positivista), sem qualquer atributo teológico ou metafísico, subordinando a imaginação à observação, tomando como base apenas o mundo físico ou material. O Positivismo nega à ciência qualquer possibilidade de investigar a causa dos fenômenos naturais e sociais, considerando este tipo de pesquisa inútil e inacessível, voltando-se para a descoberta e o estudo das leis (relações constantes entre os fenômenos observáveis). Em sua obra Apelo aos conservadores, Augusto Comte definiu a palavra "positivo" com sete acepções: real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático.

A ideia-chave do Positivismo Comteano é a Lei dos Três Estados, de acordo com a qual o homem passou e passa por três estágios em suas concepções, isto é, na forma de conceber as suas ideias e a realidade:

1º Teológico: o ser humano busca explicar a realidade por meio de "deuses", buscando responder a questões como "de onde viemos?" e "para onde vamos?"; além disso, busca-se o absoluto;

2º Metafísico: é um meio-termo entre a teologia e a positividade. No lugar dos deuses há entidades abstratas para explicar a realidade: "o Éter", "o Povo", "o Mercado financeiro", etc. Continua-se a procurar responder a questões como "de onde viemos?" e "para onde vamos?" e procurando o absoluto é a busca da razão e destino das coisas. é o meio termo entre teológico e positivo.

3º Positivo: etapa final e definitiva, não se busca mais o "porquê" das coisas, mas sim o "como", por meio da descoberta e do estudo das leis naturais, ou seja, relações constantes de sucessão ou de coexistência. A imaginação subordina-se à observação e busca-se apenas pelo observável e concreto.

Auguste Comte deu vida à “Religião da Humanidade”. Após a elaboração de sua filosofia, Comte concluiu que deveria criar uma nova religião, afinal de contas, para ele, as religiões do passado eram apenas formas provisórias da única e verdadeira religião, “A religião positiva”. Segundo os positivistas, as religiões não se caracterizam pelo sobrenatural, pelos "deuses", mas sim pela busca da unidade moral humana. Daí a necessidade do surgimento de uma nova Religião que apresentasse um novo conceito do “Ser Supremo”, então surge a Religião da Humanidade.

Os positivistas diziam que a Teologia e a Metafísica, nunca inspiraram uma religião verdadeiramente racional, cuja instituição estaria reservada ao advento do espírito positivo. Estabelecendo a unidade espiritual por meio da ciência, a Religião da Humanidade possui como principal objetivo a Regeneração Social e Moral. A Religião da Humanidade possui como Ser Supremo a Humanidade. Ela representa o conjunto de seres convergente de todas as gerações, passadas, futuras e presentes convergentes, isto é, que contribuíram, que contribuem e que contribuirão para o desenvolvimento e aperfeiçoamento humano.

O dogma da Religião da Humanidade é a ciência. Também foram construídos templos e capelas onde são celebrados cultos elaborados à Humanidade. A religião positivista caracteriza-se pelo uso de símbolos, sinais, estandartes, vestes litúrgicas, dias de santos (grandes figuras humanas), sacramentos, comemorações cívicas e pelo uso de um calendário próprio, o Calendário Positivista (um calendário solar composto por 13 meses de 28 dias). O lema da religião positivista é : "O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim" (sôa familiar?)

Augusto Comte foi o criador da palavra "altruísmo", palavra que segundo o fundador, resume o ideal de sua nova religião. A idéia de uma unidade humana (moral, intelectual e prática) considera que o ser humano só poderá ser harmônico, coerente e, portanto, feliz, se puder manter uma unidade mental individual e, ao mesmo tempo, puder relacionar-se bem com seu meio. Para isso, precisa cultivar o altruísmo e manter idéias sintéticas; com isso, terá sentimentos e noções gerais que permitirão uma conduta generosa e esclarecida em suas atividades cotidianas, que tendem a ser egoístas e dispersivas.

A influência positivista no Brasil ocorreu de diferentes formas e lugares, desde a década de 1870 até meados do século vinte, mas estendendo-se até o século vinte e um. Entretanto, foi no Rio de Janeiro, entre o final do Império e a I República que o Positivismo foi mais notável no Brasil, desempenhando um papel central tanto no processo de Abolição da Escravatura quanto no de Proclamação da República. Além disso, a laicização do Estado e das instituições públicas foi uma das grandes preocupações dos positivistas, além da realização da justiça social e do progresso social. Nessas ações, os nomes mais conhecidos são os de Benjamin Constant Botelho de Magalhães (o "Proclamador da República") e o de Raimundo Teixeira Mendes, autor da bandeira nacional.

O modelo atual da bandeira Brasileira é um reflexo dessa influência na política nacional. Na bandeira lê-se a máxima política positivista “Ordem e Progresso”, surgida a partir do lema comteano: “O Amor por princípio e a Ordem por base, o Progresso por meta, representando as aspirações a uma sociedade justa, fraterna e progressista. Como não poderia faltar, fica a pergunta:

Alguém aqui é positivista?

Noreda Somu Tossan

Fontes: Discurso sobre o Espírito Positivo/Sistema de Política Positiva/Wikipedia



quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A pílula da felicidade

Por Noreda Somu Tossan

Uma das melhores coisas que a filosofia despertou em mim, foi a capacidade de questionar. Não só questionar para poder debater com amigos e outros blogueiros, mas sim, avaliar tudo aquilo que vejo e depois digerir este conteúdo e quando possível, escrever sobre ele com minhas próprias palavras. Uma dessas maravilhas é a capacidade de não mais assistir a um filme e não fazer uma avaliação crítica de seu conteúdo. Pois bem, assisti recentemente a um filme chamado “Sem limites”, onde um jovem escritor com bloqueio criativo se vê desesperado por não conseguir escrever seu livro.

Casualmente ele encontra um amigo que lhe oferece uma pílula misteriosa, e daí para frente tudo em sua vida muda. Sua capacidade cognitiva é elevada ao extremo e sua cabeça se torna um turbilhão. Me perguntei se esta pílula seria possível com os avanços na área da farmacologia e neurociência. Pesquisei aqui e ali e quero fazer um breve relato sobre os males e os benefícios dos avanços da tecnologia. Boa leitura.

Muito antes de Heidegger formular sua crítica romântica à tecnologia e nos falar de niilismo, o sociólogo alemão Max Weber já preconizava que a época moderna se caracterizaria pelo desencantamento do mundo. Desencantar-se é uma característica inevitável do processo de racionalização provocado pela ciência e pelo surgimento das sociedades industriais. A nova imagem do mundo que se consolidou ao longo século XX visou aniquilar com a religião e com tudo que poderia haver de mágico na nossa concepção de universo.

No século XXI assistimos a mais um passo nessa direção: o desencantamento do "eu". As novas ciências, em especial a neurociência, nos convidam a abandonar a imagem do ser humano como criatura dotada de uma alma imortal, que seria uma centelha do divino. Temos todos um cérebro igual, de onde se quer inferir que somos todos iguais. Mas isso pode soar tão absurdo como querer dizer que o cardápio de todos os restaurantes do mundo deveria ser igual porque o estômago humano é igual em todos os lugares e culturas.

O desencantamento do “eu” visa à dissolução da subjetividade. A ciência estaria tentando profanar um dos últimos bastiões da Religião e da Filosofia ao buscar uma explicação científica da natureza da consciência humana. Contra essa iniciativa, que parece tão drástica, mas, ao mesmo tempo reconhecida como inexorável, cada vez mais surgem grupos humanos que se agarram às crenças mais bizarras ou à fé fundamentalista. O fundamentalismo seja religioso ou político, tornou-se uma marca da vida contemporânea tanto quanto a ciência, embora se alastre predominantemente nas sociedades pré-tecnológicas do terceiro mundo.

Essa avalanche sobre o “eu”, protagonizada pela neurociência, manifesta-se, sobretudo, no uso crescente de drogas que produzem estados alterados de consciência. Sabemos que todas as sociedades humanas sempre tentaram, por meio da legislação, impor uma política da experiência ou uma espécie de ética da consciência, que visa banir as drogas proibidas, nem sempre com justificativas médicas ou científicas aceitáveis.

Mas agora não se trata mais apenas de banir as drogas ilegais. É preciso discutir as drogas lícitas que produzem estados alterados de consciência. As tentativas de suprimir as tristezas e a falta de atenção das crianças na escola levaram a uso quase que indiscriminado de antidepressivos e de substâncias como a ritalina. As conseqüências desse processo já se fazem sentir até na modificação da psicologia popular, na qual já não se fala: “Estou triste”, mas “Estou deprimido”.

Mas será que se pode exigir das pessoas que não se entristeçam ou não se angustiem? Em um futuro próximo é possível que o uso dessas drogas para melhorar o humor e o aprendizado passe a ser por parte dos empregadores (item da cesta básica) e pelos professores (farão parte da merenda escolar). E alguém poderia proclamar: por que não? O exército americano já obriga seus soldados a ingerirem algumas drogas que podem fazer que eles percorram grandes distâncias carregando equipamentos geralmente muito pesados sem, entretanto, sentir cansaço.

Não faz muito tempo, a neuro-farmacologia descobriu algumas substâncias que induzem a experiência religiosa. Ora, será que essas substâncias não deveriam ser consumidas por todos e o Estado declará-las obrigatórias? A religião é mais confortável que o ateísmo, disso já sabia o velho Kant. Então por que não disseminar a religiosidade? Afinal, indivíduos e sociedades religiosas serão, supostamente, mais pacatos e administráveis... Será esta a “pílula de Deus”, já que existem pílulas para tantas outras coisas.

A questão de fundo, contudo, continua a mesma. O que torna alguns estados alterados de consciência mais desejáveis que os outros? A neuro-farmacologia trouxe, a reboque, um amplo leque de dilemas éticos e força novas pautas de discussão filosófica. Afinal, o que define um bom estado de consciência e quais, dentre todos os que podemos ter, devem ser declarados ilegais ou inaceitáveis? Essa é a pergunta principal que deve nortear uma ética da consciência, já que vivemos (e viveremos) predominantemente em estados alterados de consciência, produzidos pela ingestão, cada vez mais freqüente, de drogas legais ou ilegais. Afinal, desde a invenção do Prozac, ingressamos definitivamente no admirável mundo novo de que nos falava Aldous Huxley.

Não estamos preparados para a demolição do “eu”. Se há uma década temíamos que máquinas se tornassem conscientes, hoje, temos de temer que humanos percam a consciência. Não há nada mais abundante no planeta do que seres humanos, e eles podem se tornar úteis para os propósitos de uns poucos por maio da supressão da consciência. A supressão da consciência tem se revelado um investimento menor, do ponto de vista econômico, do que a construção de robôs conscientes. Essa é a nova forma que a angústia passou a ter a partir do século XXI.

A ética da consciência precisará nos ajudar a escolher entre os possíveis estados alterados de consciência no intervalo entre a “angústia mórbida”, que não nos permite sequer levantar da cama, e o “alienado feliz”, aquele que Sartre chamava de “salaud”, ou o idiota imune à própria angústia. Não será uma escolha nada fácil.

Noreda Somu Tossan

Fonte: Filme "Sem limites"
Fonte: Revista Filosofia nº 60

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

“O Grande Assombro”


Por Noreda Somu Tossan

Caro leitor, convido-o para um passeio pelo campos pouco visitados da imaginação. Peço que à medida em que for lendo este texto, deixe que seus pensamentos, de alguma forma, materializem as imagens que proponho. Não permita que a dúvida do desconhecido lhe roubem as maravilhosas visualizações que cérebro pode lhe proporcionar.

Imagine você, um homem. Este homem que é tão complexo em sua constituição. O homem é um ser prefeito, dotado de capacidades que faltam em todos os outros animais. O homem pensa, o homem pode construir coisas, assim como também pode destruir (e isso ele faz com perfeição). O homem , quando comparado a uma formiguinha, é enorme. Outro dia eu passeava pelo parque Ibirapuera e não pude deixar de notar um formigueiro enorme. As formiguinhas entravam e saíam deste formigueiro num vai-e-vem intermitente.


Como são pequeninas pensei eu. Poderia, com apenas uma pisada de meus enormes pés, destruir centenas delas. Eu sou um gigante se comparado a elas. Sou tão grande que nem caibo em seu campo de visão. Poderia até dizer que nem existo, pois elas não conseguem me ver.


Mas imagine você, que uma formiga, se comparada a uma pulga, também é gigante. Uma formiga pode ser trezentas vezes maior que uma pulga, e com apenas uma picada...se conseguir pegá-la, pode matar uma pulguinha.

Mas também imagine, que uma pulguinha, por menor que seja, ainda é maior que um ácaro. E que o ácaro, mesmo tão pequeno e insignificante, é muito maior que um vírus, que variam de 10 a 350 milimicra de diâmetro. Mas ainda assim, encontramos corpos menores em nosso meio. Por exemplo os átomos, que são tão pequenos, que até pouco tempo atrás imaginava-se que ele seria indivisível (daí seu nome átomos em grego, indivisível). Os átomos são menores que vírus e células.


Até fins do século 19, o átomo era considerado a menor porção em que se poderia dividir a matéria, mas nas duas últimas décadas daquele século, as descobertas do próton e do elétron revelaram o equívoco dessa idéia. Posteriormente, o reconhecimento do nêutron e de outras partículas subatômicas reforçou a necessidade de revisão do conceito de átomo.


Você está conseguindo acompanhar, e imaginar a pequenez destes corpos? Muito bem, vamos fazer o caminho inverso agora.

Imagine novamente o homem, que até aqui foi a maior figura que você concebeu. Mas vamos compará-lo agora ao oceano. Ele não passa de uma minúscula partícula se o compararmos com o imenso oceano que banha nosso planeta azul (azul justamente por causa do oceano). Agora imagine a Terra, esta assombrosa bola que pende no espaço, e que comporta toda a vida que nós homens conhecemos. Imaginou?


Agora imagine o Sol, o “Astro-rei” que é hum milhão de vezes maior que a nossa “gigante Terra”. Mas existem estrelas maiores que o nosso “gigante Sol...a “Eta Carinae” é cinco milhões de vezes maior que ele. A “Betelgeuse” (Alpha Orionis é uma estrela de brilho variável sendo a 10ª ou 12ª estrela mais brilhante no firmamento. É também a segunda estrela mais brilhante na constelação de Orion), é aproximadamente trezentas vezes maior que a Eta Carinae.

Consegue imaginar?


E se eu te disser para imaginar agora, uma estrela que tem o volume de 2.940.000.000 (lê-se: dois bilhões e novecentos e quarenta milhões ) o do nosso “não tão gigante” planeta Terra. Estimações anteriores de seu diâmetro dizem-na ainda maior, com um raio de quatorze unidades astronômicas, o que equivale a 3000 raios solares.


Seu nome é “V Y Canis Majoris“. Estudiosos dizem que ela já perdeu cerca de metade da sua massa e o seu fim será, provavelmente, uma explosão de supernova, dentro de aproximadamente 3200 anos.

Se você conseguiu ler este texto até aqui, eu preciso que você “tente” agora, imaginar o homem, mas sem perder de vista este monstro chamado V Y Canis Majoris. Não dá não é?! Eu sei. Eu também não consigo.

Qual a finalidade deste meu texto tão “imaginativo”? É simples:


Você consegue conceber o Ser criador de todas essas maravilhas? Alguns dizem que é Deus. Outros dizem que tudo teve origem em uma explosão chamada Big-Bang. Eu particularmente não sei. Mas uma coisa é certa:

Se Deus criou tudo isso, ele deve ser muito maior que o Universo, e sendo maior que o nosso infinito Universo, não consigo imaginar ele interagindo com o homem, a menos é claro, que ele tenha um microscópio, pois esta é a única maneira de ele nos ver.

Este texto nos deixa com duas possibilidades:


Uma delas é que Deus realmente criou todo o Universo e nos deixou a deriva, pois está impossibilitado de nos ver, devido a nossa pequenez, o que não anula sua existência, pelo contrário, só o deixa realmente do tamanho que deve ser. A outra possibilidade é....deixo pra você imaginar.

Edson Moura